na rua rostos iguais rostos de sempre diferentes os rostos os mesmos

todos vestem o seu uniforme
na rua
todos juntos
se juntam e andam
com rumo
sem norte
sem sorte
com sono
nausea sonho medo pesar
no desenho de Hermann-Paul
o soldado
o padre
o capitalista
o proletario
o professor
o homem comum
o aristocrata
a mulher comum
a aristocrata
jovens
crianças da escola
se cruzam
numa parisienne rua
no final do seculo 19
o tempo ali no relogio
a pressa
o tempo que se perde
e nao volta
nunca volta
por isso a dor
em cada um desses rostos
no profundo do peito escondida
(espia)
roupas diferentes
vozes diferentes
cores diferentes
por dentro tao iguais
para a batalha da vida
essa ampulheta arrítmica
inexoravel
-uniformes
classes
nada importa
o tempo
o relogio
a todos devora

na imagem A Rua
de ternura nua
e muda
espreita tedio
e O Conta Gotas Humano
pingando rapido
imperceptivel impiedoso
-a rua da de ombros.
ela
é de quem passa
é de quem mora
vai e volta vai nao mais retorna
todos caminham
pegadas no chao como rastros de memorias
a rua
entao
se veste
mil indumentarias
olhando de canto nao parece assim solitaria
ganha pes e maos e braços
laços rostos historias
ainda que desfeitos
ainda que perdidos
ainda que em sonhos só vividos
apressados
passando
indo
nao retornando
anonimos
sempre anonimos
sem qualquer afeto mutuo
como num espelho
olhe o chao
repare a esquina:
silente
a Rua
resiste
alheia
indeferente
por escolha
por natureza
a tudo que nao seja permeado pelo silencio
e pelas luzes noturnas
