A morte de Charles Bronson

Capítulo 1 — A tragédia ignorada

O garoto Charles Bronson

Elisa abriu os olhos, despertando de um sono leve. Apalpou o celular no criado-mudo para ver as horas. Eram quatro da manhã de um sábado para domingo. Levantou-se devagar para não acordar o marido, José. Da sala, ouviu a música que vinha da festa na rua vizinha, onde seu caçula, Charles, estava naquela noite. Viu a cama do filho vazia. Deitou ao lado do marido, para se entregar ao sono novamente. O telefone tocou às 4h40. Dinalva, a vizinha, foi direta: “Elisa, não tenho notícia boa pra você. Charles está caído em frente ao meu portão”. “Ah, deve ter bebido muito, olha a hora…” Elisa mentia um pouco para a vizinha, um pouco para o marido, hipertenso, e um pouco para si mesma. Ela já pressentia que Charles não estava caído de bêbado.

Enquanto caminhava até o filho despejado no meio-fio, Elisa reconheceu a camiseta verde-limão ainda engomada, que José dera ao garoto na véspera, e as meias brancas reluzentes. Elisa ia espremendo os olhos, tentando adiar o encontro com o rosto do menino que jazia com 45 facadas no chão empoeirado de Itapoã, região pobre de Brasília. José abaixou-se. Procurou a pulsação do filho. Não encontrou. Elisa foi deslizando a mão por baixo da manga da camiseta de Charles, até seu peito. “Achei que ainda dava pra socorrer, mas mandaram não encostar, pra não atrapalhar a perícia. Eu queria segurar ele… Ele ainda tava quentinho.”

Charles estava de barriga para cima, com os olhos revirados, a boca aberta e as mãos limpas. Os paramédicos constataram o óbito, cobrindo o corpo com um lençol branco. Elisa apertava os pés de Charles, como se os massageasse. Esta é a cena que reprisa em sua cabeça. Ao desfiar essa memória, Elisa tem a voz calma e triste, de quem convive íntima e perenemente com a dor. Está sentada ao lado de José numa sala em Brasília. Eles contam a história do filho e alternam-se, quase como se tivessem ensaiado. Quando José fala, Elisa consente com suaves “É…”, agarrada à bolsa grande em seu colo.

Charles morreu na madrugada do dia 28 de abril de 2013, aos 16 anos. A repórter começou a acompanhar o caso dias depois. Em mais de dois anos, testemunhei o sofrimento da família, a construção do inquérito, do processo judicial e a realização do julgamento do crime. No assassinato de Charles, encerra-se o que há de mais ordinário nos homicídios do Brasil. É a morte de um jovem pobre e pardo, envolvido com drogas, diluída no abismo estatístico. Mas no caso de Charles está também o que pode haver de extraordinário no imenso problema da segurança pública do país: quando há empenho do judiciário e das polícias, a banalidade desse crime pode se reverter em punição e, finalmente, em justiça.

Nesta quinta-feira, dia 9 de agosto, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou seu anuário sobre violência. Em 2017, foram 63.880 homicídios no país. São 175 por dia. No ano anterior, dos 62.517 assassinados, 33.590 eram jovens. Em 2013, quando Charles Bronson foi brutalmente esfaqueado, somente na faixa dos 16 e 17 anos 3.749 pessoas foram mortas violentamente. Se estivéssemos tratando só de números, fracionáveis, estaríamos falando de 10,3 adolescentes assassinados a cada dia em 2013. Comparado com outros países, no que diz respeito ao homicídio de jovens, o Brasil fica atrás apenas do México e de El Salvador.

Quando José e Elisa me deram a primeira entrevista, em junho de 2013, milhões de brasileiros estavam nas ruas, protestando contra a corrupção, por mais saúde e mais segurança. O assassinato dos jovens brasileiros foi tratado com desdém nos protestos que mudaram o rumo político do país. O mesmo desprezo lhes foi oferecido pelos candidatos nas eleições presidenciais de 2014, com falas genéricas de lado a lado. Neste ano, ainda não há uma proposta clara sobre como lidar com essa nefasta epidemia.

