Como #009e78 se tornou Uma Jornada Inesperada

A pior parte do meu dia é quando eu acordo. É como se a realidade me desse um tapa de novela mexicana todo dia às 11h. Acordo tarde assim porque 1: to sem emprego e 2: já decorei a programação da TV a cabo dos meus pais. À uma da manhã, a Boomerang exibe episódios antigos do Tom & Jerry e isso já se tornou uma rotina pra mim. Muitas vezes você enxerga as coisas antigas com lentes de nostalgia e as imagina melhores do que realmente são, mas isso não acontece com Tom & Jerry. Os episódios antigos deles são bons de verdade e garantem os melhores 40 minutos do meu dia. Afinal, quem não sorri ao ver um gato bêbado vestir um peru assado enquanto bebe uma garrafa de leite?

Em meio a buscas incessantes por um rumo na minha vida, acabei desenvolvendo um súbito interesse por documentários e programas de sobrevivência, como o do Bear Grylls, da Discovery. Eles te ensinam a sobreviver em ambientes hostis e podem se tornar úteis caso ocorra algum imprevisto na sua vida. Esses imprevistos podem acontecer a qualquer hora, às vezes você naufraga em uma ilha deserta e tem que tomar a própria urina e às vezes você é demitido. Felizmente comigo aconteceu a segunda opção, já que eu não sei nadar e com certeza não sobreviveria a um naufrágio. Por mais que as situações sejam diferentes, eu quase consigo ouvir o dublador do Bear Grylls narrando os meus dias: “nessa situação, você perde energia rapidamente e precisa repô-la com alimentos saudáveis, caso contrário, as coisas só tendem a piorar”. Ele me diria para parar de comer em fast foods e esse foi um dos motivos pelos quais eu decidi passar essa fase da minha vida na casa dos meus pais.

Eu costumo chamar esses imprevistos de tiros da vida. Eles são como tiros porque te obrigam a renascer e te garantem uma cicatriz que talvez nunca desapareça. Esse não foi o primeiro que eu levei e com certeza não vai ser o último, a vida é cheia de balas perdidas. Eu gosto de acreditar que os tiros são eventos pré-programados onde não se tem nenhum culpado específico. Eles são necessários porque, caso contrário, nós faríamos a mesma coisa todo dia.

O primeiro tiro que eu levei foi há alguns anos e, mesmo que tenha odiado no início, ele se revelou extremamente necessário. Na adolescência, eu passei tanto tempo sem me olhar no espelho que, no fim de tudo, a imagem mental que eu tinha de mim mesma era totalmente diferente da real. Me lembro de um dia me olhar refletida na fachada de um prédio e não me reconhecer de imediato. E depois de ter amarrado o meu cabelo do mesmo jeito por 10 anos, eu tomei um tiro. Foi esse tiro que me arrancou desse limbo e me colocou em outro, que só estava esperando outro evento inesperado pra me tirar daqui. E esse evento veio mais cedo do que o esperado e, por mais absurdo que pareça, eu me sai melhor do que achava que me sairia. Na hora você fica puto, sim, ninguém gosta de tomar um tiro. Mas você sobrevive, sempre. A não ser que seja um tiro literal, porque daí eu não garanto nada.

O Bear Grylls provavelmente recomendaria que eu me acalmasse, mas o que eu fiz foi bem diferente: eu saí e casa, fui até a rodoviária e peguei um ônibus pra Balneário Camboriú. Foi como a jornada inesperada do Bilbo, ele estava lá vivendo a vida dele e de repente entra um velho na casa dele e diz que ele vai ser um ladrão pra um grupo de anões que querem roubar o tesouro de um dragão. Okay, é bem menos legal, mas é o que a vida real pode fazer por nós.

Depois de descer do ônibus, sem ter a mínima ideia do que faria lá, decidi ir até o shopping que ficava logo em frente. Eu sempre procuro um shopping quando to numa cidade estranha porque é um lugar seguro, com ar condicionado e, o melhor: fast foods. Fui até a Livrarias Curitiba e encontrei um caderninho tipo moleskine por R$ 15. Era o mais barato que já vi na vida e não pensei duas vezes antes de comprar. Quando saí de lá, descobri que ele tinha pauta. Fiquei frustrada, mas aí entendi que ali se encontrava uma das melhores metáforas da vida: as coisas nunca são como você quer que elas sejam. Você pode reclamar, guardar o problema numa gaveta e esquecer ou simplesmente aceitar e usar ele mesmo assim.

Resolvi usar o caderno não só para desenhar coisas, mas também pra anotar coisas. Ele se tornou meu diário de bordo e, de um jeito super conspirador, eu comecei a ver a cor da capa dele em todo lugar. Resolvi chamar essa cor de “uma jornada inesperada” e, toda vez que vejo algo nesse tom de azul, me lembro da viagem mais rápida e esquisita que já fiz na vida, que automaticamente me lembra que preciso encontrar um jeito de tornar essa fase ruim útil de alguma forma. É como se a minha vida assumisse uma nova paleta de cores, como se alguém estivesse cuidando da fotografia de cada cenário ao meu redor. O que é um tanto pretensioso, mas tenho certeza que um sobrevivente como o Bear Grylls entenderia.

A vida é uma série de eventos inesperados. Você não sabe como parou aqui, você não queria estar aqui, você preferia estar morto, mas pelo menos no fim a gente tem umas histórias legais pra contar. Ainda não sei o que tudo isso vai me trazer e, enquanto isso, me mantenho escrevendo coisas, desenhando coisas e acompanhando a programação da Discovery. Quem sabe no fim eu não ganho uma vida novinha, com a cor de uma jornada inesperada.

E se você ficou curioso pra saber qual é a cor de Uma Jornada Inesperada, é só procurar pelo código no título. Não esquece de deixar sua recomendação pra ajudar a moça aqui ;)