Como aprendi a controlar o meu dinheiro

Thabata Abreu
Oct 6, 2017 · 6 min read

Hoje eu sou consultora financeira e controlo o meu dinheiro na vírgula.

Sei exatamente o quanto entra, o quanto sai e o quanto eu preciso gerar de receita por mês para atingir os meus objetivos.

Mas nem sempre foi assim.

Há um tempo atrás eu sentia que a minha vida financeira não ia bem.

Eu tinha um trabalho legal, que pagava bem, mas não conseguia entender o meu holerite, não sabia identificar para onde o dinheiro ia e não tinha planejamento para o futuro.

Sabia que isso não estava certo, mas ia levando.

O raciocínio era bem simples: enquanto a grana que entrava me permitisse fazer as coisas que eu tinha vontade, colocar as finanças em ordem não era uma prioridade.

Afinal, eu tinha tantas outras coisas para me preocupar!

Eu vivia numa rotina “work hard, play hard”, me dedicava intensamente ao meu trabalho e gastava o que ganhava com coisas que me davam a sensação de recompensa: festas, restaurantes, viagens, roupas…

Até que chegou um momento que o meu trabalho e as coisas que eu precisava fazer para “manter o equilíbrio” se tornaram insustentáveis.

Eu não conseguia cuidar da minha saúde, não tinha tempo para estudar as coisas que me interessavam, quase não via a família e ao longo do tempo perdi o contato com as pessoas que eu considerava meus amigos.

Nunca vou esquecer o dia que me olhei no espelho e me dei conta que eu tinha me tornado a profissional que imaginei que um dia seria, mas que eu não reconhecia aquela pessoa que estava na minha frente.

Pouco tempo depois eu saí daquele emprego.

Tive alguns conflitos entre aproveitar o momento e voltar o quanto antes ao mercado de trabalho.

Mas após desabafar com um amigo dos tempos de faculdade, resolvi tirar um sabático.

Foi aí que tudo começou.

Eu sabia que o dinheiro que tinha dava para me manter durante algum tempo.

Mas eu ia ficar sem salário e precisava me organizar para conseguir bancar a minha escolha.

O que eu fiz para lidar com isso?

1. Passei a anotar todos os gastos diariamente

Parece uma coisa simples de ser feita, mas na prática é bem mais difícil.

Eu já tinha tentado controlar as despesas guardando os comprovantes das compras e registrando mensalmente numa planilha.

Mas aquilo tomava muito tempo e eu não conseguia enxergar os benefícios.

Fora os gastos em dinheiro que ficavam sem controle porque nem sempre eu lembrava com o que tinham sido.

Então eu baixei um app no celular para me ajudar nesta tarefa (testei vários até encontrar o que eu uso hoje) e comecei a lançar as despesas.

No começo não funcionou muito bem.

Tinha semanas que eu lançava tudo direitinho, mas tinha semanas que eu simplesmente não estava a fim de abrir o aplicativo.

Nem por isso eu desisti.

Descobri que quando a gente tenta adquirir um novo hábito, o ótimo é inimigo do bom.

E continuei lançando as despesas mesmo com os “buracos” que iam se formando pelo caminho.

Depois seis meses fazendo os registros, minha cabeça deu um clique.

Comecei a fazer uma soma mental e quando estourava o orçamento da semana, simplesmente não gastava mais.

Mais tarde, nos meus estudos sobre finanças comportamentais, descobri que existe uma teoria por trás de tudo isso.

Basicamente, o nosso cérebro possui dois sistemas que influenciam a nossa forma de pensar:

- O sistema 1: que é rápido, intuitivo, associativo e difícil de controlar

- O sistema 2: que é consciente, lento, exige raciocínio e é usado para tarefas mais complexas

Quando o registro das despesas passa do sistema 2 para o sistema 1, a tendência é que essa ação se torne automática e tenhamos cada vez menos falhas nos registros.

No livro O Poder do Hábito, do Charles Duhigg, ele ensina que um hábito é composto por uma deixa, uma rotina e uma recompensa.

No meu caso, para criar o hábito do registro das despesas, a deixa passou a ser o momento que o vendedor me pergunta:

Como será o pagamento?