Os adolescentes só aparecem na pauta política quando se trata de avaliar punições mais duras para os que cometem crimes. Para quem assistiu ao filho padecer com tamanha violência, essa cortina de indiferença não se fecha nunca. Antes que a morte de Charles Bronson virasse apenas mais um número, José e Elisa quiseram contar como tentaram salvar o filho, o quanto lutaram. E pediram para começar do começo.

Capítulo 2 — Gênese de sangue

José e Elisa tinham um acordo. Ela já tinha uma filha e ele, um filho, ambos de relacionamentos prévios. Se agora nascesse uma menina, quem daria o nome seria Elisa. Veio varão. José mirou a carinha carrancuda e galega do bebê e se lembrou de seu herói de “Desejo de Matar”. Nascia Charles Bronson Lopes Pereira. José, um goiano moreno e alto de 64 anos, conheceu a miúda Elisa, de 49, na empresa de ônibus em que trabalhavam — ele, motorista; ela, cobradora. Namoraram por dois anos e se juntaram. Charles Bronson nasceu dois anos mais tarde, em agosto de 1996. A família morou em Santa Maria (DF) e Céu Azul (GO), até que um primo de Elisa ganhou alguns lotes no Itapoã, área recém-invadida nos arredores de Brasília, e deu a ela um terreno.

José, Elisa e Charles Bronson chegaram ao Itapoã em janeiro de 2002. A invasão aconteceu num sábado, dia 22 de setembro de 2001, depois de 10 anos de luta na Justiça. Os grileiros resistiram à bala. Ninguém morreu nesse combate, mas o sangue mancharia a gênese do Itapoã. Os próprios invasores passaram a brigar por terras maiores e mais bem localizadas. “Quando uma invasão desse tamanho acontece de manhã, à noite o Brasil todo sabe. Morreu muita gente aqui, muita. Vinha gente de fora com arma, tomava lote à força”, diz Pedro Barbudo, líder da invasão. Somente quatro anos mais tarde, o Itapoã foi reconhecido como região administrativa do Distrito Federal.

O Itapoã é hoje a segunda região mais pobre do Distrito Federal. Está cercado por polos de riqueza: de um lado o Setor de Mansões do Lago Norte; do outro, o Lago Sul. Charles Bronson cresceu junto com o Itapoã, que tem hoje cerca de 60 mil moradores. José e Elisa construíram, na Quadra 2, perto da rodovia DF-250, uma casa térrea, com três dormitórios e garagem, acima do padrão da vizinhança. As ruas do Itapoã são cor de barro. Muitas não têm asfalto. Todas se parecem e o Itapoã se parece com tantas outras periferias do Brasil. As casas são quadradas, baixas, pequenas, de tijolo aparente, amontoadas. Um ou outro portão de metal pintado de verde escuro ou vermelho tenta destoar, em vão. Não há árvores. O poeirão sobe fácil com as bicicletas que circulam incessantemente. O comércio é básico: dúzias de botecos, borracharias, pequenas mercearias e uma rua central com lojas populares. Essa via foi rebatizada pelo governo de Rua da Paz. Quem mora ali, no entanto, a conhece como Rua da Morte — desde o dia em que nela amanheceram cinco cadáveres.

Capítulo 3 — A desandança de Charles

A família de Charles Bronson foi construindo sua biografia apesar da violência, mas não avulsa a ela. Charles era caçula e xodó de José e Elisa. Inquieto, gostava de assistir à TV de ponta-cabeça no sofá, ao lado da mãe. Na primeira escola em que estudou, Charles Bronson adorava os números. Chegou a participar de olimpíadas de matemática. Depois das aulas, ajudava Elisa a recolher os pagamentos das clientes que compravam a lingerie vendida como bico. Voltava para casa, dinheirinho na mão, e ainda se oferecia para fazer a janta — sua especialidade era bife acebolado. José fecha os olhos ao lembrar, como se pudesse sentir o cheiro. O bom comportamento de Charles rendeu prêmios. Em seu quarto, foram se acumulando os presentes de José: computador, televisão, roupas e tênis. Charles Bronson amava dançar. Participava de uma trupe de break do bairro. Também frequentava os cultos com os pais, evangélicos, o grupo de jovens e o coral da igreja.

