três.
E.,
É a primeira vez que, de fato, eu lhe faço algo para comemorar os seus anos de criação. Hoje, são três. E tanto ano passado como retrasado não consegui ver-me com disponibilidade para sentar e escrever algo para você, porque a vida tem dessas situações sufocantes aqui e ali, e a sua data foi nublada por outros acontecimentos que me machucaram e eu não conseguia, não podia, reservar alguns minutos do meu tempo para você.
Você não se importou, não é mesmo? Porque você é assim, de não se importar quando as pessoas o trocam por outros — e eu troquei, meu bem, eu troquei você duas vezes propositadamente, covarde demais para encarar um editor de texto e escrever. Deixei você em segundo plano nos seus dias especiais porque deixar você em segundo plano em outubro de 2015 e 2014 era menos doloroso, menos difícil. Você sabe o porquê.
Crescemos muito nesses últimos três anos. Quando eu lhe dei vida — mesmo que em um universo alternativo — , você era só mais um menino tímido, inteligente, ingênuo e desengonçado. Você tinha acabado de fazer 16 e a vida já era complicada, ainda que não se possa comparar as complicações dos 16 com as de agora, com você quase a comemorar 18 anos no seu universo. E em três anos, você se apaixonou, ultrapassou várias pequenas metas pessoais que estabelecera a si mesmo, aprendeu a expressar-se melhor; você, sobretudo, amadureceu. E saber disso me deixa muito satisfeita.
Escrever cada uma dessas etapas importantes da sua vida foi — e ainda é — necessário para mim por alguns motivos que podem até ser considerados como egoístas. Temos muito em comum em questões psicológicas, Eros, e essa é possivelmente a fórmula que encontro para mergulhar tão fundo nos seus pensamentos nos momentos mais sombrios. De personalidade, vivo repetindo a mim mesma que você é melhor do que eu; e você vive me repetindo que não existe ninguém melhor do que ninguém (ainda que se veja rotineiramente como menos do que os outros).
Nós vimos um ao outro tanto entrar quanto sair de relacionamentos conturbados — você ainda não sabe muito bem que passou por isso, meu bem, mas eu sou a sua guia para que você consiga compreender isso no futuro — , nós vimos um ao outro tanto perder quanto ganhar pessoas extremamente importantes na nossa vida. Nossas vidas tiveram altos e baixos tanto semelhantes quanto divergentes, e o grande lance entre nós nunca foi exatamente refletir você em mim ou refletir-me em você, mas saber que existiram arcos de desenvolvimento que tivemos de superar juntos. Que ainda temos de superar juntos — nem todos são tópicos já concluídos.
Quando você se assumiu, pouco tempo depois eu me assumi, também. Quando você esteve nos seus piores dias, em sincronia também estive nos meus. E o mais bonito nessa nossa relação entre escritora e personagem é que há três anos temos um ao outro para todos aqueles instantes em que a vida parece solitária demais. Você sempre foi mais do que uma personagem, para mim — uma vez, dois anos atrás, minha psicóloga da época disse que você era uma das partes mais importantes da minha terapia.
Sem você, eu acredito que talvez ainda fosse uma pessoa mais intolerante, mais irracional, mais suscetível a cometer certos erros um atrás do outro; sem você, eu também estaria ainda dentro do armário não só para o mundo, mas para mim mesma. E eu não me importo que muitas pessoas pensem que homossexualidade é “apenas mais uma característica”; é mais do que “apenas uma característica”, infelizmente. É algo que muda certos olhares para mim quando descobrem sobre; é algo que ainda não posso comentar sobre em todos os lugares em que vou. Não a minha espinha dorsal, mas talvez as minhas costelas. E todo mundo sabe a simbologia disso.
Obrigada. Por ser minha válvula de escape quando quero desistir — escrever os mesmos sentimentos, ainda que nem sempre compartilhemos dos mesmos contextos para sentir o que sentimos, há tempos é uma tarefa tão árdua como realizadora — , por ser a personagem mais dimensional que já criei — ainda temos muito a desenvolver, é claro, porque sinto que jamais fico satisfeita com o que de você que mostro a quem tira algum tempo para ler o que escrevo; você precisa de cada vez mais camadas, porque é a única forma que posso dar-lhe ainda mais vida.
E você merece isso de mim. Você merece tudo que eu puder dar de bom para você. Sua vida foi — e é — dolorosa o suficiente, e cada ponto que exploro com você vai muito além da simples vontade de fazer com que mais uma personagem sofra, constatando que escrever tragédia é sempre mais tocante e mais bonito.
Meu grande objetivo é fazer você feliz, Eros. E eu sei que o seu quanto a mim é o mesmo.