Desejo de mudança

Laurinha parou na frente do espelho do hall do prédio antes de sair. O modelito estava perfeito. Uma calça camuflada com bolsos dos lados, bem justa, a camiseta do Brasil preferida do seu irmão mais novo, com um decote feito as pressas com uma tesoura, mostrando os seios perfeitamente empinados por um sutiã com enchimento extra denso da Dior. Nos pés, um All Star branco de couro, comprado no começo da faculdade e usado menos de cinco vezes nos últimos dez anos. No rosto, seu orgulho consumista, um par de óculos Channel que uma amiga lhe trouxera de Paris e os olhos levemente borrados, como se ela não tivesse limpado bem a maquiagem do dia anterior. Afinal, revolucionária nenhuma poderia sair para a rua com a delineador no lugar. A bolsa era pequena, de cruzar no peito, marcando o volume feito pelo sutiã e, amarrado na alça, dando um toque de cor, estava um lenço de seda, nacional mesmo, caso tivesse que chegar perto de gás lacrimogêneo. Mas, claro, o lenço estava ali só para constar. Ela não teria problema com nada disso. Era uma boa garota, só queria gritar suas insatisfações. Nunca iria bater de frente com a polícia.

Fazendo caras, bocas e poses, ela sacou o iPhone da bolsa para registrar o visual antes de sair e começar a suar. Com o joelho levemente flexionado, jogando o decote para a frente, ela fez a foto e a postou no Facebook dizendo: “Essa é a nossa chance de lutar por esse país maravilhoso. De que adianta tanta beleza natural se o nosso governo não sabe cuidar??? Vem pra rua, amorecos!!!!!!! #mudabrasil #vemprarua #vempraruabh #eanossachance #agoraoununca #independenciaoumorte #vamoquevamo #dapramudar #espiritorevolucionario #revolucaosavassi #changebrazil #amobhradicalmente #soubh #laurinharoks”.

Finalmente pronta para encarar seu primeiro protesto, ela correu para a portaria do prédio. Seus amigos já deviam estar na rua.

- Oi seu Almir. Vamos protestar! Você não vai ficar aqui, né?

O porteiro, sentado em sua guarita com uma camisa branca e gravata preta acenou com a cabeça.

– Mas essa é a nossa chance de defender o nosso país! Temos que sair e lutar por ele. Não é hora de ficar sentado olhando o Brasil acabar, seu Almir.

Sem mostrar qualquer tipo de reação, ele acenou novamente, concordando com tudo que Laurinha falava.

– Ah, bom, seu Almir. As vezes a gente se encontra lá, né? Me manda onde você vai ficar pelo Twitter! Tchau que meus amigos já me viram!

Ela correu abanando a mão para o porteiro e entrou no carro onde os amigos da faculdade a esperavam. Almir voltou a olhar paraa imagem de sua pequena televisão, na qual tentava ver em uma imagem borrada um grupo enorme de gente andando. Laurinha entrou no carro e se sentou no único espaço vazio, o banco da frente lotado. No volante estava Gustavo, a carona garantida de Laurinha para todo e qualquer evento. Do lado de trás estavam Felipe, o outro Gustavo e André. “Oi amorecos! Arrasei na roupa de protestar?”

– Achei a calça meio anos 90, fofura — disse André, o amigo gay do grupo.

– Por isso é legal! Nada de consumismo, estou reciclando roupas.

– Ficou legal, Laurinha. Manifestante gostosa! — riu Gustavo, fingindo que tentaria passar a mão na perna da menina.

– Gustavo! Para, seu machista! — gritou, com uma voz bem aguda, rindo e fingindo tentar impedi-lo — Eu não sou uma manifestante gostosa, hoje a gente vai mudar o Brasil!

***

Assim que chegaram no Centro, Gustavo deixou seu carro dentro de um estacionamento 24h, que cobrava doze reais a hora. “Não dá pra deixar na rua, a gente vai ter que meiar.” Eles saíram do carro e foram em direção da concentração, na Praça Sete. Lá, encontraram um grupo de pessoas com cartolinas em branco, convidando quem chegasse para escrever uma mensagem. Era pra todo mundo fazer bonito na TV que a Globo já ia chegar.

