O que aprendi lendo cartas que não eram para mim — mas que, de certa forma, eram

Nas últimas duas semanas, estive trabalhando em uma tradução de uma carta de Charles S. Peirce, lógico norte-americano, a Victoria Lady Welby, filósofa da linguagem inglesa. A correspondência de Peirce é efusiva e farta; engloba uma variedade de temas que se expandem conforme seus também variados destinatários (cientistas, filósofos, familiares) e que abarcam os muitos campos do conhecimento pelos quais ele se interessou: química, astronomia, física, matemática, filosofia, filologia, teologia, metafísica, lógica, linguística, dramaturgia, música, ética, estética, psicologia, engenharia, arquitetura, etc.

Perice e Lady Welby

O objetivo da minha busca eram dois pequenos desenhos que Peirce faz no manuscrito que estou traduzindo. Muitas das cartas — inclusive esta — estão disponíveis já impressas e digitadas em livros, mas os que buscam escanear seus desenhos, ilustrações ou diagramas — ou mesmo documentos inéditos — precisam recorrer a um meio mais rústico: os microfilmes.

O acesso aos manuscritos de Peirce (cartas, anotações pessoais e profissionais, artigos, resenhas) é tão artesanal quanto os próprios. Os textos estão fotocopiados em microfilmes disponíveis em algumas universidades espalhadas pelo globo, como, por exemplo, a Universidad de Navarra. Aqui, no organizado campus de Pamplona, alguns microfilmes podem ser escaneados pessoalmente por pesquisadores à cata de dados, datas, cartas inéditas (ou não muito) ou, no meu caso, de alguns simples desenhos.

Campus de Pamplona: venha pesquisar em microfilmes

Nestes tempos nos quais tudo é disponível na nuvem, online, baixado gratuitamente — ou não — por qualquer computador conectado a qualquer ponto de wifi, os microfilmes parecem ter saído de algum período jurássico. Desde a procura pelo microfilme correto, que contenha o documento buscado, até chegar ao escâner, o pesquisador deve enfrentar-se a um processo arcaico, que, por isso mesmo, tem sua aura mística.

Primeiro, tive de buscar o documento no Catálogo de Robin, disponível na biblioteca. As cartas, por exemplo, se organizam por sobrenome dos destinatários. Cada grupo de manuscritos recebe, neste catálogo, um código (por exemplo, L 224), que o pesquisador anota, com outras informações referentes ao documento pretendido (preferencialmente, a data).

Com estas informações, começa um processo arqueológico. Desci à mediateca da biblioteca, perguntei pelo microfilme indicado e fui à máquina de escâner, que havia reservado previamente. Ali, a funcionária Izáskun (a cujo nome era de início impossível conferir um rosto, como acontece com a maior parte dos exóticos nomes vascos) me orientou dedicadamente no uso do aparelho.

Uma grande mistura de microscópio com um computador da década de 90, aliás. Senti-me como um químico em um laboratório, ou um paleontólogo, ou um historiador: quando uma aura de iminente descoberta nos envolve, parece que se dissolvem as fronteiras entre as áreas. Primeiro, há que retirar uma lente de uma caixinha e introduzi-la meticulosamente sob a tela — ela é quem vai ler os manuscritos. Depois, retira-se o microfilme do compartimento onde estava guardado e se o insere na bobina do computador, conectando a outra ponta ao outro lado. O filme passa por baixo da lente, exatamente como a lâmina de um microscópio, e o conteúdo é revelado no visor quadrado.

É aqui que a mágica acontece

Para manipular os manuscritos, tive de aprender a manusear os controles, uma espécie de mesa de edição, mas muito mais rústica. Era possível ampliar os textos, reduzi-los, ajustar o foco da lente e, claro, a parte mais prazerosa: rebobinar ou avançar o microfilme até a carta pretendida.

Confesso que tardei uma boa meia hora buscando o documento, também pela minha falta de familiaridade com o aparelho. Izáskun logo se enfadou, pediu que eu ficasse à vontade e saiu. Depois de um tempo avançando o microfilme (e voltando às vezes para conferir um ou outro detalhe), encontrei maravilhado a carta.

O que eu estava buscando mesmo? Ah sim, os desenhos. Vamos a eles. Nada, nada, nada. Será esta mesmo a carta? Parece que não. Desesperado, em um certo momento me dou conta de que as páginas estão misturadas, cartas mescladas com outras cartas. Logo me alivio, me engano: está tudo organizado cronologicamente, as cartas de Lady Welby, as respostas de Peirce, as cartas de Peirce, as respostas de Lady Welby.

Logo encontro a carta exata, mas não os desenhos. É um trabalho que exige memória, pois não posso levar os livros da biblioteca de uma sala a outra, e, por isso, tenho de identificar a carta por aquilo que já li de seu conteúdo. Quando não encontro facilmente o que procuro, me aborreço e me distraio. Começo a pensar em desistir. Não, espera. Achei. Algumas descobertas só ocorrem quando nos tornamos desinteressados.