Ele tinha 12 anos quando uma professora notou que seu temperamento agitado começava a atrapalhar seu desempenho e a concentração dos colegas. Ela sugeriu que Charles fosse submetido a exames neurológicos. Elisa o levou a um médico particular, que o diagnosticou como hiperativo. Receitou dois comprimidos de Ritalina por dia. O Itapoã ainda não tinha uma escola. Charles foi pulando de bairro em bairro. Ele tinha 13 anos, estava na 6ª série, e já andava mais introspectivo, quando conheceu Júnior, um colega de classe que tinha o hábito de desenhar pés de maconha nas provas. Charles já havia largado a Ritalina, cismado com os comentários dos amigos de que aquele era um remédio para loucos.

O menino desandou. A obediência aos pais se esvaiu. “Apesar do nome, ele era covardão. Não me enfrentava e, na rua, apanhava quietinho. Mas era incontrolável, saía escondido”, diz José. Charles começou a beber, a fumar maconha, e foi se distanciando da família, da igreja, dos amigos “do bem”, nos termos de Elisa. Não ficou agressivo, mas já não fazia bife ou sentava de ponta-cabeça ao lado da mãe. Se o pai chamasse para jantar, ele pegava o prato e corria para o sofá. “Quando queria dinheiro ou sair, dava beijo, acarinhava, mas era só”, José soa magoado. Para sustentar o próprio consumo, começou a distribuir drogas também. Vendia maconha e lança-perfume, a R$ 10 o frasco. Seu “chefe” era Bocão, um traficante conhecido no Itapoã, cuja mãe é amiga de Elisa. Confrontado por José para que parasse de dar drogas ao filho, Bocão disse que já havia se negado uma vez, mas que Charles Bronson era muito insistente, “ficava infernizando”.

Capítulo 4 — Ócio e desumanização juvenil

Charles Bronson abandonou a escola. Entregou-se à vida de rua, noite e drogas. Amigo de DJs de várias festas na região, além de primo do dono de uma das localidades mais comuns das baladas, entrava quase sempre de graça e era sempre dos últimos a sair. Uma das escapadas preferenciais de Charles — e de todos os jovens da região — era para ir ao “kit”, uma das três academias de ginástica públicas montadas pelo governo. É nesses kits, único centro de lazer da área, que a juventude do Itapoã passa suas tardes e noites ociosas. É onde os jovens fazem tudo, menos malhar. É o ponto de encontro para festas, brigas, compra e venda de maconha e cocaína escama de peixe, drogas preferenciais da molecada da região, por seu preço baixo. Uma ou outra lanchonete encravada entre as igrejas evangélicas da área tenta competir pela atenção dos garotos. Mas os kits sempre ganham.

Quando a noite vem, o som é o das batidas de funk dos carros. Qualquer faísca de desentendimento entre essa molecada turbinada vira confronto, resolvido na faca ou no tiro. “Em grupos sociais com difícil acesso a cultura, lazer e esportes, a barreira entre o tempo de ócio útil e o tempo de ócio violento é muito tênue. Esse ócio juvenil, o estar com colegas na rua, na praça, se converte em transgressão rapidamente e progride para a violência”, explica Julio Jacobo Waiselfisz, autor da pesquisa “Gangues, Galeras, Chegados e Rappers”. Jacobo entrevistou milhares de jovens de cidades-satélite de Brasília e o trabalho deu origem ao primeiro Mapa da Violência, que é atualizado anualmente.