Laurinha se encarregou de escrever todos os cartazes do grupo enquanto os homens tentavam encontrar um vendedor ambulante para comprar cervejas. Quando voltaram, Gustavo deu a primeira boa notícia do dia. ”Laurinha, eles tinham Ice!”, falou, entregando a pequena garrafa de refrigerante alcoólico para a amiga. Ela deu um gole e mostrou os cartazes que eles iriam carregar. “Por um Brasil mais justo, intervenção militar”, “Mostra a sua cara bandidagem petista”, “Jogaram mentos na Geração Coca Cola”, “Queria ezcreve um cartais mais a Dilma não deu educassao”, “Eu não vou desistir do Brasil, fora PT”.

– Você é a pessoa mais criativa que eu conheço. São os melhores cartazes do protesto todo.

– Que isso Gustavo, nada criativo não, é a mensagem da revolução. Só escrevi — falou, sem contar que copiou todos, exceto o “Mostra a sua cara”, que foi inspirado na música da Gal Costa, a preferida da mãe.

Com o cartaz em uma mão e a garrafa de Ice na outra, ela começou a gritar: “Quero um Brasil melhor!”.

Em poucos minutos, a concentração começou a caminhar rumo à Savassi. As próximas duas horas foram tudo que Laurinha sempre sonhou. A caminhada, a energia da multidão, seus melhores amigos ao seu lado, a certeza de estar fazendo o bem e a leveza que o Ice lhe dava a deixou com o humor perfeito. Sorrindo de orelha a orelha, ela sentia que era parte de uma geração, que sua vida tinha sentido, que sua existência não seria desperdiçada. Ela estava a frente da marcha, se sentindo a líder das mais de 30 mil pessoas que estavam ali.

***

Tudo correu perfeitamente bem até que Laurinha, que já estava no seu quinto Ice, precisou ir ao banheiro. Sem hesitar, os amigos saíram do meio da multidão tentar encontrar algo adequada para a garota. Os quatro já tinham se aliviado algumas vezes em discretas árvores do caminho.

– Acho que vi uma lanchonete mais pra trás. Eles devem estar cobrando para deixar usar o banheiro.

Se afastando cada vez mais do núcleo de manifestantes, eles procuraram a lanchonete. Mas o dono já tinha fechado as portas e estava com dois homens mal encarados mandando todo mundo passar direto, nada de parar perto do estabelecimento dele. O grupo continuou procurando um banheiro, sempre se afastando do grupo, entrando em ruas menores e, finalmente decidiram que Laurinha teria que dar uma de homem e fazer o xixi atrás de um carro. Eles se afastaram para não deixar ninguém chegar perto dela e a garota se aliviou rapidamente, sem papel higiênico, mas com um certo orgulho da sua falta de civilidade. Por algum motivo aquilo a fazia se sentir menos burguesa, mais real e uma verdadeira revolucionária.

Quando terminou, ela falou com os amigos. “Hoje é o dia sem regra! Hoje a gente pode tudo, sem preocupar com o que é certo e errado, amorecos!” Como sempre faziam, os quatro concordaram com ela e tomaram um atalho sugerido pelo outro Gustavo para chegar a frente do protesto mais rápido.

As pequenas e grandes ruas da Savassi passaram rapidamente, o atalho do Gustavo era ótimo e, quanto mais chegavam perto, mais pessoas viam e mais ficavam animados com a movimentação. No fim das contas, o atalho era tão bom que eles chegaram à barricada policial antes da marcha. Quando viu a oportunidade, Laurinha pegou seu cartaz e começou a gritar “Fora Dilma! Fora PT!”. Os quatro imitaram. A visão da garota com sua roupa de revolucionária, óculos escuros e energia de sobra impressionou os jornalistas que esperavam algum movimento para mandar fotos da marcha para a redação. Laurinha gritando foi a capa de todos os portais por cerca de 20 minutos, para o orgulho da sua mãe.

Infelizmente, depois de 20 minutos de protesto, a marcha alcançou o grupo. E vendo mais de 30 mil pessoas se aproximando da barricada defendida por 30 policiais, o comandante da PM não teve dúvidas. Era hora de jogar o gás.