Localizados os desenhos, procedo ao escaneamento. Em um computador ao lado, abro o software conectado ao aparelho, configuro algumas opções e ya está: a página aparece escaneada. Agora, por que não aproveitar para escanear a carta inteira, e mais alguma outra coisa que pareça interessante?

Passei a próxima hora revirando — ou melhor, indo e voltando — o microfilme e parando para ler algum trecho ou outro que parecesse interessante. Foi a coisa mais imprevista que eu poderia ter feito e também a mais gratificante: ali, envolto por uma especial magia emanando da técnica, perdido entre os clicks do leitor de microfilmes, abri uma espécie de caixa de Pandora, onde todo um universo paralelo parece ter sido revelado.

Abrir os manuscritos, diários ou cartas de um grande pensador pode ser uma ótima forma de acessar o backstage do seu pensamento, por assim dizer. Ali, nas trocas epistolares entre Peirce e Welby, deparei-me não só com os esboços da teoria dos signos do primeiro, como também com os comentários, sugestões, dúvidas e críticas desta última. Se não fosse por esta correspondência — a inglesa foi uma das únicas que compreendeu as ideias de Peirce na época, dizem alguns — , o lógico americano não teria desenvolvido sua Semiótica como a conhecemos hoje, ou, então, teria chegado às suas conclusões por outros caminhos. De qualquer forma, somos resultado da caminhada que traçamos.

As cartas contêm também informações pessoais e assuntos cotidianos diversos, o que me fez pensar, ali enquanto funcionava o escâner, que muito do que pensamos está marcado por nossa materialidade, nossa pessoalidade, nossos hábitos como animais de carne e osso (mas não apenas). Entre um click e um clack da leitora, meus olhos se perdiam nos comentários de Peirce sobre sua saúde e de sua esposa (“fomos atingidos pelos ventos do Oeste”) e sua vontade de vender a casa e se mudar para algum país tropical, onde pudesse “aproveitar do tempo ao ar livre, o que faria bem à minha esposa” — ao que Welby respondeu em seguida: “espero que você atinja seus objetivos”.

Como em uma conversa que hoje facilmente ocorreria por whatsapp, Peirce e Welby vão trocando os assuntos e discutindo suas teorias sobre a significação: para ele, uma Semiótica de estatuto lógico, para ela, um novo campo do conhecimento a ser denominado Significs. Entre um comentário ou outro sobre um livro que está lendo sobre teologia cristã, Peirce insere longas divagações sobre suas classificações dos signos, tricotomias e mais tricotomias. Muitas delas são completamente estranhas ao que hoje se conhece dessas classificações, o que me faz pensar novamente no esforço de elaboração e reelaboração necessário à construção de um pensamento. Tendemos a tratar as teorias como coisas prontas e esquecemos que todo conhecimento, em qualquer área, é um sujeito de diálogo que não acaba, pois continua sua construção nas interpretações que serão continuadas até mesmo por sujeitos totalmente intrusivos — como eu, ali, navegando de um lado para o outro na bobina do microfilme.

As cartas revelam um pouco mais sobre a figura desta mulher que desconhecemos completamente e denominamos apenas por “filósofa da linguagem”. Mas não, além de musicista e aquarelista, Lady Welby igualmente comentava — sugeria e opinava — sobre as longas divagações de Peirce em física e temas metafísicos como o tempo e o espaço. É possível que também ela se interessasse por tantas áeras distintas quanto Peirce.

Em uma de suas epístolas — aliás, sempre bem cuidadas, redigidas em máquina de escrever e com anotações puntuais (e assinatura) a mão — , a inglesa convida Peirce e a esposa a passarem uma temporada na Inglaterra, e acrescenta amavelmente: “adoraria ser amiga dela”. Em outra, demonstra sincera preocupação: “Querido Peirce, espero que meu último cabograma — o primeiro que jamais enviei — tenha chegado bem e legível”. Em outra, responde educadamente às provocações semióticas de Peirce: “sua definição de signo é tão vasta que por enquanto só posso agradecer-lhe. Espero poder usá-la com sabedoria futuramente”.

Vi, pelos manuscritos, que as cartas de Welby sofreram com o tempo e com condições adversas durante o armazenamento: algumas têm as pontas carcomidas, outras, manchas de algo que poderia ser chá ou café. Nada, porém, impede a leitura. Por outro lado, Peirce parece ter sido mais relaxado: uma das cartas contém um esboço (rabiscado) de moléculas químicas, ainda que o conteúdo da carta não tocasse no assunto. Provavelmente, Peirce redigiu a epístola no primeiro papel que encontrou pela frente.

As moléculas de Peirce

Depois de passar uma boa parte da tarde passeando pelas cartas — com uma devida pausa para o café, pois tinha os computadores inteiramente à minha disposição durante toda a tarde — , desliguei as máquinas com pesar, guardei o microfilme e o devolvi juntamente com a lente. Certamente, o que eu buscava de início não era nem metade do que eu viria a descobrir. Mas afinal, na vida não é assim que ocorrem as descobertas (e, também, em algumas deliciosas aulas de epistemologia)?