Jacobo acredita que a mitologia maniqueísta dos garotos bons e maus, “o menino Malhação versus o menino da favela, arruaceiro”, desvia o olhar da falta de perspectiva que a juventude brasileira vive hoje. “No Brasil, são 34,5 milhões de jovens entre 15 e 24 anos. Cerca de 6,5 milhões não estudam nem trabalham. São meninos das periferias urbanas, com baixo nível educacional”, diz o sociólogo. “Como eles não têm estudo, não conseguem emprego. Isso forma esse exército de milhões de meninos e meninas para os quais a sociedade não oferece nenhum tipo de saída.”

De acordo com o Mapa da Violência de 2014, mais da metade dos 56.337 mortos por homicídios em 2012 eram jovens entre 15 e 29 anos (30.072, equivalente a 53,4%), dos quais 93,3% eram do sexo masculino e 77% pretos e pardos. Descrição que veste Charles Bronson, os jovens que frequentam os kits do Itapoã e as periferias Brasil afora.

A violência aumenta entre 80 e 120% da noite de sexta à manhã de segunda. Os níveis de homicídio duplicam. São os dias em que as possibilidades de resguardo estão entre parênteses: a polícia trabalha em esquema de plantão, escolas e universidades fecham, a rua se converte em lei e rei. “As classes sociais mais abastadas cometem uma violência econômica, impessoal, não sujam as mãos”, explica David Smith, filósofo americano da Universidade de New England, autor de “Less than Human — Why we Demean, Enslave and Exterminate Others”. “Nós criamos as circunstâncias em que a violência é mais provável entre os pobres e, depois, racionalizamos: ‘Bom, eles são assim mesmo, são animais, sub-humanos, não têm senso moral’. Isso torna essas pessoas invisíveis.”

Smith criou uma teoria que associa genocídios, como a escravidão e os campos de concentração nazistas, à desumanização, à justificativa de que os assassinados são menos humanos do que os assassinos. No caso da violência brasileira, ele transpôs essa desumanização à desigualdade econômica. “O que rompe esse ciclo é a educação. Mas as pessoas não são ensinadas a pensar sobre isso, permanecem obedientes a essa ideologia e a perpetuam”, diz Smith.

Capítulo 5 — Jumbitos, cerveja e 45 facadas

José passou mais de um ano tentando resgatar Charles das drogas, inclusive com uma internação. “Rapaz, eu quero ver você recuperado. Eu quero que um dia você me enterre, não que eu enterre você”, disse ao filho. Charles estava inatingível. A vida seguia nessa labuta entre a desobediência de Charles Bronson e a incapacidade de seus pais de salvá-lo. Na noite de 10 de março de 2013, a história de Charles começou a se encaminhar para o fim. Na festa “Os Marrentos”, ele se envolveu em uma briga. Amigos dizem que foi porque alguém deu em cima de sua namorada. Charles nunca confirmou. Ele levou duas facadas e pediu a conhecidos que lhe emprestassem um revólver para se vingar do agressor. Deu dois tiros com uma arma calibre 32 e errou. Foi para o hospital, prestou queixa das facadas, mas não registrou o autor. O revólver sumiu. Uma arma de fogo é um dos maiores patrimônios que um bandido pode ter. É seu instrumento de trabalho e de status. Quatro rapazes passaram a se revezar em visitas à casa de Charles para cobrar a arma, sendo atendidos sempre por José ou Elisa. Um dos cobradores era Lucas, um garoto de 17 anos. Quem aparecia com frequência também era Alex Neguinho. Diziam estar a mando de um quinto, que, soube-se depois, era Gaguinho. Os meninos iam sempre de bicicleta. Vez ou outra deixavam brilhar uma arma por baixo da camiseta.

Charles havia dito aos pais que, na mesma noite em que pegou a arma, dois rapazes num Gol a tomaram dele. José acabou fazendo um acordo com os credores: pagaria R$ 700 pelo prejuízo causado pelo filho. “Eles falaram pra eu pagar metade dia 20 de abril. Não deu. Eles voltaram dia 26 e eu falei que a empresa de ônibus agora me pagava por mês, eu não tinha o dinheiro. O moço ficou bravo, mas eu disse pra ele voltar no dia 5 pra buscar tudo. Ele saiu nervoso. Daí, dia 28, eles mataram o Charles”, José tenta explicar, sem se lembrar com quem exatamente fez o trato. A empresa a que ele se refere é a Viação Amaral, onde ele era motorista. Em abril de 2013, ela sofreu uma intervenção do governo do Distrito Federal por diversas irregularidades que cometia. Com isso, José teve atraso no pagamento do salário.

