Depois de 4 anos, você ainda estraga o meu hambúrguer

Era uma noite de sexta-feira, por volta das 19h, quando eu me sentei à mesa em uma hamburgueria artesanal incrível que já conhecia muito bem. Já tinha provado o cardápio todo, cada um dos pratos. Delícia mesmo, não dava pra botar defeito.

Tudo estava bem naquela noite. O hambúrguer veio no ponto e o molho extra que eu tinha pedido estava ótimo. Até que eu olhei pra frente e, olha só que maluquice, você estava ali. Você ali, de costas, comendo seu próprio hambúrguer que eu poderia adivinhar qual era só de olhar. Fiz tudo ao mesmo tempo: mandei mensagem pros amigos mais próximos, peguei minha mochila, deixei o hambúrguer no prato e estava prestes a deixar o local.

Olhei de novo. Não era você. Era uma pessoa qualquer. Alguém que, inclusive, tinha alguns (vários) anos a mais. E de repente, tudo mudou.

O hambúrguer tava frio, meu cabelo tava escroto e meu dia tinha sido horrível. Eu era a única pessoa sozinha num lugar cheio de famílias, casais e grupos de amigos. Aliás, eu era a única pessoa sozinha em muitos lugares. Supermercados, cinemas, teatros, montanhas e praias. Você acredita que até no Cristo Redentor eu tava sozinha?

Mas a solidão não me incomoda. O que me incomodou foi perceber esse fato terrível: eu nunca vou me livrar de você. Quando tiver um dia ruim, quando tomar uma decisão ruim, quando eu for demitida ou quando me servirem o pior hambúrguer do mundo, eu vou lembrar desse mix de sentimentos ruins que você se tornou. Assim, pra sempre, até eu morrer.

Rapaz, não dá pra entender. As pessoas agem deliberadamente sem se importar com as consequências que elas têm na vida de todo mundo que está a sua volta.

Veja, por exemplo, a criança maldosa na escola que chama o amiguinho de gordo. Ela não sabe, mas o amiguinho vai passar o resto da vida refletindo sobre aquilo e, mesmo que ele emagreça, aquela frase vai ficar marcada pra sempre.

Eu já lidei com muitas “crianças maldosas” e acredito que as pessoas, na maioria das vezes, não são más de propósito. Mas e daí, né? Quando a consequência já tá feita, a intenção não conta mais.

Você também não tinha a intenção, claro. Mas o ponto aqui é que você me fodeu.

Eu detesto admitir isso, mas você me fodeu. Em todos os sentidos que esse dicionário Aurélio permite.

Até hoje, seu nome soa agourento na minha boca, como se eu tivesse dizendo “Lord Voldemort”. Não que você saiba de quem eu to falando, você nunca leu Harry Potter. Ou livro algum. Tanto que eu to escrevendo aqui porque sei que você nunca leria, olha só o tamanho desse texto.

E mesmo não lendo, você quis foder um redator. Veja só. A gente nunca deu certo, nunca daria certo e você, sem sombra de dúvidas, foi o maior erro que eu já cometi na minha vida. E olha que uma vez eu fui no Pão de Açúcar e peguei o bondinho errado.

Mas então, ô caralhos, porquê eu to passando vergonha e escrevendo esse texto tão insignificante? Não é humilhação gratuita, não é discurso de ódio. Eu só quero saber: como, depois de 4 anos, você ainda consegue estragar meu hambúrguer?

Porque, claro, você foi importante na minha vida. Mas digamos que aquela frase da Micareta do Miranda se aplica muito bem aqui.

Eu realmente nunca te amei. Nem sequer senti aquele afetozinho que eu sinto quando vejo um gif de gatinho. O que eu sentia era uma velha conhecida dessa minha vida noturna: a carência. Quando você tá carente, qualquer coisa serve. Sabe quando você toma uma 51 pra ficar bêbado rápido e se sente bem arrependido no dia seguinte? Pois é. Você foi nada mais, nada menos, que uma 51 na minha vida. E tenho certeza absoluta que eu não fui nenhum Absolut na sua. Fui a Pirassununga que você tomava no fim de semana quando não conseguia coisa melhor.

O problema é que só agora eu te enxergo como uma garrafa de plástico de 51, naquela época, você era a única latinha de Coca-Cola na minha geladeira. É, eu não bebia antes dessa merda toda. Eu comecei a beber por sua causa. E, sinceramente, acho que essa foi a única coisa boa que você trouxe pra minha vida.

Anos atrás, tudo o que via era distorcido, deve ser porque eu não usava óculos. Aí agora eu percebo que a única coisa que fiquei te devendo foi esse texto aqui mesmo.

Será que é isso? A sua presença estraga meu apetite porque eu nunca tive a oportunidade de te dizer tudo isso que eu to falando agora? Vai saber. O fato é que você me deixou bem quebrada mesmo. Toda vez que tento ter um crush (é assim que os jovens chamam hoje em dia, né?), dá tela azul. To falando sério.

Parece que você entrou no meu servidor e apagou a pasta System 32. Mas que inferno. Me tornei um ser humano incapacitado de “se apaixonar”. Sabe o que é isso? Sabe. Devem ter feito o mesmo com você.

Até falar “apaixonar” me embrulha o estômago. A palavra soa como uma doença, algo nocivo. E eu sei que não é assim, oras. Sei mesmo. Mas é um comando automático, meu corpo responde com repulsa a qualquer uma dessas palavras: casal, romance, relacionamento, apaixonar, amor, casamento e várias outras relacionadas.

É como andar de montanha-russa. Eu tenho um amigo que odeia montanha-russa, mas se joga de cabeça em qualquer relacionamento. Ele diz que só andou uma vez e foi tão horrível que ele nunca mais voltou. Ele não conseguia entender porque eu tinha tanto medo de ter um relacionamento sério. Eu não conseguia entender como ele não curtia montanhas-russas. Nós compreendemos que estávamos exatamente na mesma situação.

As montanhas-russas são todas diferentes. Mas eu dei o azar de você ter sido minha primeira e agora não vou em outra nem a pau. Afinal, não só foi uma viagem desagradável como também meu carrinho pegou fogo e toda a estrutura desabou em cima de mim enquanto você se retirava dizendo “e você quer que eu faça o que? Não tenho muito o que fazer no momento”.

Foi um rolê errado, horrível e eu não tirei proveito de nada. Você também deve ter achado uma merda e eu não te culpo.

Não quero contato com você porque vejo um total de zero razões pra isso acontecer. Tudo o que eu peço é o seguinte: devolve a minha pasta System 32 porque eu não quero ser uma você na vida de outra pessoa.

E tá mais do que na hora de eu comer qualquer hambúrguer desse caralho de mundo em paz.

P.S.: desculpa ter feito você perder tempo com um texto tão irrelevante. Fique com esse meme de consolação: