Para onde vão os maus alunos?

Muitos professores que tive na escola se espantam quando ouvem que me tornei especialista em educação. Isso porque não era lá uma aluna muito ”nota A”, só fui aprender a ler com apenas 11 anos. Mas a minha escolha profissional sem dúvidas está relacionada com a trajetória do meu próprio processo educativo.
Passei os dois primeiros anos da escola tentando entender qual era a lógica de sentar, olhar para o quadro e copiar no caderno. Morava em uma cidade pequena, meus dias tinham cheiro de grama e cor de terra sujando a roupa.
Enquanto as crianças já começavam a escrever os nomes, usava meus cadernos para desenhar, gostava de desenhar alguns personagens e depois fazê-los em argila. Nessa idade, minha paixão era criar esculturas com argila, inventar um universo todo com tinta guache e costurar tapetes e capas de almofadas na máquina antiga da minha vó.
Sentir-se capaz de inventar qualquer coisa me deixava tão encantada. Tive a sorte de descobrir, antes mesmo de escrever meu próprio nome, a paixão que iria me mover ao longo da vida.
Por volta dos onze anos comecei o processo de aprender a ler, em uma época que as crianças eram alfabetizadas aos sete. Tinha um “desencaixe” entre a escola e a minha vida apresentava um resultado muito abaixo da tal “média” nas provas e avaliações.
Enquanto era reprovada nas aulas de História, estava envolvida movimentos sociais lutando as ruas por causas que acredito. Mesmo ficando de recuperação em Matemática por 5 anos seguidos, consegui criar e vender artesanatos, o que me permitiu ter dinheiro suficiente para manter na escola de dança e mais tarde comprar meus materiais de estudo para o vestibular.
Muitos pais me procuram porque seus filhos de alguma forma não se encaixam no sistema de ensino. Lembro de quando também era uma dessas crianças que não recebem estrelinhas douradas no caderno.
O conselho que eu dou para esses pais é que a aprendizagem não acontece somente na escola. Podemos contribuir muito com nossas crianças oferecendo alternativas e vivências fora dela. O tempo de brincar, de imaginar, as conversas com os mais velhos, as oportunidades de fazer amigos e aprender a compartilhar carregam em um valor imenso para a formação dos pequenos.
Vejo que um novo caminho já começa a se formar para a educação, traçado muitas vezes por adultos que também foram deixados à margem do sistema de ensino no passado. O movimento de inovação parte principalmente de práticas de ensino que desenvolvem oportunidades para que cada um possa descobrir a importância da educação para si próprio e do seu modo.