O ano que passou

Flavia Possas
Dec 25, 2017 · 4 min read
Foto de Jake Blucker no Unsplash

Quando coisas ruins ocorrem tem uma parte de mim que parece nunca realmente assimilar o que aconteceu. É como se aquilo tivesse sido vivido por outra pessoa e aquele capítulo não pertencesse realmente ao roteiro da minha vida. Ele fica meio apagado, nebuloso, envolto em uma leve descrença, como se eu tivesse sonhado.

A primeira vez que senti isso foi com uns 5 anos. Estava brincando com a minha irmã e bati a cabeça muito feio na quina da mesa, sangue escorrendo, a babá chorando. Lembro de estar sendo levada para o médico e ter a sensação nítida de que aquilo só podia ser um pesadelo, se eu esperasse um pouco iria acordar.

Até hoje nesses momentos me vem a mesma sensação. Quase 30 anos depois ainda tem uma parte de mim que confia que nada de realmente ruim pode acontecer. Esse ano teve um capítulo desses, muito surreal para ser realmente absorvido.

Nesse momento de fim de ano eu me vejo olhando para trás, para o que foi 2017 e tentando de alguma maneira encaixar essas peças dentro de mim. E percebo que quando se trata de encarar nossa mortalidade, perder alguém querido ou estar muito perto disso, talvez nunca seja possível encaixar de verdade. Perdi meus avós há mais de 10 anos e uma parte de mim ainda vive como se eles estivessem aqui à uma ligação ou visita de distância.

Por mais que eu tenha a consciência de que a vida é muito frágil e pode acabar a qualquer momento (assim como a de todos que amo), uma parte de mim acha que minha vida vai seguir o roteiro padrão. Não vou passar por grandes tragédias, acidentes súbitos. Vou morrer de alguma doença tranqüila, velhinha, com tempo para me despedir e para fazer tudo que jogo na categoria “algum dia faço isso”. Um dia vou morar 1 ano em São Francisco, um dia vou voltar a tocar piano, um dia vou reencontrar meus amigos espalhados pelo mundo.

Percebi que acredito em um jeito certo das pessoas morrerem. Que na minha vida as coisas tem que seguir esse roteiro, como se de alguma forma fosse possível prever isso. Como se eu tivesse recebido esse mérito de alguma maneira: de estar a salvo de tragédias.

Esse ano estava em um aniversário conversando com um amigo da época da escola. E ele falou: “pois é, chega um momento em que você percebe que sua vida não vai seguir aquele roteirinho que imaginamos, que você não vai ter o emprego perfeito, casar e ter filhos da maneira tradicional, do jeito que sonhava. E você encontra sua paz com isso”.

Isso ficou reverberando na minha mente. Porque já encontrei minha paz com muitas coisas. Desde cedo percebi que não ia conseguir seguir o roteiro normal, em alguns casos por escolha, outros por insubordinação, outros porque simplesmente era assim. Mas esse ano percebi que eu vivia com a garantia implícita de que vou ter todo o tempo do mundo e nada vai me desviar abruptamente do caminho. De que as mortes vão vir na hora certa, de uma maneira tranqüila. Nunca de uma maneira feia e sem sentido.

Nesse fim de semana passei no mesmo dia por um velório e por um momento de alegria pura em um show de uma das minhas bandas preferidas, com amigos muito queridos. Hoje acordei com tudo girando, tentando absorver tanta alegria e tristeza ao mesmo tempo. Acomodando a finitude que me faz tanto agarrar esses momentos felizes quanto tremer diante da falta de garantia de alguma justiça ou previsibilidade. Tentando acomodar o ano que passou, imaginando como é possível navegar no meio dessa montanha russa e dar um sentido para tudo isso.

A imagem que me vem à mente quando penso em tudo isso é uma carta do tarot: a roda da fortuna. Ela diz que a roda vai girar e tudo vai mudar subitamente; é a roda do destino girando, trazendo um acontecimento que vai abalar as estruturas, mas ela não diz se as conseqüências serão boas ou ruins para sua vida. Esse ano foi isso pra mim, a roda girou, várias vezes, e termino o ano em um lugar que jamais imaginaria em janeiro.

Minha resposta por enquanto, cada vez mais, é rasgar o véu dessa idéia de previsibilidade, olhar de frente a incerteza que nos carrega a cada momento e soltar as amarras que ainda existem em mim, uma por uma. Aquele tempo todo que você acredita ter para desabrochar, para se livrar dos seus medos e entraves, de mostrar ao mundo quem você realmente é, de conhecer todos seus amigos e amores, de encontrar sua família… quem te disse que ele existe?

Hoje eu estou pensando alto, falando de mim. Mas se você perceber em você essa mesma sensação de tempo infinito, questione isso. O que você pode fazer hoje mesmo para expressar quem você realmente é? O que pode fazer para soltar algo que está guardado, escondido? O que falta para você mostrar a sua cara para o mundo e ir viver o que realmente deseja viver? Fazer o que você realmente veio fazer por aqui. Porque se tem algo que eu sempre acreditei é que não viemos a passeio. Cada um de nós tem muito a contribuir, a viver, a amar, a inspirar, compartilhar. A gente só perde muito, muito, tempo em medos pequenos, paralisias bobas.

Se você puder dar um passo hoje, por minúsculo que seja, para viver de verdade, mostrar sua cara, usar sua voz, o que seria? O meu foi escrever esse artigo. Sem planejamento, sem revisão, sem intenção. Só porque era o que estava aqui.

Flavia Possas

Written by

Economista, MSc em Psicologia Econômica e Master Coach Integral. Ajudo meus clientes a construírem uma carreira que realmente traga auto-realização e liberdade.

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