uma carta
me embolei nesse negócio da vida adulta e lembrei da música que c. disse “eu não sei como funcionar” que no caso não é a música mas um pedaço da música e antes eu tinha certeza de não saber funcionar. todas as pessoas pareciam saber dançar uma música que só elas ouviam e depois até vi essa imagem acho que num livro de bukowski ou as virgens suicidas, que seja, a questão é que eu lia essas coisas depressivas e deprimentes e me julgava tão inadequada e hoje constato — tristemente — que muita gente [ninguém seria muita gente mesmo] não cabe não funciona e isso é até elogioso pois são as pessoas mais legais e mais lascadas.
às vezes me vem um negócio imenso uma sensação imensa de que isso é existir. nada faz sentido a não ser os sentidos que a gente dá e todo o tempo espaço e sei lá quais outras dimensões são a gente experimentando viver ser humana. mas aí eu lembro do capitalismo e tudo que mata essa experiência linda. tudo que aprisiona e sufoca e dá medo — para além do próprio medo de encarar o desconhecido que é o existir. existirmos: a que será que se destina?, alguém perguntou e depois morreu.
às vezes pensar e olhar desse jeito imenso me alivia os pulmões. sempre me pego pensando qual seria o jeito certo de viver — o jeito mais proveitoso, o jeito mais divertido e gostoso. queria saber logo essa resposta porque sinto que tô desperdiçando tempo fazendo coisas erradas e afinal ninguém tem essa resposta (ou quem descobriu e morreu/se matou já sabia e não suportou? ou não suportou não saber?) e afinal viver deve ser lidar com esse enorme aperto no peito nó na garganta de saber que nunca saberá mesmo. e tem as pessoas da sala de jantar — aposto numa felicidade tranquila ou numa infelicidade serena. mas não invejo.
r. me disse um dia que eu sou uma personagem de almodovar. outro dia comentei com b. que eu sou engraçadinha mas escrevo bem dramática e ela “querida sua vida é um drama” e eu não sei como é viver de outro jeito. um-um. não digo que acho bom ou ruim. queria dormir. acolher melhor as tristezas e as incertezas e “não temos controle de nada tudo é impermanente blablabla”. só não sei. não aprendi a ser de outro jeito. só sei sentir tudo muito. venho cada dia falando menos observando mais — e tenho aprendido muito assim. cada dia que passa me sinto mais conectada a algo inexplicável (algo que frustrantemente agora não consigo arrumar em letras. e aceitar que nem tudo cabe em palavras é também um aprendizado doloroso pra mim. tanto que agora estou em busca de outras linguagens, mas sinto que essa busca não tem fim e algo vai se perder ou nunca nem será encontrado) e eu sinto melhor as pessoas os momentos os espaços o céu o mar a lua e toda a cafonice e clichêzice que é viver. sinto melhor os sentimentos.
mas essa conexão por vezes é tão rápida logo me esqueço e me jogo nesse vórtice louco nesse caos que habita o peito e a cabeça — e não habita nenhum dos dois também porque é tão maior que a gente, mistérios da mente, mistérios do universo, mistérios do infinito, mistérios da meia noite. mas eu me recuso a sossegar e só acreditar no pulsar das minhas veias. me recuso a ter medo e negar o fogo ingênuo da paixão. viver é caótico mesmo. é bagunçado e sujo. é irracional. é absurdo.
um dia me machucam com palavras e silêncio. noutro dia falam demais me enchem de amor. precisamente assim — sexta e sábado.
e eu cantava “mas é possível ser feliz sozinho”. errada erradíssima pois cada dia que passa, princesa, se eu levar alguma certeza do existir é o amor (mas esse negócio imenso que não cabe nem mesmo nesse signo. nem no significante, nem no significado, mas naquilo que se perde ou nunca se encontra). o resto é mar. e se tu para um minutinho pra se ouvir respirando, mas atenta mesmo, cuidadosa, o som do inspirar e do expirar é igualzinho ao da maré, po. igual. me ouvi e achei a segunda coisa tão mais linda que descobri esses dias. e eu podia continuar escrevendo escrevendo falando sobre como somos tudo uma coisa só. falar de todas as imagens que me veem no juízo quando penso em mar e penso em gente e no ir e vir das ondas — todas essas obviedades que são lindas mesmo.
mas só queria te lembrar pra de vez em quando a gente respirar. olhar pressa big picture. ouvir a respiração — e respirar bem fundo.
te lembrar que o mundo diz pra nós que tristeza ansiedade raiva são ruins e devemos negá-los. mas eles são só sentimentos a serem sentidos (não vou problematizar nada agora. várias risadinhas.) e vão ser sentidos de uma maneira ou de outra — vamos tentar novas maneiras, não?
te lembrar que eu te amo. do mais fundo de mim, de onde eu desconheço um monte inclusive, de onde nasce, de onde são gestados os inícios.
(a outra coisa linda foi que uma gata disse esses dias que não há explicação científica pro início do trabalho de parto. há um clique e pronto. daí lembrei que um amigo físico me contou que não há uma explicação pra origem do universo. os boy retrocedem a um ponto, antes dele não há mais como explicar. é hipótese. um clique.)
(acho que os encontros têm um tanto disso também né? quem explica?)
te amo.
f.
