Mais um nas estatísticas — momentaneamente exponenciais.

14:00 — 24/09/2015

Guarda chuva (fechado) na mão direita, casaco entreaberto esvoaçando, aproveitando a brisa, passos levemente rápidos, olhos atentos, mas mente levemente distraída (por ser um trajeto habitual). Assim eu caminhava no passeio de pedestres, que atualmente deve ser considerado como pesadelo dos transeuntes. Parei em uma esquina, esperando os carros passarem para poder atravessar a faixa de segurança.

Casaco de moletom largo e gasto, velho tênis de corrida, bermuda de praia em pleno dia nublado, meias dobradas em sanfona; assim passou por mim o jovem adulto de aproximadamente 1,80m, com cabelo raspado. Atravessou a rua antes de mim. Eu estava com pressa para a consulta no oftalmologista: apressei o passo. Depois de uma quadra, ultrapassei o homem do moletom. Mais uma quadra se passou, olhei pra trás desconfiado; ele estava um pouco distante, a aproximadamente 15 metros. Fiquei mais tranquilo. Cinco segundos depois, passa à minha esquerda um vulto cinza, caminhando rápido. Era apenas um jogo de posicionamento, e pela primeira vez eu o havia perdido.

- Ei, cara! Olha aqui!

Eu sou o cara; por isso, olho em minha diagonal. É aí que contemplo a gorda silhueta traseira da pistola 9mm empunhada pela magra mão do meliante. Estava em seu bolso canguru (“ah, por isso o moletom estava largo”, pensei). Congelei por meio segundo; então entendi a situação, e a aceitei.

- Vem comigo! Tu não vai correr e tu não vai pedir ajuda nem chamar a polícia! Passa tudo, celular, carteira, ou estouro a tua cara! Vamo logo!
No mesmo momento, me lembrei de um texto chamado “A arte do assaltado”, discutido por minha professora de português (Lauci Belle) no 2º ando do ensino médio. No texto, a vítima do roubo (ou rapto, não recordo exatamente) se comportou tão bem perante a vontade de seus assaltantes que foi solta com saúde, e até recebeu algumas coisas de volta.
Fiz o mesmo.

Segui os passos do assaltante, até que ele sinalizou para que nos aproximássemos de uma daquelas enormes lixeiras destinadas a lixo orgânico (onde pessoas do outro lado da rua não têm visibilidade) e então ordenou que eu entregasse meus pertences; e rápido, ou atiraria.

- Beleza, vou entregar — respondi com voz calma, mas clara.
Enquanto eu colocava meu celular nas mãos do bandido, perguntei educadamente para ele, olhando para seu rosto:
- Posso ficar apenas com meu cartão da Unimed? É que estou indo para uma consulta médica, e vou precisar dele.
“Pode”, ele me respondeu. Fiquei satisfeito. Então abri minha carteira apenas para tirar o cartão. Foi então que ele me disse:
- Passa todo o teu dinheiro! Todo ele! Se não tu já sabe!

Minhas mãos ficaram um pouco trêmulas; e catar o dinheiro em meio aos cartões de visita, aos documentos pessoais e a alguns boletos e recibos ficou mais difícil. Ainda bem que normalmente deixo o dinheiro agrupado: encontrando uma nota, encontro todas.

- Anda logo, cara! Vai mais rápido!
Já me acostumei com essa frase ao longo do tempo, mas em outras situações definitivamente mais seguras — apesar de nunca me sentir bem perante ela.
Agarrei as notas de dinheiro (R$ 35,00) e as entreguei, todas.
- Vamos andando. Me acompanha. — ele não roubou meus documentos, ainda bem.

Um passeio como refém. Essa foi a sensação dos seguintes passos. Respiração e consciência calmas devido ao meu benéfico comportamento, apesar da incerteza do futuro; “será que esse cara vai valorizar minha colaboração? Vou voltar bem para casa? Espero que sim; tenho que fazer com que sim.” era a linha dos meus pensamentos.
- Meu, tu não faz nada! Se não eu atiro ou te sequestro!
- Fica tranquilo, não vou fazer. Eu sei que a vida é a coisa mais valiosa que existe.
- Isso.

Continuamos a caminhada contra o vento. Tinha que caminhar na maior tranquilidade. Era meu dever.
- Unimed é um plano de saúde?
- Sim. — respondi timidamente.
- Pra onde tu vai?
- Vou reto — e ia mesmo.
- Eu vou pegar um ônibus, e tu não vai dar um piu.
- Beleza.
Mais passos em direção à incerteza.
- Mudei de ideia. Já que tu foi legal comigo, vou ser legal contigo. — anunciou o bandido. Tirou o meu ex-dinheiro do bolso e devolveu R$ 5,00 — Tu vai pegar um ônibus com esse dinheiro e vai pra bem longe.
- Ok. — respondi, sem saber direito o que pensar.
- Tu vai comigo até a parada.

Atravessamos uma faixa até o canteiro. Tivemos de esperar 30 segundos até poder atravessar a próxima via. Uma multidão de pessoas à volta, inclusive uma criança; e eu com a responsabilidade de manter tranquilo um homem armado, que estava claramente ansioso — reforçava a todo momento para que eu não reagisse. “Caminha mais rápido. Vamo!” Devido aos fortes decibéis emitidos pelos veículos da avenida, e à minha tensão, às vezes eu não conseguia entender o que ele falava; então eu acabava perguntando “O que?” ou “Dobramos agora?” ou “Naquela parada?”.
- Meu, tu pergunta demais, cara! — era um xeque.
- Desculpa.