Quando isso acontece, junto com a carteira eu já pego o celular e abro o aplicativo.

Criei uma rotina para o registro das informações.

A recompensa veio só depois de um tempo: descobri que a tranquilidade em saber que a minha vida financeira está controlada não tem preço.

O registro das despesas diárias é super importante porque elas costumam ser a principal causa do descontrole financeiro.

A maioria das pessoas sabe quais são os grandes gastos.

Se eu te perguntar o quanto você gasta com aluguel (ou prestação) e condomínio, com combustível e com saúde, você provavelmente saberá me falar os valores.

Mas se eu te perguntar o quanto somou no mês os gastos com lanche, cafezinho, happy hour e outras despesas do dia a dia, você dificilmente saberá me responder.

E, acredite, essas despesas são maiores do que a gente imagina.

2. Criei uma planilha de orçamento inteligente

O registro das despesas já foi um grande passo porque passei a pensar duas vezes antes de gastar com alguma coisa.

Mas ter todas as informações registradas em uma planilha que me permitia olhar o passado, o presente e projetar o futuro também ajudou bastante.

O problema foi que a maioria das planilhas de orçamento disponíveis na internet são padronizadas, cheias de linhas, colunas e fórmulas que mais confundem do que ajudam.

Então decidi criar a minha própria planilha de orçamento.

Como eu já registrava os gastos no aplicativo, ter uma planilha que baixasse automaticamente todas as minhas despesas divididas por categorias e meses ia me poupar bastante tempo e trabalho no acompanhamento mensal.

Com essas informações organizadas, passei a olhar o quanto eu tinha de dinheiro e o quanto eu gastava com cada uma das coisas.

E foi isso que me permitiu saber durante quanto tempo eu conseguiria me manter.

Outra coisa que ajudou bastante foi criar foi uma coluna para registrar a minha estratégia com cada uma das contas.

Por exemplo, depois de olhar as linhas de despesas eu estipulei um valor por mês que poderia gastar com lazer.

E ao lado da categoria lazer eu coloquei uma observação: poderei gastar x reais por semana com lazer e despesas relacionadas.

Com essa informação e com os registros diários, eu sabia o quanto ainda podia gastar e o quanto já tinha gasto com lazer.

3. Mudei o foco

Enquanto a minha preocupação era ganhar dinheiro eu não conseguia ter controle sobre as finanças.

Quando a minha preocupação passou a ser a melhor forma de gastar o meu dinheiro, o controle das despesas ficou bem mais fácil.

Afinal, eu quero gastar o meu dinheiro (que não é infinito) da melhor forma possível!

Este ponto é um pouco subjetivo mas descobri algumas ferramentas que ajudaram bastante.

Uma delas é a roda da vida.

Aprendi que tudo fica mais fácil quando o nosso nível de felicidade e satisfação com a vida está alto.

Financeiramente falando, quando analisei a minha roda da vida e identifiquei as áreas que precisava me dedicar para ser mais feliz, consegui criar estratégias para lidar com elas.

Por exemplo, uma das coisas que eu precisava fazer para ser mais feliz era retomar o contato com a minha família.

Antigamente, para compensar a distância, cada vez que eu via a minha família gastava um valor considerável com lembrancinhas e refeições.

Mapeando essa necessidade, coloquei na agenda ligar uma vez por semana para os meus pais.

É uma atividade sem custo (falamos por whatsapp), que aumentou o meu nível de felicidade e que aliviou o meu orçamento porque eu não preciso mais consumir alucinadamente ou gastar com agrados para compensar o distanciamento.

O controle das minhas finanças me mostrou que lidar com o dinheiro é algo muito maior do que imaginamos num primeiro momento.

Hoje eu preciso de bem menos e sou muito mais feliz.

Gosto de pensar que esse é um processo de cura. Cura dos padrões, programações e condicionamentos que aprendemos ao longo da vida.

Cada etapa do processo te permite se conhecer um pouco mais, revisar crenças e estabelecer novas prioridades.

Quando descobrimos que a vida por si só é um presente e que o dinheiro é só um instrumento, tudo ganha um novo significado e se torna muito mais leve.

Thabata Abreu

Written by

Finanças com Propósito

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade