simulacros, simulações e a não existência da realidade plena

Reflexões sobre o livro “Simulacros e Simulações” de Jean Baudrillard que me fizeram viajar na matrix.

Livro “Simulacros e Simulações” no filme Matrix (1999)

Enquanto estava a pesquisar para a minha dissertação sobre cenários sociais, culturais e mercadológicos aplicado aos games, segui a indicação do meu orientador para ler Simulacros e Simulações de Jean Baudrillard. O livro me foi apresentado como “aquele que inspirou o filme Matrix e depois sumiu das prateleiras”. Dizem que depois dos três filmes de Matrix, e as várias teorias de conspiração derivadas destes, os livros desapareceram. Se conspiração é real, não sei, mas o livro físico é mesmo difícil de encontrar e é bastante caro… Mas para minha felicidade, achei uma versão de português de Portugal de 1991, suficiente para eu viajar na matrix, ou na maionese mesmo…

Referências

Sobre o autor: Jean Baudrillard foi um filósofo e sociólogo francês (1929–2007). Pesquisou sobre cultura, principalmente quanto a “realidade construída” (hiper-realidade), construção de signos/significados (simulacros), atribuição de valor. Baudrillard foi um dos poucos intelectuais que utilizam a “patafísica” como base de suas teorias: “ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções”, também conhecida como área que estuda o que a física e a metafísica não exploram.

Sobre o livro: Simulacros e Simulações (1981) apresenta pontos de interrogação de forma irônica quanto aos signos (simulacros) que conhecemos, fazendo o leitor se questionar se está vivendo na realidade real ou em uma realidade simulada em todas as circunstancias imagináveis. O autor apresenta hipóteses de como se criam os signos, como eles evoluem e como a mídia contribui para a criação e difusão de significados, transformando a vida social em uma perfeita simulação, similar a um “reality show”. O livro foi importante para o desenvolvimento de teorias nas áreas de comunicação, publicidade e marketing, é antecessor do “branding”. As teorias apresentas pelo autor no livro inspiraram dos filmes de hollywoodianos.

O SHOW DE TRUMAN: criado dentro de estúdio de gravação, Truman teve toda sua vida filmada e televisionada sem perceber que sua vida era na verdade uma simulação para um reality show.

MATRIX (trilogia): os personagens circulavam entre dois mundos, o ‘real’ em que poucas pessoas conseguiam habitar, e o ‘simulado’ (a matrix) onde a maior parte das pessoas viviam. Como a matrix, uma hiper-realidade construída de forma virtual era perfeitamente igual a realidade, as pessoas não conseguiam discernir entre o real e simulado.

Os principais conceitos

Simulacros: portadores tangíveis ou intangíveis de signos/significados, valores.

Simulações: apoiando-se nos mais diversos simulacros, as simulações são tão perfeitas quanto a realidade, fazendo-nos acreditar que a simulação é real.

Hiper-Realidade: a simulação e a realidade podem ser semelhantes, porém desvinculadas (identificação do que não é real). Quando a simulação é perfeita, chama-se de hiper-realidade. Uma realidade construída por meio de simulacros coesos.

Significação: para que o simulacro tenha um sentido para os participantes das simulações hiper-realistas, o processo de significação dos mesmos deve ser comum a maioria. O valor simbólico ‘inicial’, quando o objeto é recém dotado de um novo significado é frágil se comparado a um signo cujo seu processo simbólico é uma construção sobre outros objetos simbólicos.

Hipermercado: para o autor, o mercado é uma hiper-realidade — a soma de diversos simulacros de todos os participantes de uma sociedade mercantil que busca aplicar valor a produtos e serviços.

Mídia Pós Moderna: a mídia, por atingir as massas, pode transmitir e solidificar significados, sendo ela motor de criação e manipulação de simulacros. Para que a simulação se torne hiper-real, é necessário que o maior número de pessoas participe.

