Nem vira­-latismo nem ufanismo: um convite ao debate honesto.

Eu e a camarada Felipe Garcez escrevemos aqui um pouquinho do que pensamos sobre a forma como está sendo debatido a questão das olimpíadas.

“A realização das olimpíadas no Brasil abriu importantes debates, como: a lógica mercadológica, a valorização da estima nacional e o legado para o povo. Tentar reduzir o debate das Olimpíadas ao ouro conquistado pela seleção masculina do Brasil no futebol é uma tremenda armadilha, um empecilho que só mascara o debate sobre a questão nacional, tão caro para a esquerda.

Parte dessa armadilha é o debate acerca da comemoração desse título. Se de um lado havia aqueles que quase que por mágica esqueceram todas as contradições dentro e fora de campo dessa seleção (corrupção da CBF e sonegação do Neymar, postura arrogante dos jogadores) do outro lado havia aqueles que se esqueceram que no Brasil futebol é quase religião: não comemorar um título é o equivalente a um pecado capital.

Nem vira­-latismo: nossa nação sair vencedora de uma disputa esportiva traz felicidade,mesmo que momentânea, para milhões de brasileiros. “O Brasil venceu” é, para muitos, “nós vencemos”. Diante da popularidade desse esporte, o impacto é gigante. A derrota certamente seria marcada por choros e dias seguintes com “por que não fomos capazes?” e outros derrotismos que serviriam apenas para alimentar um sentimento pessimista enraizado em nossa construção nacional pelas elites antinacionais. Resumidamente: vencer é bom, e um povo com auto-estima elevada se engaja mais facilmente na luta.

Nem ufanismo: Se fosse uma questão de resultados, teríamos motivos de sobra para ser contra a última Copa do Mundo, e não foi assim que aconteceu. Já nessas Olimpíadas, todas as críticas e ponderações sobre o título da seleção masculina de futebol foram instantaneamente acusadas de “vira-­latismo”. Muitos que a pouquíssimo tempo atrás “cornetavam” a atuação pífia do Neymar, a “falta de sangue” da seleção e os crimes cometidos pela quadrilha que dirige a CBF se utilizaram, embriagados pela vitória, dessa retórica. Para esses, a atual seleção e a lógica que ela exerce passou instantaneamente a ser o modelo perfeito, afinal, a “vitória e ouro vieram”. Deixam de se lembrar, dessa forma, que muitas das obras das Olimpíadas, como as remoções de “comunidades ilegais” (afetando a vida da parte mais vulnerável do povo brasileiro), só serviram a lógica do mercado imobiliário e financeiro, garantindo isenções fiscais para empreiteiras e patrocinadoras, subsídios dos recursos públicos para fora. São 77 mil removidos desde 2009. As principais obras de mobilidade ainda se encontram por terminar ou já nascem obsoletas, deixando de atender justamente o próprio povo brasileiro. Se esquecem da proibição da livre manifestação dentro dos estádios, contra nós mesmos há tão pouco tempo atrás.

Muitos estão simplesmente recortando o acontecimento das Olimpíadas de todo o contexto político que o Brasil se encontra hoje, e de tudo o que vem acontecendo internacionalmente também. Isso tudo para fugir do cerne da questão, a questão da soberania: sediar mega­eventos no Brasil auxilia o nosso desenvolvimento econômico ou nos mantém mais dependentes economicamente das grandes potências imperialistas? É óbvio que tudo isso se reflete também no evento em si, e em como o público reagiu ao evento, reflete também na composição das arquibancadas. Por exemplo, é icônico que a delegação Palestina tinha ficado sem seus uniformes no início da partida. Nosso (des)governo ficou em silêncio sobre isso. Não podemos ficar presos a esses dois (falsos) pólos citados acima: se por um lado a vitória brasileira melhora a estima de nosso povo, ainda que mais no plano subjetivo do que objetivo, por outro lado desejamos uma seleção (e uma olimpíadas, por quê não?) menos desigual, onde o esporte seja verdadeiramente acessível ao nosso povo, onde a realização de mega­-eventos não precise transformar nossa cidade em uma cidade excludente, com remoções forçadas e obras que não ficam prontas quando não é do interesse estrangeiro.

Não há contradição em comemorar as nossas medalhas e ainda assim criticar o evento. O uso do termo “ufanismo” nos mostra uma realidade: não existe apenas uma maneira de sermos nacionalistas, existe um nacionalismo que é proletário e outro que é burguês. Como diria Kim Jong Il, “Deve­-se distinguir o verdadeiro nacionalismo, que exige amar a nação e defender seus interesses, do nacionalismo burguês que defende os interesses da burguesia.”. O nacionalismo brasileiro precisa ser aquele que envolve o interesse daqueles que categorizamos como “povo brasileiro”, em franca oposição com parte da burguesia que venderia nosso país inteiro aos ‘gringos’ se tivesse a oportunidade. Hoje nosso país está de muitas formas sendo vendido, então não há tanto tempo assim para comemorar nossas vitórias olímpicas, ainda mais ao lado dessa mesma burguesia entreguista.

Para o governo Lula a realização das Olimpíadas era uma forma de projetar o Brasil internacionalmente. Uma espécie de “passaporte para cidadania internacional” e de também melhorar a estima do povo brasileiro fazendo da realização do evento a prova de que “seriamos capazes” para tudo. O golpe em curso em nosso país, sem dúvida, afetou essa questão: o Brasil projetado é o Brasil do “impeachment não é golpe” e a estima do brasileiro é induzida a aceitar que mesmo com crise politica a “festa continua”.