A carícia do gato

Este é um daqueles textos que não são prontos. Vai adquirindo sentido, forma, coerência e coesão através da chegada da inspiração do autor. E como esta última faz-nos de bobos, não? É como tentar pegar um pedaço de papel que estava logo ali parado no chão e, de repente, quando estendemo-nos a mão para pegá-lo, surge uma ventania, ninguém sabe de onde veio e para onde vai, o dito cujo enlouquece e toma vida, entre dribles e negas que parecem fazer galhofa dos nossos insucessos.

Por outro lado, há situações em que inspiração parece um gato doméstico que, dentro da sua natureza autônoma, para não dizer outra coisa, simplesmente se cansa da sua condição de esnobe para vir deitar ao seu colo esperando os seus afagos. E com isso, tem-se duas hipóteses; você pode corresponder às expectativas do gato, acarinhando-o e cativando-o ou pode, em um dia ruim, rechaçar o gato e deixar de exercitar toda uma relação de proximidade com o bichano. Exercitar? Sim, amor e afeto são exercício. É trabalhar sempre para que o que é do seu gosto esteja sempre por perto. Assim é a natureza do ser, esforçar-se para conseguir o queira por perto e expulsar o indesejado sem o prejuízo do ausência.

Talvez não estejamos falando mais sobre inspiração. Ou talvez, não só sobre ela. Porque a quase tudo na vida se aplica um pouco dessa lógica; aproximar-se do desejo e afastar-se do indesejado, do que contraria. Então, por que, às vezes, afastamo-nos dos nossos próprios desejos?

Deixamos o medo nos constranger, fracassar e nos prejudicar. E por que não dizer autossabotagem? Sim. É isso.

Precisamos de coragem, e quando cito tal adjetivo, não falo do ser destemido, não estamos falando aqui do que não existe, mas falo daquele que com bravura e, não com menos dificuldade, sem o menor pudor de tomar uma bela surra, supera os seus próprios medos. Pernas tremendo, com frio no estômago, taquicardia, mas seguindo em frente e tentando. Conseguir ou não já não tem importância nesta história. A partir do momento em que há a empreitada da tentativa, é ela quem faz-se relevante. E não importa o resultado. É claro, não sejamos hipócritas, o sucesso inebria, é a satisfação plena do desejo e ninguém desse mundo se faria de arrogado, porém, já há satisfação na tentativa e, por outro lado, o fracasso é o melhor professor. O que tento dizer é simples: Na tentativa sempre há ganho.

Por estes motivos, viver é tão sedutor. O acúmulo de experiência te transforma no ser que és e, mesmo que não goste nada disso, a culpa de ser quem é, toda ou em parte tornou-se sua.

Algumas pessoas são estagnadas, outras inertes(não confundam, não são a mesma coisa), outras simplesmente nascem e vão à deriva em direção a morte por simplesmente terem medo de tomar para si o leme da sua própria existência para serem, com coragem, senhores dos seus próprios ventos. Voltamos novamente a autossabotagem. A vida passa se tornar insossa, sem gosto… Aliás, é o gosto da brisa quando não se está voando com ela. E quando se voa com o vento, devíamos pouco nos importar se ele se faz doce, salgado, amargo ou azedo, a relevância, afinal, é simples; Está-se voando. Em direção à não-sei-o-quê, no caminho, o vento te explica tudo. É importante que, enquanto se cavalga o vento, que crie-se asas para ter maior controle sobre si, do contrário, será um voo turbulento, inexato, talvez desastroso. Que seja o vento uma tempestade, uma brisa ou um furacão, desde que eu tenha força nas asas para cruzá-la(isto deveria tornar-se o mantra dos perdidos na vida).

O destino sempre será o mesmo, invariavelmente, começo e fim são irrelevantes. Relevante mesmo é o percurso.