Sim, e também…

Flavia Possas
Foto de Bryan Goff no Unsplash

Essa semana não vou conseguir seguir minha programação usual. Eu sempre tenho um planejamento do que vou escrever, uma pauta esboçada na minha mente. Mas hoje estou aqui sentada para escrever e não consigo ignorar o que tenho presenciado nos últimos dias.

Não vou falar de política porque não é meu propósito aqui. Não me sinto apta nem capaz de grandes contribuições. Mas tem uma frase que não sai da minha cabeça nessa manhã. “Sim, e também…”.

Essa semana eu estive imersa no curso de coaching da Integral Coaching Canada aqui em São Paulo. Estava lá como assistente e me vi cercada de pessoas das mais incríveis que já conheci. Pessoas com bagagens interessantíssimas, grandes experiências de vida pelo mundo afora, trajetórias únicas. E todos eles ali porque tem um impulso enorme de querer contribuir, ajudar os outros. Coração aberto e voltado para o outro. Estive em um tipo de atmosfera de cuidado, abertura e profundidade que é preciosa.

No meio de tudo isso acontece o assassinato de Marielle. Me vi envolvida em uma experiência enorme de luz e sombra. Esperança e desespero. E nos dias seguintes, reações que banalizam essa morte ou lhe julgam merecida. Mais polarização. Direita ou esquerda. Policiais ou bandidos. Comoção ou indiferença. Reações que já perderam qualquer contato com o que é racional ou humano.

E como eu disse eu não quero falar de política. Quero sim falar de desenvolvimento. De como podemos todos caminhar e sair dessa insanidade de um olhar tão estreito.

A frase que mais ouvi essa semana durante o curso foi “Yes, and…”. Porque na teoria integral todos os ângulos devem ser vistos. Então quando algum aluno pergunta: então isso quer dizer X? A resposta é sim. E também é verdade que Y. Isso e também aquilo. Luz e também escuridão. Uma morte é grave e a outra também. E também existem implicações sistêmicas para essa mortes. Você consegue ampliar o seu olhar? Enxergar que isso é grave e também aquilo? E enxergar as repercussões de cada parte para o todo?

Para o que você está olhando quando tira suas conclusões? Para si mesmo? Ou para si e também para o grupo com o qual se identifica? Ou também para o nosso país como um todo? Para nosso sistema político e econômico? Para o mundo como um todo? Até onde vai o seu olhar? Ele só abriga aqueles com os quais você concorda? Ele só vai até os interesses dos seus “semelhantes”?

Quando essa atitude de nós contra eles se torna generalizada, e você vê discursos extremos defendendo coisas que considera absurdas, é fácil entrar nesse mesmo padrão e se ver oscilando como um pêndulo para o lado oposto. Entrando na insanidade para se defender de um ponto de vista abjeto. Não estou me isentando disso e mesmo as pessoas mais ponderadas por vezes se inflamam na guerra dos opostos. Mas acredito que é nosso dever (digo, se você busca algum tipo de solução inclusiva) dar um passo atrás e sair da reatividade.

Lutar pelo que acreditamos, sim, mas sempre fazendo um exercício de enxergar o máximo de perspectivas que conseguirmos. Olhar para si mesmo, para o outro, para o coletivo, para os sistemas em que estamos inseridos, para o país, para o planeta, para todos nós e todos os seres vivos, para toda essa complexidade e tudo que está interligado e pulsando em uníssono. Por favor não diminua seu olhar. Não se diminua à reatividade e ao ódio cego contra o outro grupo. Pare de olhar para tudo como “ou isso ou aquilo”.

Por mais difícil que seja, coloque-se na perspectiva do outro que você abomina. Não vamos sair dessa dizimando ninguém. Ao ler comentários nos últimos anos vejo que o subtexto de muitos é que o outro grupo não deveria existir, que ele deveria ser eliminado de alguma maneira. Não sei se as próprias pessoas percebem o que está implícito no seu discurso e seu ódio, se elas realmente acreditam em algo tão bárbaro.

Podemos sair desse retrocesso monstruoso de extremismos e ódio não só através de um coração mais aberto, mas com um olhar mais amplo. Não estou só falando de amor. Que sim, é o mais importante. Mas de um exercício intelectual. Que pode fazer toda a diferença.

Se eu puder resumir tudo em uma frase: sim, e também… O que mais você pode incluir no seu olhar? Veja bem, não estou pregando o relativismo. Não estou falando que tudo é válido, que não há verdade, que todos pontos de vista são subjetivos e que então não temos como colocar um pé firme no chão para defender aquilo em que acreditamos.

Estou só falando que se continuarmos a nos embarricar atrás de extremismos e só olhar cada vez mais para o que já acreditamos as conseqüências são perigosíssimas. Eu leio propositalmente coisas no espectro oposto das minhas crenças para tentar entender o outro lado. Para balancear meu algoritmo (que sim, contribui em muito para a polarização). Em tempos extremos é muito fácil se inflamar e se perder numa guerra de gangues.

Se você não entende de um assunto, informe-se mais antes de repetir cegamente o que alguém te falou. Se você não sabe a procedência de uma notícia, cheque antes de espalhar. Se só lê coisas de meios viciados, se abra a ler outras perspectivas. Mesmo que não concorde, e te irrite. O viés de confirmação está aí firme e forte e nós entramos nesse loop crença- confirmação- crença mais extrema- confirmação- crença mais extrema ainda- e por aí vai. Não sei se temos noção do quanto isso é perigoso. O que acontece quando você acredita que o outro merece morrer? Que um grupo inteiro não deveria existir? Soa familiar?

Flavia Possas

Written by

Economista, MSc em Psicologia Econômica e Master Coach Integral. Ajudo meus clientes a construírem uma carreira que realmente traga auto-realização e liberdade.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade