Cartas eletrônicas.

Correspondência entre Paola e Riva.

Riva,

Hoje passei o dia pensando sobre existencialismo, o clássico “a existência precede a essência”.

E também li esse texto sobre amor e existencialismo: http://ideas.aeon.co/viewpoints/skye-cleary-on-can-the-existentialists-teach-us-anything-useful-about-love

um beijo!

Paola.

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Paola,

Achei legal a coleção de ideias naquele texto que tá na Aeon. Tem umas ideias bonitas pra mim, com ressonância, pelo menos quando olho para elas isoladamente, fora da bagunça complexa que é a vida. Mas sinto um problema no texto. Ele apresenta essas ideias num pacote, e nesse pacote tá escrito mais ou menos assim: “aprenda a viver com os existencialistas e você sofrerá menos no amor”. Essa abordagem de apresentação das ideias eu acho equivocada.

Mesmo que eu ignore a minha falta de afinidade com o pensamento existencialista, eu ainda vejo um grande problema com esse pacote, porque o problema não está no existencialismo e sim no ato de apresentar ideologias como se fossem produtos na prateleira, os quais a gente pode escolher como consumidor (e dá até pra sentir aquele mesmo apelo elitista da publicidade “se você é inteligente, você vai escolher esse produto aqui”).

Se tornar existencialista no amor só porque é um produto recomendado por muita gente, na minha opinião leva ao moralismo. Poderia chamar de dogmatismo, mas prefiro apontar para o moralismo porque fica mais caricato e fácil demonstrar o problema. Penso no nudista moralista, que é aquele que vê seu vizinho saindo no quintal de shorts pra regar as plantas, e já vai achando que seu vizinho se perdeu. Ele se tornou prisioneiro da nudez, e a liberdade de adornar a bunda com um short florido se tornou tabu. Moralismo é a muleta pra facilitar a vida de quem não consegue entender ética e encadeamentos complexos de relações. Eu não tenho dificuldade nenhuma em visualizar um libertário (ou libertino) moralista. Qualquer pessoa que tenha levado a sério a sugestão de Nietzsche de que deveria ser proibido casar apaixonado, é um moralista. Não sei se ele tava falando sério e é claro que eu entendo o que ele quis dizer. Acho que ele estava apenas sendo artista e poeta, mas também pode ser que ele próprio tenha sido um moralista sem saber.

O problema de ideologias supostamente revolucionárias é que a pessoa não tem a oportunidade de trabalhar seu mundo interior, suas heranças, complexos, limitações. Ela passa de uma hora pra outra a direcionar sua vida conforme um ideal específico que já está pronto. Essa imagem pronta se torna instantaneamente o molde para a autoimagem da pessoa, e rapidamente ela começa a se ver capaz de ser aquilo, e não percebe que da noite para o dia passou a ignorar completamente quem ela realmente é, com todos os seus monstros e anjos interiores. E quem pode garantir que o que um chama de “monstro” não é de fato um anjo? Ou vice-versa? Isso só a própria pessoa está capacitada a descobrir, mas o supermercado das ideologias impede que ela embarque nesse trabalho de autodescoberta.

A maioria das pessoas infelizmente tem essa fraqueza, a tendência a se abrigar em um sistema ideológico que ofereça respostas e sugestões de vida. “Faça isso e você se tornará uma pessoa bem-resolvida”. “Faça aquilo e você sofrerá menos no amor”. É mudar a autoimagem para se encaixar no abrigo. Mas é só a autoimagem que muda, por dentro ela ainda é a mesma. É um comportamento natural, não estou criticando. O que estou criticando são as posturas que ignoram esse fenômeno natural. Essa é a postura das pessoas que sempre surgem no rastro de algum movimento ideológico, fazendo estudos e doutrinações. Não sou contra ideologias, sou contra uma outra coisa para a qual não sei ainda dar um nome.

Ou talvez eu devesse dizer que gosto de ideias e não de ideologias, mas não sou muito preocupado com semântica quando converso com você (que bom!)

Com essa conversa estou dando continuidade ao que falamos outro dia sobre doutrinação. Ideias com potencial de doutrinação vão surgir o tempo todo, isso é inevitável. Mas como ser humano que se importa com trocas, ou seja, comunicador e artista, eu sinto a necessidade de uma responsabilidade. A responsabilidade de evitar construir pacotes que possam estimular pessoas a tentar ilusoriamente viver aquilo que elas não são. Porque a maioria das pessoas realmente se ilude com facilidade. A maioria pode se sentir encaixado numa ideologia através de uma identificação puramente racional, mas sem real identificação por parte das muitas pessoas que vivem dentro dela. E quando essas pessoas interiores não são reconhecidas, você sabe o que elas se tornam!

Então uma pessoa pode começar a se banhar no existencialismo na esperança de sofrer menos, e depois de alguns anos andar por aí atormentada por monstros terríveis. Lá dentro eram apenas pessoas querendo um pouco de atenção e comida, coisa simples, mas com o tempo e a negligência, viraram monstros.

Acho muito melhor uma pessoa assumir quem ela é (ou melhor, quem ela “são”) abertamente, e viver as consequências, mesmo que isso vá contra toda a vanguarda intelectual. Ao viver as consequências, duas coisas podem acontecer: 1) um dia ela se cansa e descobre, organica e legitimamente, que não se identifica mais com aquilo que escolheu, e deseja mudar. Nesse caso o desejo de mudança vem acompanhado de uma clareza muito grande de porque e como. Ou pode acontecer de 2) descobrir, ao contrário do que previa a vanguarda intelectual, que ela é feliz com a vida que escolheu. Isso também existe. Existe gente feliz em todo tipo de situação que outros achariam detestáveis. Existe gente feliz no amor romântico convencional. Existe gente feliz em carreiras corporativas. Essas pessoas são felizes porque aceitam de boa seu universo particular de afinidades. Ou seja, são felizes não graças a um modo de vida X ou Y, mas por terem menos diferença entre o seu mundo interior e o exterior. Menos conflito entre o dentro e o fora.

O que eu sinto claramente é que essas duas alternativas acima são muito melhores para a saúde do ser, do que o ato de seguir uma ideologia específica e viver atormentado por fantasmas. Algumas ideologias são lindas no papel, mas não valem nada quando desrespeitosamente ignoram a diversidade interior de cada indivíduo. E esse mundo interior é complicado e único em cada um. Nenhuma corrente de pensamento vai servir de guia absoluta na nossa autodescoberta, pois haverão contradições, particularidades que não se encaixam. Nisso eu totalmente me identifico com o pensamento do Krishnamurti.

A gente tem que viver.

Eu poderia falar mais das coisas que não entendo no existencialismo. Mas acho que o problema é mais embaixo, então tentei ir direto na raiz. Me corrija se estou enganado, mas acho que eu não saí dos assuntos que você levantou esses dias. A questão dos direitos de saber e não saber. A responsabilidade nas escolhas. A questão da doutrinação. A vida “intencionada sem direção”. Experiências culturais e opções prontas. Paternalismo. Na minha cabeça, tudo ligado e passando pelas questões acima.

E acho que como artistas a gente tem a responsabilidade de propor ideias de uma forma que não alimente paternalismo. Não é fácil, a nossa tendência natural é querer propor respostas prontas e escrever no imperativo. Mas a gente tem que tentar. Acho que você conseguiu esse equilíbrio no seu texto sobre o direito à ignorância. Mas aquele texto na Aeon eu achei paternalista, porque provê respostas prontas e uma receita de vida supostamente universal.

Aliás, os existencialistas já não tinham combinado que não existe uma essência universal?

:D

Beijos! ***

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