a faca do vazio

“este é o meu primeiro prêmio. aqui está um gênio.” afirmou ernst growald, jurado do concurso de cartazes realizado pelos fósforos priester. a frase fazia referência ao cartaz produzido por lucian bernhard, precursor do movimento plakatstil. o conteúdo do cartaz não poderia ser mais direto, dois fósforos dispostos paralelamente abaixo do lettering ‘priester’, ambos fazem contraste ao fundo preto do cartaz. um bréu completo que faz saltar a mensagem: “priester fazem fósforos”. desenhado em 1905 o cartaz é um dos precursores do modernismo figurativo no design, movimento que teve suas entranhas definidas em áreas irmãs como arte, arquitetura, fotografia e o próprio design editorial.

ernst growald, priester (1905)

a “genialidade” apontada por growald tinha um fundamento claro. existia, ali, uma quebra de linguagem e discurso frente ao panorâma visual das publicações da época. as ilustrações barrocas e o art noveau eram substituidos no cartaz de bernhard pelo espaço incompleto da matéria. o total preenchimento, e o sempre presente adorno, viraram simplicidade e vazio. growald brandava em seu cartaz a independência desse espaço vazio, espaço esse não definido só por quem desenha mas também por quem o lê.

anos mais tarde o bréu ao fundo se repete. dessa vez nos cartazes do multi-artista man ray para o sistema metroviário londrino. no poster, o logo do sistema de transporte é posicionado como um planeta em perspectiva à saturno. os dizeres no rodapé dos cartazes informam: “london — transport keeps london going”. aqui, novas rupturas. não só de linguagem mas também de técnica –a ilustração da lugar a manipulação fotográfica– e, principalmente, do papel do leitor. diferente do discurso cravado e direto de bernhard, man ray apresenta um conteúdo inacabado. cabe, ao leitor, preenchê-lo. ligando as pontas dos elementos e formando a mensagem através de um processo de analise da peça. dessa forma o artista traz o espectador para dentro do processo de leitura da imagem, criando um vínculo entre mensagem e destinatário. nota-se que o vazio é peça fundamental nessa construção, ele é o próprio imaginário, as possibilidades, a ponte que é construída pelo nada.

man ray, london underground posters (1938)
armin hofmann, giselle (1959)
carlo vivarelli, fur das alter’ (1949)

com esse movimento, man ray –assim como outros designers– adiciona uma nova pontuação à comunicação visual, a percepção. transformando assim a gama de significados que o vazio, e o consequente espaço do cartaz, pode ter. em ‘giselle’, de armin hofmann, o vazio tem um peso dramático, incidindo sobre o corpo da bailarina que é absorvido pelo nada no decorrer de sua dança; no clássico ‘beethoven’ de josef muller brockmann, o esbranquiçado fundo funciona como um palco em que as linhas se movimentam ditando o ritmo da composição; no cartaz de malcolm grear para o museu guggenheim, o vazio do fundo atua como o horizonte de manhattan, que da visibilidade a volumosa forma do edifício; em ‘fur das alter’, carlo vivarelli dedica praticamente todo o espaço do cartaz para o bréu do fundo, que quase expulsa a foto da margem e vira elemento principal da construção da mensagem, o desesperador preto. enfim, o sutil significado do vazio é alterado a partir das relações que se estabelecem entre ele e os outros elementos de composição.

atuando como poderoso elemento de linguagem, o espaço do vazio atinge quase todos os campos artísticos do séc. xx. desde as solitárias pinturas de postos de gasolina americanos de ed ruscha, passando pelas tramas e padrões visuais de frank stella até chegar nos monotons e na obscuridade dos sentidos de edward hopper. saindo do universo da pintura, esse espaço ganha força nas instalações e nos site specific. em ‘your sun machine’, olafur elliason, propõe uma sala vazia que se altera pelo feixe de luz que incide e se transforma através de uma abertura no teto. robert irwin brinca com a percepção de realidade ao instalar um vidro, que distorce os limites da sala vazia no segundo andar do antigo prédio do whitney, em ‘scrim veil — black rectangle — natural light’. com seus gigantescos labirintos de chapas de metais, richard serra apequena o leitor e o introduz dentro de uma grande sequência de espaços vazios delimitados por suas imponentes estruturas. a obra, nesse contexto, não é para ser vista, é para ser experencializada.

robert irwin, scrim veil — black rectangle — natural light (1977)

seu peso é tanto que incide, inclusive, no próprio espaço do museu. símbolo do hightech da déc. de 70, a base do projeto do ‘centro georges pompidou’ (renzo piano e richard rogers) é justamente a exploração desse grande vazio, ao externalizar toda a infraestrutura do edifício os arquitetos abrem uma grande galeria do nada, que abre seu interior para o exterior da praça, fazendo com que a cidade entre e consuma esse universo. 30 anos antes, lina bo bardi suspende o volume do museu e usa seu espaço para a proteção de um grande vão, que emoldura e cataliza a cidade ao redor. ao avistar o vão, john cage bradou: “É a arquitetura da liberdade!”. o mesmo compositor que talvez tenha desenhado a mais emblemática presença do vazio na música, 4’33’. longos quatro minutos e meio de silêncio, contemplação.

um importante resumo da presença desse espaço e dos motivos de seu uso foi apontado pelo arquiteto jean nouvel. em conversa com o filósofo jean baudrillard, ele afirma: “esta búsqueda del límite, esta búsqueda de la nada, de casi nada, se hace en el interior de una búsqueda de positividad, es decir que estamos en la búsqueda de la esencia de algo. esta búsqueda de la esencia espera límites que son del orden de la percepción, y que son del orden de la evacuación de lo visible. no es más el ojo el que permite gozar, es el espíritu.

esse mesmo vazio que atravessa todos esses campos como uma faca se firma como um símbolo estético do convite à percepção. o que não se vê, é, portanto, um grande espaço que devolve a pergunta a quem o olha. o que deve ser visto? o processo de completar essa equação talvez seja o andar necessário para que o não revelado se constitua como um espaço aberto para o surgimento do novo, do desconhecido.