Nossos arquivos (memória)

Filme “Violação de Privacidade” de 2004, com Robin Williams

Na apresentação este filme é tido como história futurista, logo imaginei algo como “Matrix” no estilo mais sentimental de Williams. De futurista tem uma empresa que implanta uma espécie de chip no cérebro das pessoas. Antes mesmo das crianças nascerem, os pais compram esse chip e a partir do nascimento toda a vida fica gravada, mas paradoxalmente a isso a vida das pessoas, os móveis e principalmente os computadores utilizados para leitura destes chips não tem nada de futurista, mas esquecendo esses detalhes periféricos o tema central é fascinante e me fez pensar um pouco e querer comentar aqui.

Quando uma pessoa que tem o chip implantado morre, a família escolhe um editor (algumas pessoas trabalham nisso). O editor não pode ter um implante, pois ele trabalha e vê toda a vida de muitas pessoas e não pode ter isso registrado em suas memórias. O editor escolhido vai acessar todas as chamadas rememórias do falecido. As rememórias são arquivos e estão todas dispostas em pastas: infância, sono, aprendizagem, alimentação, vida romântica, religião, medos, tragédias, violência, etc. e a partir destas ele vai editar um videozinho que será exibido para familiares e amigos numa cerimônia.

Robin Williams é Hakman, um desses editores e ele é escolhido por pessoas que tem situações a esconder da sociedade, pois ele sempre deleta os piores momentos e apresenta uma rememória que enaltece o falecido. Mas Hakman não sabe que tem um chip implantado. Seus pais morreram antes de lhe contar. Ele tem lembranças da infância que o atormentam e este é o ponto.

Ele tem lembranças de estar brincando com outro garoto. Nestas lembranças, ele incita o garoto a atravessar por uma tábua estreita que faz uma ponte e o garoto cai, ele não tenta segurar e em seguida vê o garoto rodeado por uma enorme poça de sangue. Hakman carrega a culpa em silêncio, até o momento em que encontra esse garoto (agora um homem) presente em uma festa em uma das rememórias que está editando.

Ao descobrir que tem o chip implantado, Hakman quer acessar suas rememórias neste ponto: no momento do acidente e para sua surpresa, alegria e alívio sua versão do acidente não correspondia a realidade e ele não encorajava o amigo a atravessar a ponte, ele havia tentado ajudar na queda e o que acreditava ser uma poça de sangue era tinta de uma lata que tinha virado. A altura da queda não era a que imaginava e o garoto foi socorrido e sobreviveu.

Essa é a grande questão ao ver este filme (deixarei de lado a questão da violação de privacidade): Quantas vezes e qual a dimensão de minha distorção, de meu desencontro ou fuga da realidade ora causada pelo medo, ora pelo desconhecimento ou por qualquer outra razão? Impossível mensurar. Para este caso o tempo pode ser um grande aliado, o medo ou a raiva capazes de cegar passam com o tempo e então a verdade se revela quando acessamos nossas rememórias. Certa vez vivi algo que se encaixa aqui como exemplo. Não sei precisar o tempo, mas fazia bem pouco que minha madrinha tinha falecido, eu deveria ter uns 10 anos. O filho dela continuou morando na casa dela. Ele viajou e então fiquei com as chaves para ir abrir as janelas, molhar as plantas. E fui sozinha, sem medo. Ao entrar, ouvi um barulho que parecia o vento soprando distante. E continuou a soprar, mas lá fora não tinha vento. Senti um arrepio de medo e saí correndo. No dia seguinte fui com medo e tudo se repetiu. Não contei para ninguém. Fiquei pensando se era a presença dela… Meses se passaram e minha mãe comprou um freezer. Ao ligar, o motor do freezer fez o mesmo barulho (e com o mesmo ritmo) daquele “sopro de vento” que tinha me assustado. E eles tinham o freezer na cozinha, onde eu tinha sentido o vento. Com o silêncio e uma boa imaginação o ruído do motor do freezer se transformou numa “presença espiritual”. Daí por diante, comentei com algumas pessoas essa experiência para exemplificar o que somos capazes de fazer com a nossa realidade. Nada te impede de pegar a realidade e embrulhá-la no sentimento e tomá-la como sua verdade. A escolha é sua e as consequências também.