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Imagina….

A minha relação com o futebol é contraditória e provocou encontros inusitados. Cresci ouvindo [de tabela] partidas de futebol pelo rádio. A imagem que não sai da minha memória é a do meu pai sentado, ouvindo atentamente cada lance. Vale um grifo aqui para o aparelho: um daqueles enormes, bem antigos, uma verdadeira mobília, assim como eram os pianos nas casas do início do século passado.

A cena descrita acima não despertou em mim qualquer interesse, não fez nenhum gol, sequer chegou na pequena área. Na realidade, a narração me causava uma grande irritação — fala corrida, embolada, repetitiva, sem pausa, sem respiração, durante noventa minutos. Como alguém conseguia falar daquele jeito? Como as pessoas tinham paciência pra ficar ouvindo? Me parecia absurda a redundância nos comentários depois dos jogos e seguiam dias, semanas, meses….sobre o gol feito e, principalmente, sobre o gol não feito. Quanto mais o tempo passava, mais o tema e a cena me incomodava [meu pai ao lado do rádio, hipnotizado pelo futebol]. Mas criança não verbaliza certas inquietações, apenas sente. E o pior: aos poucos, me dei conta que futebol não era paixão somente do meu pai, era paixão nacional.

Por sorte, fui descobrindo que existiam outras paixões, ainda que não fossem tão evidenciadas quanto o futebol. Ufa! Respirei aliviado. Nem tudo estava perdido.

Tive os primeiros contatos com a música. Minha mãe sempre se preocupou em nos proporcionar o que ela não teve, mas considerava importante para a nossa formação cultural. Por acompanhar as apresentações das orquestras da cidade e perceber em mim o gosto por aquele tipo de música, ela me matriculou no Conservatório de Música local. Lá eu aprendi o que é: uma partitura; um sustenido e um bemol; um solfejo e uma vocalize; conheci Bach, Chopin; Béla Bartók e o canto gregoriano; tive a certeza que tudo aquilo era bem mais interessante que uma partida de futebol.

Paralelamente, estudei com a professora de canto gregoriano da Barroca Matriz do Pilar. Foram anos de muito aprendizado e ao mesmo tempo um choque com o mundo que me rodeava. A maioria dos meninos na minha idade, apenas iam à escola e brincavam. Me sentia na contramão do que considerava ser “uma vida normal de criança e adolescente”. Não compreendia a dimensão daquele outro mundo que eu acabara de descobrir [e me encantar, mesmo que silenciosamente]. Quando compreendi, era tarde demais, já havia abandonado o conservatório e as aulas de canto gregoriano. Fazer o quê?

Aos poucos, me aproximei de outro universo: o da literatura — fui conhecendo autores, estilos, prosa, poesia. Resultado: ironicamente, acabei me reencontrando com o futebol. Fui percebendo que diversos autores os quais eu admirava eram apaixonados pelo tal esporte e outros já tinham até mesmo escrito livros sobre o tema. Tudo bem! Não me abalei! A obra deles era uma coisa, e a paixão pelo jogo outra. Eu continuaria negando o futebol, veementemente.

Mas o tempo, os estudos, o trabalho, os relacionamentos [profissionais ou não] nos permitem conexões jamais pensadas na infância e adolescência, nos ajudam a compreender os diversos elementos de uma cultura e de sua formação. Partindo desse princípio, ou seja, com um certo amadurecimento, comecei a prestar atenção no futebol, não pelo viés técnico porque não fazia mais sentido àquela altura, não pretendia jogar bola nem ficar discutindo performance dos jogadores e/ou times. Aliás, o futebol é um dos poucos esportes que não se aprende depois de adulto [eu nunca conheci alguém que tenha aprendido].

Comecei a me perguntar o que os escritores que eu tanto admirava viam no futebol. Então fui ler o que haviam escrito sobre o tema. Bingo! Passei a enxergar o outro lado da moeda: o chamado futebol-arte, o futebol como estratégia, como fenômeno e paixão. Saiu de cena a irritação e entrou a curiosidade [arrisco dizer, admiração]. Afirmo que dois nomes foram fundamentais para que eu começasse a prestar atenção no tal esporte: Nelson Rodrigues [e suas memoráveis crônicas esportivas], e José Miguel Wisnik [com seu “Veneno Remédio”]. Depois vieram outros. A indiferença foi cedendo lugar à observação.

Nelson, um talento raro para textos teatrais, deu um novo approach às crônicas esportivas e, de maneira inequívoca, conseguia traduzir com poesia o que se passava nos campos mesmo sem, literalmente, enxergar bem.
 Como dizem: “Ele dava um tom épico aos jogos que os tornava bem melhores que na realidade”. A beleza, a inteligência, o humor dos seus textos são incríveis. O futebol para Nelson Rodrigues não era um jogo banal em que onze jogadores de cada lado tentam fazer um gol: era uma luta heroica não pela vitória, mas pela vida entre gladiadores uniformizados e cercados por torcidas delirantes. Qualquer semelhança com a vida fora dos campos é mera coincidência.

Com Wisnik não foi diferente. Pensei: o que levaria um pesquisador musical a gostar tanto de futebol? Me parecia, no mínimo, curioso. Fui ler “Veneno remédio”. Percebi que o livro tem abrangência muito além do óbvio. O autor descreve aquilo que faz do jogo uma atividade capaz de apaixonar bilhões de pessoas, dos mais remotos cantos do mundo. O futebol não se desenvolve à margem da sociedade ou é reflexo dela. Wisnik diz: “é uma instância em que as linhas de força e de fuga do embate social e da construção do imaginário se apresentam de modo ao mesmo tempo claro e cifrado, como costuma acontecer com as expressões artísticas. O futebol tem muito a dizer, com sua linguagem não-verbal, sobre muitas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra ótica questões fundamentais da formação da nossa identidade”.

Bem, quando já me considerava um iniciado, descubro que meu grande ídolo também era mais um apaixonado por futebol: Chico Buarque. Minha atenção ao esporte, inevitavelmente, aumentou.

Chico me levou a Tostão. Passei a ler as crônicas esportivas do ex jogador. Percebi que o texto dele vem carregado, além da experiência nos campos, da sua formação cultural [muito diferente da maioria dos seus pares]. Não por acaso, Chico Buarque é um admirador do craque.

Recentemente, descobri o documentário mineiro [que nada tem de recente]: “Tostão: a fera de ouro”, de 1969. Um registro histórico de extrema relevância por mostrar também um lado do jogador pouco ou nada conhecido pela torcida: o gosto pela literatura e pela MPB, o comportamento introspectivo e discreto concentração, o relacionamento amistoso com os colegas de equipe, além, é claro, da determinação.

Numa trama — aparentemente contraditória — o incômodo cedeu lugar à admiração. Posso não ter marcado nenhum gol, mas cheguei à pequena área!

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