Continuamos caminhando. Passamos da criança de aproximadamente 3 anos. Fiquei um pouco aliviado. O bandido decidiu compartilhar sua história.
- Vou mostrar isso pros meus filhos. — provavelmente estava se referindo ao celular — Fiquei preso por 8 anos, mas logo vou ser solto.
“Quer dizer que ele ainda tá preso, mas circulando por aí e assaltando? E vai ser solto?” pensei. “E o que ele fez pra ser preso por 8 anos?” temi.
De supetão, ele me fez a seguinte pergunta:
- Onde tu mora?
“Puta que pariu! Se eu não responder, ele me mata? Não posso responder isso!”
- Não muito perto. — um segundo de silêncio — Mas, sinceramente, cara, prefiro não falar.
Doce sinceridade. Veio a calhar.
- Eu sou de uma facção, a gente tá por aí. Sei onde tu mora, a gente fica de olho.
Gelei. Não pude acreditar. E não acreditei. E se fosse verdade eu já estaria fodido, de qualquer forma. Fiquei, pois, em silêncio.
- Vamos atravessar aqui. Agora! Vamo! — E nos forçou a ir quando o sinal dos carros estava abrindo. Atravessamos correndo. Controlei minha velocidade ao atravessar a rua, para que ele não pensasse que era uma fuga. Chegamos à parada de ônibus que ele queria.
- Tu não vai pedir ajuda! Se tu fizer qualquer coisa, eu te estouro pelo para-brisas mesmo!

Na parada, ele começou a forjar alguns assuntos superficiais, para disfarçar o assalto, como “minha tia me convidou pra um churrasco, mas não sei se vou ir com toda essa chuva… esse tempo tá complicado, chovendo toda hora”. Àquela altura, eu já não conseguia dar respostas tão eficientes. Apenas respondia “é mesmo” e forçava um sorriso amarelo, desconfortável.
- Tu vai entrar no ônibus que eu mandar. Não, não é nesse, nem naquele!
Ele comentou alguma coisa, que não consegui entender direito, mas as palavras que decifrei foram “um Viamão… um Viamão… vai bem longe… mais ou menos uns…”.
Até então eu estava relativamente tranquilo com a situação: mas com os últimos comentários, comecei a ficar bem ansioso. A frequência de minha respiração aumentou consideravelmente, assim como meus medos. “Por que ele tá escolhendo um ônibus específico? Será que ele vai me acompanhar e realmente me sequestrar, como tinha ameaçado?! E por que?! Eu não posso deixar ele me sequestrar! Será que ele vai ficar na parada, mas vai ter alguém da tal facção dele dentro do ônibus?”

Enfim ele avistou um ônibus à distância, e sinalizou que eu iria ingressar naquele — graças a Deus não era um de Viamão.
- Vai lá! É nesse daí que tu vai.
- Beleza. Tô indo nele.
Comecei a caminhar em direção a porta da frente. Rezei para que o bandido não apontasse a arma para mim, e nem que ele estivesse me seguindo. Não ousei olhar para trás enquanto estava na fila. Apenas fiquei de pé, calmamente esperando as pessoas à frente subirem os degraus, acompanhando a fila.
- Vamos subindo, vamos subindo! Dá pra todo mundo aí subir, venham! — clamava o motorista do ônibus. Para mim, aquilo era uma cena de resgate em um filme de guerra. O piloto de helicóptero havia chegado para me tirar das trevas.
Subi o primeiro degrau. As portas atrás de mim se fecharam. O motor fez barulho e o ônibus arrancou. Olhei para minha esquerda, e visualizei, por entre a janela, meu assaltante se tornando pequeno a minha vista. Aquele momento foi tão bom que cheguei a tremer o tom de minha voz ao anunciar às pessoas que estavam antes da roleta do cobrador:
- Acabei de ser assaltado. O bandido me roubou e me acompanhou até eu pegar esse ônibus. Ele estava armado na parada, junto com todos vocês. Tomem cuidado!
As pessoas ficaram chocadas. Um perigo existente e imperceptível, a apenas alguns metros delas.
O motorista do ônibus aconselhou que eu descesse na próxima parada, em frente a uma delegacia, e fizesse meu boletim de ocorrência. Foi o que fiz. Mas o tempo inteiro que continuei fora de casa, fiquei temendo que o ladrão me visse novamente, pois eu estava por perto — fazendo uma ocorrência -, e ele me queria longe — em silêncio.

- O número de ocorrências de assaltos está aumentando? — perguntei ao policial, após registrar o boletim.
- Já faz um tempo. A gente tenta, mas não tem como dar conta. Se a gente prende o cara, daqui a pouco ele já tá solto, e cometendo os crimes de novo. Enquanto o código penal não mudar, vai continuar assim, infelizmente.

Fiquei um pouco mais seguro, entretanto percebi que estamos sempre em perigo.
Cada vez mais sinto necessidade de me mudar para algum local em que a mentalidade das pessoas seja mais desenvolvida, menos agressiva, menos impulsiva; e cidades do Brasil não me parecem boas candidatas.
Ou eu me mudo para um local com uma mentalidade melhor ou vou ter que mudar a mentalidade donde estou; ou ambos.

Não fiquei mal por ter sido roubado. Fiquei mal por ter minha vida ameaçada; assim como meus sonhos. Mas fui consciente, agi bem e saí vitorioso: minha recompensa foi sobreviver! Mesmo sendo ansioso no dia-a-dia, nesses momentos decisivos tenho provado que consigo manter a tranquilidade; ela me ajudou, mais uma vez. Tenho a dádiva de continuar a minha história, de continuar a evolução!

Espero que vocês não passem por uma situação semelhante nem pior (e se passarem, adaptem-se a ela e mantenham-se conscientes, tranquilos, efetivos), e que consigamos findar todos esses problemas!