A paciência do grupo se esgotou. Na noite de 27 de abril, passava das 21h quando Charles Bronson saiu de casa para ir a uma festa. Era aniversário de duas garotas numa casa de portão verde que fica em frente ao kit, para onde a balada acabou vazando perto das 2h da madrugada. Charles consumiu vodca com energético e cheirou lança-perfume. Perto das 4h, foi o eleito para ir de bicicleta comprar mais bebida para a turma em um depósito na avenida principal do Itapoã, próximo ao Beco da Maconha. Os investigadores ouviram versões diferentes sobre o que aconteceu daí em diante.

A versão de Gaguinho, que confessou o crime, é de que dentro da festa Charles o teria ameaçado com uma arma de calibre 38. Gaguinho diz ter ido até sua casa buscar uma faca de cabo verde. Enquanto Lucas dava uma gravata em Charles Bronson, Gaguinho desferia as facadas. Na fúria, chegou a machucar o dedo mínimo da mão direita. Gaguinho diz não conhecer Neguinho, mas testemunhas afirmam que eles traficavam juntos no pedaço. Elisa chora ao contar a versão que ela própria ouviu de vizinhos: “Ele foi emboscado. Veio gente das duas pontas da rua pegar ele. Chamam isso de ‘casinha’”.

Ao lado do corpo de Charles Bronson, havia uma sacola plástica amarela, com quatro copos descartáveis, um gargalo de garrafa de vidro e uma embalagem de salgadinho Jumbitos. A polícia acredita que ele havia parado para beber e comer por ali quando foi atacado. As investigações e seis denúncias anônimas levaram a Gaguinho e Neguinho dois meses depois do crime.

Capítulo 6 — Não sabemos contar nossos mortos

Tantos detalhes só foram possíveis porque Itapoã foi a região escolhida para um projeto piloto da Polícia Civil do Distrito Federal chamado Ação Imediata. A ideia era atender as ocorrências de homicídio assim que elas ocorrem — algo que parece óbvio e banal, mas que não é regra na maioria das cidades brasileiras. Os policiais chegaram logo, ouviram as testemunhas imediatamente e conseguiram deter Lucas, o adolescente, em flagrante. De onde o corpo de Charles Bronson estava, partia um rastro de sangue com 1,2 mil metros, que levava ao interior da casa de Lucas, onde a polícia encontrou ainda a bicicleta e o tênis Mizuno amarelo de Charles. A delegada Rosana Gonçalves, então coordenadora da repressão aos homicídios no Distrito Federal, uma mulher de voz rouca, olhos verdes, sorriso fácil e que chama a todos de “Chuchu”, cansou de ter sobre sua mesa apenas casos antigos de assassinatos. A investigação de um crime ocorrido anos atrás é muito difícil: testemunhas se mudam, provas se perdem, bandidos fogem.

Em sua sala, ampla e arejada, Rosana conta que ela e seus colegas da Polícia Civil sugeriram, em 2012, que se fizesse um esforço para atender ocorrências de homicídios mais rapidamente e escolheram como laboratório o Itapoã, por ser relativamente próximo da delegacia (20 km) e ter índices de violência significativos, mas não impossíveis de lidar. O projeto teve início em agosto de 2012. Os resultados foram a redução de 36,84% no número de homicídios em um ano, 78 prisões, 14 armas de fogo apreendidas e, talvez o mais impressionante, um índice de solução de crimes de 77,7% em um ano de investigação. A média brasileira é de 8%. “Esse tipo de presença e eficácia policial tem o efeito de reduzir a sensação de impunidade. A população fica mais colaborativa com a gente e os bandidos mais temerosos. A queda da criminalidade vem daí”, explica Rosana.