As pequenas latinhas voavam pelo céu acima de Laurinha. Nos primeiros segundos, a sensação foi perfeita. Ela estava a frente de 30 mil pessoas, recebendo ataques da polícia porque ela ousava gritar e exigir responsabilidade fiscal. Ela era parte da revolução. Ela estava a frente do seu tempo. Esses pensamentos ocuparam sua mente até que as primeiras moléculas do gás começaram a alcançar seu nariz. Largando o cartaz no chão, ela começou a tossir e a tentar proteger seu rosto. Correndo para longe do gás, ela puxou o lenço de seda e o amarrou na cara. Mas, sem vinagre, o lenço mais atrapalhava sua respiração do que ajudava. Puxando o lenço para o pescoço, ele procurou os amigos. Algum deles teria o vinagre, com certeza. Ela não trouxe porque não cabia na bolsa. De longe, viu André e Felipe correndo juntos. Entre ela e os dois estava a nuvem de gás. Laurinha não poderia passar por ali de novo, sua garganta já estava ardendo e parecia que a camada mais superficial de sua pele tinha sido queimada.

Enquanto pensava no que fazer, Gustavo se aproximou correndo e pegou a garota pelo braço. “Corre!”. Com ele, estava o outro Gustavo. Os três correram até que Gustavo encontrou uma entrada para um terreno baldio. Eles entraram, andaram no mato, encharcado de urina de outros manifestantes até achar um pedaço mais distante e um pouco mais limpo. Ali, no meio do mato, os três dividiram uma garrafinha de água para tentar lavar do rosto os resquícios do gás.

Cansada, bêbada e sem ar, Laurinha tirou a bolsa e sentou em baixo de uma árvore. Os dois Gustavos se sentaram com ela no meio.

– Laurinha, você tava falando sério quando disse que hoje não tem regras?

A menina riu alto, ficou sem ar, se recuperou e disse: “Você viu aquilo? Hoje não tem regras. Hoje vale tudo. Hoje é dia de quebrar tabus, amoreco.” Os dois homens se olharam, olharam para a garota e, sem falar nada Gustavo começou a beijar Laurinha.

Ela estava torcendo para ficar com algum amigo hoje. Precisaria de algum tempo transando loucamente com alguém para queimar a adrenalina do dia. Ela retribuía o beijo do amigo quando sentiu mãos quentes embaixo da sua camisa. O outro Gustavo estava levantando sua blusa do CBrasil, expondo o sutiã e apalpando sua barriga.

– Que isso, Gustavo!

Ela se preparava para gritar um pouco mais, mas foi silenciada por mais um beijo de Gustavo. Juntos, eles tiraram a camisa de Laurinha, o sutiã de Laurinha, a calça de Laurinha, sempre dividindo como irmãos tudo que encontravam. Laurinha ainda tentou protestar mais uma vez, mas Gustavo respondeu seu grito de “não!” com “sempre quis te comer. Mas não achei que fosse conseguir fazer isso com meu brother mais do coração do meu lado.” Os dois homens se beijaram e Laurinha perdeu, de vez, toda a habilidade de falar.

A cena, no meio do mato alto do terreno baldio continuou por mais algum tempo, até que os toques insistentes levaram Gustavo a atender o seu celular. Laurinha estava no chão, embaixo do outro Gustavo.

– Cara! A gente tá bem. A Laurinha e o Gustavo tão aqui comigo, sim. Tudo certo. A gente se encontra lá no Centro, acho melhor. Perto do estacionamento, beleza?

Com carinho no olhar, ele se virou para o casal no chão, mas não viu o rosto de Laurinha, molhado de lágrimas. “Acho que o nosso passe livre acabou.” Com essas palavras, ele ajudou Gustavo a levantar e pegou a mão de Laurinha. Com todo cuidado do mundo entregou as roupas para a menina, que se vestiu na hora.

Sem conversar muitos, os três andaram, os quilômetros de volta para o Centro. Pelo caminho, encontraram carros queimados, lojas arrombadas, gente gritando, policiais sendo violentos. Mas, juntos, eles conseguiram se proteger de qualquer mal e chegaram ao ponto de encontro.

Lá, André e Felipe correram para abraçar Laurinha. “Você está bem, querida?”. Ela acenou a cabeça. “Ainda bem que os meninos ficaram do seu lado. Não quero nem pensar no que podia ter acontecido.” Sem mostrar qualquer tipo de reação, ela acenou novamente, concordando com tudo que André falava.

Os cinco meiaram o estacionamento e foram para casa. Quando Laurinha entrou em casa, se esqueceu de cumprimentar seu Almir, que ainda via o protesto na televisão enquanto esperava o porteiro da noite chegar.

  • A versão original do texto foi publicada em 15 de julho de 2013.