O mal da preocupação

Flavia Possas
Jan 29, 2018 · 5 min read
Foto de Annie Sprat no Unsplash

Todos sabem que se preocupar é, em essência, um exercício inútil. Ficar imaginando tudo que pode dar errado não ajuda a remediar a situação e o nervoso ainda atrapalha nossa performance em qualquer atitude que tentemos tomar.

Mesmo assim, quando aquela pontinha de medo e frio da barriga começa a surgir é quase impossível não se entregar e se perder nos inúmeros “e se…” que nossa mente consegue fabricar.

Eu normalmente consigo minimizar esse tipo de pensamento (depois de muita terapia e meditação), mas todos nós temos medos particularmente traiçoeiros. Para mim um dos piores é abrir exames médicos. Por conta de uma série de experiências fui desenvolvendo um horror de encontrar algo ali que revire meu mundo da noite para o dia.

Outro dia me vi em uma situação dessas ao fazer um exame e fiquei observando até onde minha imaginação foi nos cenários terríveis. E lembrei de algo em particular que me mostra que a preocupação não é uma simples perda de tempo porque, afinal, a maioria dos cenários nunca se torna realidade. O processo de se preocupar é inútil e falho mesmo que tudo de terrível que você imaginou aconteça de verdade.

Prevendo sentimentos

Deixa eu explicar melhor. Minha dissertação de mestrado em Psicologia Econômica foi justamente sobre nossa capacidade de prever o que vamos sentir no futuro (affective forecasting). E o que experimentos mostram consistentemente é que somos péssimos em prever tanto a intensidade quanto a duração do que vamos sentir.

Não é que erremos a direção das emoções: o que acreditamos que vai trazer sofrimento normalmente traz sofrimento (claro que às vezes erramos nisso também; quem já terminou um namoro ruim e se surpreendeu ao se ver feliz e aliviado sabe disso). Mas erramos na calibragem, por assim dizer. Acreditamos que tanto alegrias quanto dores vão ser mais intensas e nos acompanhar por muito mais tempo do que realmente acontece.

Viés de impacto

Se, por exemplo, seu time ganha a Libertadores, você acredita que ficará mais feliz e por mais tempo do que realmente fica. Se o casamento termina, acha de antemão que ficará arrasado por mais dias sombrios. Isso acontece porque subestimamos em muito nossa capacidade de adaptação. Daniel Gilbert (psicólogo de Harvard) chama isso de impact bias, ou viés de impacto.

Temos mecanismos psicológicos poderosos de auto-defesa que entram em ação quando precisamos nos adaptar a alguma situação. Pouco a pouco você vai lembrando de coisas que não gostava naquela pessoa, dúvidas que tinha, vai se acostumando à falta e tocando a vida. No caso de coisas positivas também: o seu time ganhou e você está com uma alegria sem tamanho, mas no dia seguinte é vida normal, trabalho, problemas rotineiros, e essa alegria se vê engolfada em tudo isso. Nos adaptamos e consistentemente menosprezamos o poder dessa adaptação ao pensar no futuro.

Paraplégicos e ganhadores da loteria

Before Sunset

Existe um experimento famoso de 1978 do qual você provavelmente já ouviu falar. Pra quem também ama a trilogia do Antes do Amanhecer, o Ethan Hawke fala desse experimento em um dos filmes, foi assim que parei para pensar nisso pela primeira vez. O experimento envolvia entrevistas com ganhadores da loteria, um grupo de controle, e pessoas que tinham sofrido um acidente e ficado tetraplégicos ou paraplégicos.

Apesar dos resultados terem sido distorcidos e exagerados ao longo dos anos, o que se constatava era o seguinte: 1 ano após ganhar a loteria as pessoas mostravam um nível de felicidade (M=4.0) basicamente igual ao grupo de controle (M=3.82). E aqueles que tinham sofrido seqüelas graves de acidentes exibiam um nível levemente abaixo do controle (M=2.96). Pra quem tiver interesse o artigo original: http://psycnet.apa.org/record/1980-01001-001

No fundo era um experimento com poucos dados e uma escala meio frágil, mas a ideia de que nos adaptamos muito mais do que imaginamos foi comprovada diversas vezes ao longo dos anos em experimentos mais robustos. Faremos um bem enorme a nós mesmos se passarmos a levar isso em consideração ao prever catástrofes futuras.

Nossa incrível capacidade de adaptação

Se você tem alguém próximo que passou por doenças ou procedimentos que tiveram um impacto enorme no seu estilo de vida, criando limitações e restrições, já deve ter testemunhado esse efeito em primeira mão. O que parecia insuperável e insuportável depois de um tempo se torna quase rotineiro. Isso é uma das coisas que mais me impressiona no ser humano. Conseguimos nos adaptar a quase tudo.

Então quando estiver se preocupando com o futuro e imaginando como irá se sentir, tenha isso em mente: o seu “eu” que está aí sentado, prevendo, não é o mesmo “eu” que irá encarar o acontecimento se ele realmente se tornar realidade. As agonias que você imagina serão menos angustiantes e vão se dissolver mais rápido. Você vai se acostumar, vai voltar a ser feliz, mesmo que isso pareça impossível agora.

Duas ressalvas antes de ir:

1- Estou falando de pessoas em funcionamento normal, saudável. Imagino que para alguém em depressão, por exemplo, tudo isso vá por água abaixo.

2- Existe outro viés que nos atrapalha muito em aprender com nossos erros e passar a prever melhor nossas reações emocionais. É o viés de retrospecto, que nos faz lembrar de maneira errada de nossas expectativas e previsões originais. Quando, depois de um fato ocorrer, tentamos lembrar de nossa estimativa original sobre sua probabilidade, nossa memória se enviesa na direção certa. Então acreditamos que na verdade a gente achava mesmo que aquilo ia acontecer (mesmo que na época pensássemos o oposto). Algum dia tenho que escrever só sobre isso, pois esse viés é o que torna discussões sobre opiniões passadas particularmente irritantes. Do tipo:

- “Não, mas você falava que isso nunca iria acontecer”.

- “Eu? Imagina, eu jamais falaria isso. Tinha certeza que isso ia acontecer”… Assim, se não percebemos que erramos na previsão, não aprendemos a corrigir nossas expectativas.

Ajuste suas expectativas

O que é mais grave em relação à nossa incapacidade de prever adequadamente como vamos nos sentir, é como isso afeta nossas decisões hoje. Se achamos que o fim de um namoro vai ser nossa ruína e nunca mais seremos felizes, podemos decidir ficar com a pessoa errada para sempre. Se acreditamos que nunca vamos nos acostumar com um estilo de vida mais simples podemos nunca ir atrás do que realmente queremos fazer. A lista de decisões equivocadas é infinita.

Planejar sim, é saudável e importante. Mas se preocupar, deixar que exista uma contração permanente em sua vida por conta de algo que não vai acontecer do jeito que você imagina é loucura. Mais um argumento para que procuremos viver o hoje, cultivar nossa presença, e deixar de limitar nossas vidas em nome de ameaças que não temos nem a capacidade de prever corretamente.

Flavia Possas

Written by

Economista, MSc em Psicologia Econômica e Master Coach Integral. Ajudo meus clientes a construírem uma carreira que realmente traga auto-realização e liberdade.

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