Reflexões do autor que achei interessante

  • As simulações são dificilmente dissociadas da realidade. Simular a loucura é estar louco. Simular um roubo será considerado roubo.
  • A verdade será uma simulação sempre que necessário, quando a simulação ainda não é hiper-real, ou quando deixa de ser hiper-real (identificação da simulação). Exemplos do autor: após a realização de vários sacrifícios em nome de um deus, será difícil que se reconheça que o mesmo não exista ou esteja errado — os sacrifícios perderam seus significados, sobrando apenas os prejuízos materiais e morais apenas aquele que realizou tais sacrifícios. Caso o mesmo deixe de acreditar, sairá da cenário ‘hiper-real’. Porém, poderá continuar a simular para conviver com o cenário hiper-real.
  • Cultura e Contracultura são faces de uma mesma moeda. A Contracultura sempre será parte da cultura, relacionando-se entre si por meios dos mesmos simulacros.
  • O mercado como grande criador de simulacros e simulações, pode não só criar significados como resignificar os velhos. Como exemplo, os ‘velhos hábitos’ que o autor chama de “faculdades perdidas”: health/natural/home food, valorização da comida caseira após a perda do hábito de cozinhar na rotina contemporânea (olha aqui a explicação técnica do “Raio Gourmetizador”); jogging, valorização da caminhada como modalidade esportiva, após perda do hábito de caminhar como ação necessária. Atividades que podem ser “romantizadas” para haja desejo em sua prática.

Na prática

Para absorver melhor o conteúdo, busquei aplicar os conceitos do autor para a identificação de pelo menos uma hiper-realidade. Nesta época do ano, encontrei dois bons exemplos. O fim de ano e o inicio de ano são dois dias como outros quaisquer, porém, carregadores de diversos simulacros que remetem a “fechamento de ciclo”, “renovação” e etc. E o outro, o Natal, que tentei identificar alguns simulacros.

  • A DATA: simulacro que caracteriza a época do natal por representar o nascimento de Jesus. A data foi estipulada pela igreja católica, porém, há evidencias cientificas de que Jesus nasceu em março. A data inclusive é uma ressignificação de eventos celebrados antes do nascimento de Jesus. Em diversos povos, o celebrava-se o solstício de inverno que ocorre na mesma época porque os dias seguintes começariam a ficar mais longos, tendo relação direta com o calendário agrícola — não comercial. Por razões semelhantes, em Roma, nesta época se celebrava o retorno do Deus do Sol, que apareceria mais a partir de então.
  • OS PERSONAGENS: Papai Noel foi uma figura inspirada em São Nicolau criada pelo mercado (Coca Cola) para representar esta época do ano. São Nicolau foi um bispo Turco que presenteava necessitados com sacos de moedas, e que depois foi santificado (ou simulacrilazado como santo?) e também foi utilizado como personagem de natal em algumas culturas protestantes.
  • A DECORAÇÃO: árvores de natal, iluminação “pisca pisca”, guirlandas, botas de papai noel. Criação da matriz.
  • RITUAIS: a troca de presente e o “espírito de união” são rituais resultados desta simulação hiper-real. Pois mesmo que não se acredite no papai noel, o “espírito de natal” faz com que as pessoas participem dos rituais. Estes rituais aconteciam antes mesmo do Natal, pois a troca de presentes e afetos fazem parte de rituais de socialização de várias espécies. Um outro simulacro comum desta época é creditar o ritual a história dos três reis magos que deram presentes para Jesus recém-nascido.

Não sei se os conceitos, exemplos e reflexões serão entendidos sem o repertório que o livro trás consigo. Mas espero que seja útil ou interessante à alguém que, como eu, gosta de viajar na matrix (romantização de “viajar na maionese”, simula que o aquele que viaja na matrix é mais “intelectual” do que aqueles que “viajam na maionese”, porém, tudo lixo do mesmo saco:]).

Caso queiram ler o livro completo, compartilho as versões que encontrei para download. Todas na versão de 1991 da editora Relógio D’água (Portugal):

Versão em Word/ODT — Versão para Kindle/.mobi — Versão Xerox em PDF

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio D’água, 1991.

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