Ligando o botão F

17.ago.2015 Por Flavia Maoli

Se você ainda não ligou, está na hora de ligar. E esse conselho não serve apenas, mas principalmente para quem está tratando um câncer. Foda-se! Foda-se tudo o que não foi, todos os “e se…” que passam pela cabeça após receber o diagnóstico. E se eu não tivesse bebido tanto, teria evitado isso? Será que foi porque eu comi Mac Donald’s, ou não fui em todas as missas, ou será que foi o desodorante com parabeno? Vai ver foi porque aquela vez eu falei coisas horríveis pra minha vó, vai ver foi isso… Ou será que isso tudo é culpa da genética? E se eu tivesse… Foda-se.

Mantra facinho de decorar, né?!

Câncer não é castigo, câncer é uma coisa que pode acontecer com a gente, desde que a gente esteja vivo. Existem causas conhecidas? Sim, mas elas só nos interessam daqui pra frente. O que não foi não é, já dizia Los Hermanos.

Esse é o momento de focar em nós mesmos, de se respeitar. Isso pode soar egoísta, mas — de novo — foda-se! Só poderemos ser uma boa pessoa pros outros se soubermos ser bons pra nós mesmos. Não quer dizer que devemos pisar nos outros, pelo contrário: as pessoas de valor devem ser mais valorizadas ainda! O câncer não é uma doença de uma pessoa só, ele envolve a família e os amigos, todo mundo se abala. Mas ter câncer é uma boa oportunidade pra fazer uma faxina emocional, separar o joio do trigo, ver quem realmente se importa e quem abandona o barco quando a coisa aperta. Às vezes essa descoberta dói, a gente se decepciona com as pessoas… mas foda-se! Certamente você vai descobrir que muitas pessoas que você nem imaginava te adoram e vão te ajudar. E outras muitas podem aparecer — eu mesma fiz vários novos amigos por causa do câncer.

Tem uma frase do Dalai Lama que diz:

“Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.”

Em português claro e chulo, o que ele quer dizer éFODA-SE! Foda-se o passado e foda-se o futuro! Tudo o que a gente fez errado, ou deixou de fazer não importa mais. E tudo o que a gente ainda não viveu, também não interessa ainda! Durante o tratamento, principalmente, muitas vezes a gente fica questionando o quanto de futuro ainda se vai ter, imagina como vai ser a vida de quem a gente ama sem a nossa presença… mas alguém no mundo sabe até quando vai viver? Alguém assinou contrato? Quantas pessoas saudáveis morrem em acidentes por dia?? E quantas pessoas que recebem prognósticos de poucos meses de vida vivem anos e anos?

Fodam-se as pessoas que nos olham cheias de preconceito na rua! Sim, isso acontece — nos olham com cara de “coitadinha, tão nova e já morrendo!”. No começo eu ficava chateada com isso, ficava quase que envergonhada pela pena que os outros tinham, mas depois entendi que coitadinha delas, que não sabem se colocar no lugar dos outros! Aposto que odiariam receber o mesmo olhar que distribuem por aí. E também, foda-se o nosso medo de ser olhado, a tensão de achar que alguém vai descobrir que esse cabelão todo é peruca, que por trás desse lenço não tem um fiozinho sequer. Nós SEMPRE seremos olhados e julgados, porque é do ser humano olhar e julgar as pessoas: porque é muito magra, ou muito gorda, ou muito bonita, ou muito feia, ou negra demais, oriental demais, ou branca demais…ou seja: FODA-SE! Quanto mais confiante a gente estiver, menos esses olhares vão nos abalar — e até se tornam olhares de admiração! E pra quem insiste em olhar com pena, eu mostro a língua (já aconteceu algumas vezes).

Minha mãe vai ficar chocada com tantos foda-se no mesmo texto, minha vizinha vai pensar “tão bonitinha mas com uma boca tão suja!”, acho até que estourei minha cota de palavrões do mês! Mas quer saber? Foda-se!


Originally published at www.alemdocabelo.com.

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