O esforço de Rosana e sua equipe eraexcepcional num país que não sabe sequer contar seus mortos. Não há uma compilação sistemática dos dados sobre homicídios. A fonte que se usa até hoje sobre violência é um banco de dados do Ministério da Saúde que, por não ter como finalidade computar crimes, nem sempre categoriza como homicídio o que um policial categorizaria. As polícias têm maneiras diferentes de registrar boletins de ocorrência, algumas delegacias do interior do país não têm computador, e os prazos para apresentar esses números são distintos em cada secretaria.

“Os Estados usam critérios diferentes para falar da mesma coisa. Tem lugar que classifica um crime como violência doméstica; outro que chama de violência Maria da Penha; outro, de crime passional. É o mesmo fato, com as mesmas características, mas com nomes diferentes. Somar isso fica muito difícil, porque não existe uma taxonomia”, explica a juíza Taís Schilling Ferraz, que foi membro do Conselho Nacional do Ministério Público, onde coordenou a campanha “Conte até 10”, para diminuir os casos de homicídios por impulso. “Isso sem falar dos incontáveis casos de subnotificação.” Sem dados precisos, não há como formular políticas públicas eficazes.

Capítulo 7 — “Ele foi, mas ainda está”

No Tribunal do Júri do Paranoá, em dezembro de 2013, uma audiência colocou frente a frente o menor Lucas, Alex Neguinho e Gaguinho. Lucas, então com 17 anos, foi detido em flagrante, mas posto em semi-liberdade 47 dias depois. Voltou a ser detido por roubar uma bicicleta. Ele assumiu a autoria do homicídio diante do incrédulo juiz Renato Teixeira Martins. Com a fala mole, meio em câmera lenta, vestindo uma camiseta com a estampa “Gangster”, Lucas descreveu: “Peguei ele e dei umas facadas. Não contei quantas, não.”

Alex Neguinho e Gaguinho olhavam para baixo, escoltados por policiais militares — ambos estão presos no presídio da Papuda. Dias antes, a mãe de Lucas, Cleoni, havia sido ouvida pelo juiz. Ela parecia frágil e constrangida ao admitir, chorando, não saber mais como lidar com o filho que havia se entregado ao cinismo, e assim como Charles Bronson, ao crime. Até o impermeável doutor Renato pareceu comovido.

Gaguinho se chama Hudson. É mulato e muito calvo para os 23 anos que tinha na época. Já havia sido condenado por roubo a 5 anos e 4 meses de prisão. Alex Neguinho estava com 21 anos e fora condenado por porte ilegal de arma. Todos os envolvidos são muito jovens, muito marginalizados. Gaguinho é realmente gago e alonga a letra i antes de todas as palavras. Ele diz que viu Lucas agredir Charles e, quando tentou apartar a briga, foi atingido pela faca, preferindo ir embora — versão diferente da que apresentara na delegacia. Neguinho admite ter cobrado a arma dos pais de Charles, mas jura não ter matado Charles Bronson. T No dia 16 de janeiro de 2014, 253 dias após a morte de Charles, doutor Renato decidiu que Gaguinho e Alex Neguinho iriam a júri popular.

Depois do assassinato de Charles Bronson, José passou a receber ameaças de morte pelo telefone. Uma delas foi logo depois do velório de Charles: “Foi longe demais, coroa”. José acha que a bronca é porque ele fez o reconhecimento na Delegacia de Homicídios dos quatro garotos que iam a sua casa procurar pela fatídica arma. Ele e Elisa se mudaram do Itapoã. Por medo e por dor. Elisa e José começam a se despedir da repórter naquela noite de junho de 2013. Consideram que a história de Charles Bronson está devidamente registrada.

José ainda tenta, uma última vez, concatenar uma resposta para como o filho tão querido e cuidado se perdeu. “Meu filho não quis viver. Eu fiz tudo que um pai pode fazer. Se ele queresse, bastava dizer que não queria mais ficar ali, eu ia com ele pra qualquer lugar. Mas ele não quis. Eu via um morto na TV, moleque de 16 anos, com a bicicletinha do lado, eu mostrava pra ele. Na morte do Charles não teve TV. Ele tinha carteira profissional, identidade, CPF, tudo. Ele tinha… Tem, né? Ele foi, mas ainda está.”

