Eu vou morrer sem conhecer o mundo inteiro

E isso é o suficiente pra me tirar o sono

Enquanto você lê esse texto, pessoas em uma região remota da China atravessam um rio usando uma tirolesa improvisada. Elas sentam num suporte que praticamente não dá suporte nenhum, enquanto seguram coisas como sacos de grãos, batatas e animais vivos, e deslizam até a outra margem, passando por cima de águas que correm com agressividade, levando tudo o que está no seu caminho. Depois da tirolesa, elas descem a montanha para visitar a feira que acontece na cidade logo abaixo.

Enquanto você lê esse texto, tem gente na Austrália que come lagartos assados dentro da areia, num ritual que une famílias de tribos antigas já tem centenas de anos.

Enquanto você lê esse texto, alguém assiste a uma aurora boreal em algum lugar na Antártida e isso é algo tão cotidiano quanto pegar um ônibus de manhã. Alguém toma um sorvete em uma cidade simples e charmosa da Itália, fazendo hora antes do expediente. Alguém acaba de perder o trem em Tóquio e alguém acaba de encontrar uma carteira perdida em algum shopping center de Santiago.

É provável que nunca terei tempo de vida o suficiente para vivenciar todas essas coisas. E, porra, eu queria descer esse caralho de tirolesa.

Não dou a mínima pro resto das coisas que a sociedade diz que você tem que fazer antes de morrer se não você é considerado um fracasso. Se eu morrer sem nunca ter tido uma casa própria, aprendido a dirigir, comprado um carro, casado ou ter tido filhos, por mim, tudo bem. Mas eu realmente queria descer esse caralho de tirolesa.

Queria sentar com um dos habitantes locais, tomar um chá daquela região e ouvir todas as histórias que ele tem pra contar. Visitar a feira e comprar um saco de arroz pra cozinhar em casa mais tarde. Queria provar o lagarto assado na areia, assistir à aurora boreal, tomar um sorvete na Itália, perder um trem em Tóquio e entregar uma carteira no achados e perdidos desse shopping center de Santiago.

E não, eu não vou viver o suficiente pra isso. Isso porque esse mundo é grande demais e as possibilidades que existem nele são incontáveis. Em uma linha de vida comum, de uma pessoa não muito abastada, em um país de terceiro mundo e com algumas restrições, é provável que você consiga ver muita coisa, mas não tudo.

Mesmo que hoje eu esteja em uma posição privilegiada, comparada a outras pessoas que têm ainda menos oportunidades, eu não sei se consigo realizar todos os meus sonhos antes de morrer.

Isso porque você passa muito mais da metade do seu tempo de vida trabalhando e, em troca do seu tempo, você ganha dinheiro para comprar coisas. Mais da metade dessas coisas são coisas que você precisa: comida, casa, roupas e segurança. Na minha vida, tudo o que sobra é guardado para ser gasto com experiências e, ainda assim, isso não é suficiente.

Para programar uma viagem e guardar o dinheiro necessário para torná-la possível, eu levo cerca de um ano. Agora tente focar em quantos lugares existem no mundo. Acha que dá tempo? Não dá.

E caralho, a fome que eu tenho do mundo é muito grande. É como se fosse uma fome mesmo. Adoraria me contentar com coisas mais simples, sonhar em ter um casal de filhos e fazer aquele almoço de domingo que reúne toda a família, mas, infelizmente, eu prefiro pisar descalça em um gramado lá da puta que pariu.

Engano essa fome vendo documentários, lendo sobre outras culturas e planejando viagens que, talvez, nunca tenham condições de acontecer de fato. Mas esse não é o problema. O que me tira o sono é saber que esse planeta é a única casa que conhecemos e que 99% das pessoas jamais terá a chance de saber como ele realmente é.

Essa é a real tristeza. O jeito como a nossa vida funciona, o roteiro que eles escrevem pra gente quando nascemos e os limites que as leis impõem colocam um teto para impedir que nossos sonhos cresçam mais do que deveriam.

Se o capitalismo tivesse uma boca, ele diria: “você pode ser o que quiser, desde que seja alguém com um emprego estável que procura adquirir bens e serviços de acordo com a sua posição econômica”.

Enquanto isso, a fome segue. E eu continuo achando que, se apertar um pouco, ajeitar um pouco, esticar os dias um pouquinho, talvez dê tempo de viajar o suficiente antes de eu ficar velha demais pra ir na esquina comprar meu remédio.

Mas acho que poderia ser mais fácil.

Like what you read? Give Flávia Carvalho a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.