Capítulo 8 — Ciclo perpétuo

Sentada numa cadeira plástica no corredor do Fórum do Paranoá, com a bolsa grande no colo, Elisa estava apreensiva na tarde de 27 de agosto de 2014. Era o dia do julgamento dos acusados de assassinar seu menino, Charles Bronson. Num ritmo anormal para os crimes de homicídio no Brasil, os réus estavam diante do júri 487 dias depois do fato. É uma pequena, pequeníssima vitória para a família da vítima. Mas é uma vitória indispensável. Mais de um ano se passou desde que Charles Bronson levou 45 facadas e padeceu diante da mãe. Elisa conta que guarda, em uma caixa de sapato, o que sobrou dos pertences mais prosaicos do filho: um desodorante, um perfume Kayak, uma camisa pólo cor de rosa, uma escova de dentes, uma caixinha com promessas bíblicas, uma dúzia de carrinhos Hot Wheels e um ioiô. Tão rapaz, tão menino.

Um dos motivos da angústia de Elisa era a certeza de que José, seu marido, esquecera de tomar os remédios para controlar a pressão alta — que deveria atingir picos durante seu depoimento diante do júri. Quando a sessão começa, Elisa, sua filha, Josiane, e sua enteada, Joslaine, se sentam isoladas de um lado do auditório. Do outro, estão dezenas de alunos de Direito de faculdades de Brasília. O juiz Renato Teixeira comanda o julgamento com a mesma firmeza com que conduziu as audiências. O promotor Raoni Maciel é o responsável por convencer os sete jurados de que Hudson e Alex, vulgo Gaguinho e Neguinho, foram os responsáveis, junto com Lucas, o menor, pela atrocidade contra Charles Bronson.

No júri, estão quatro mulheres e três homens. José entra para prestar seu depoimento. Está visivelmente nervoso. Sua pele está avermelhada, contrastando com os cabelos negros, que ele voltou a tingir. José rememora os esforços que fez com Elisa para salvar o filho das drogas. “Ele era desinquieto”, justifica. Chora discretamente ao falar do tênis que dera ao filho nas vésperas de seu assassinato. Escolhe não assistir ao resto do julgamento e se retira.

Gaguinho e Neguinho estão sentados num canto do auditório, cercados de policiais. Estão de cabeça baixa, vestidos de branco. Eles já depuseram, alegando que confessaram seus crimes sob tortura, o que é rapidamente desqualificado pelo juiz e pelo promotor. O julgamento dura 10 horas. Perto das 20h, o juiz Renato Teixeira anuncia a sentença. Elisa segura as mãos de Josi. Hudson Gaguinho é condenado a 28 anos e 9 meses de prisão. Alex Neguinho, a 24 anos, 7 meses e 15 dias. Elisa despenca num choro silencioso, abraça as filhas. Parece que a condenação lhe traz mais alívio do que ela previa. Elas deixam o auditório e ligam para José para que ele venha buscá-las. Não contam o resultado pelo telefone. “Quero estar junto dele quando ele souber”, diz Elisa.

Hudson e Alex recorreram da condenação, que foi confirmada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, com uma pequena redução das penas. Eles recorreram novamente ao Superior Tribunal de Justiça, que ainda não decidiu se vai avaliar o caso. Naquela noite, no caminho de volta à cela do fórum, com pesadas sentenças a cumprir, eles trocaram acusações, baixinho. Neguinho ameaçou Gaguinho: “Tu vai morrer. Tu sabe que eu não matei o moleque, essa bronca era tua! Eu vou te matar!”. Um dos funcionários do fórum que participava da escolta alertou Neguinho. “Mas, se você matar o outro, vai ser condenado por um homicídio de qualquer maneira.” “Sim, mas pelo menos vou ser condenado por um que eu cometi…” O ciclo da violência se perpetua.