O câncer no divã — a importância da psicoterapia

27.ago.2015 Por Flavia Maoli

Eu sou da opinião de que terapia não faz mal a ninguém! Todos seríamos muito mais felizes se reservássemos pelo menos uma horinha por semana para contar nossas angústias (e alegrias, por que não?) à alguém que possa nos ajudar de fato. A tia que limpa o prédio não pode nos ajudar a entender porque nossas mães têm um filho preferido, o melhor amigo não tem a resposta para qual o sentido das nossas vidas, o taxista não tem culpa por os nossos planos não estarem indo como esperávamos. Não que o psicólogo tenha uma receita mágica que resolve todos nossos problemas — muitas vezes inclusive temos que encarar realidades que são difíceis de entender — mas só o ato de verbalizar o que pensamos, sem pudores, já nos faz perceber tantas coisas que estavam nebulosas na cabeça! Quem faz terapia sabe do que eu estou falando: para explicar uma história para o psicólogo, temos que organizar o pensamento antes, e esse processo por si só já mostra o que estava nas entrelinhas.

Na falta de terapeuta, até o Drummond teve que ouvir!

Quando a gente descobre que está com câncer, então, a terapia é F U N D A M E N T A L !!! Se encontrar doente é uma viagem muito doida, é uma mistura de achar que vai morrer com querer viver, é enfrentar um inimigo invisível que bizarramente se infiltrou no nosso corpo, é ter que rever as nossas prioridades, planos e sonhos em questão de segundos! É tanta informação ao mesmo tempo para processar que a cabeça chega a doer, e dá vontade de fugir!!!

Existem pessoas que passam por tudo isso sem fazer terapia e estão bem. Eu não quis pagar para ver. Assim que comecei o o tratamento, procurei a psicóloga da clínica oncológica em que fiz meu tratamento. No começo, óbvio, as consultas eram mais para me acalmar da situação, para entender o passo-a-passo da doença: exames, catéter, quimio… Nesse ponto, ter uma psicóloga especialista em oncologia foi fundamental, pois ela podia ir me dizendo o que era “normal” eu sentir, pensar e querer fazer, já que ela já tinha visto essa situação acontecer com dezenas de pacientes. Atualmente, quase cinco anos depois, nem sempre o assunto é quimioterapia — vamos muito além! Na terapia eu descobri tanto sobre mim mesma, sobre minhas relações com as pessoas que eu amo e sobre o sentido da vida, que não me vejo não fazendo terapia nos próximos anos! Não quero ter alta, simplesmente porque é naquela horinha semanal que eu me organizo para viver todas as outras horinhas! E se eu não fizesse terapia, eu certamente não estaria aqui, escrevendo esse blog, fazendo o Projeto Camaleão e ajudando outras pessoas!

Muitas pessoas fantasiam sobre como funciona uma consulta de terapia, acham que o psicólogo vai ficar com uma prancheta anotando tudo o que você fala, para no final dizer“Você tem um problema com o seu pai e o seu pênis, e a solução para isso seria… opa, nosso tempo acabou! Até semana que vem, campeão!” Bem, talvez isso aconteça em algumconsultório, mas comigo nunca foi assim — e olha que eu já tive três terapeutas!!! Tudo depende da linha de terapia que você escolhe, e também do profissional.

Carisma é indispensável — você precisa confiar nele, precisa sentir que ele te entende e te vê não só como um paciente, mas como um ser humano! Na terapia, você vai falar coisas que não teria coragem para falar pra ninguém — às vezes, nem pra si — vai descobrir coisas muito feias, sentimentos mesquinhos e infantis, mas também vai descobrir muita força e felicidade! Coisa feia é mentir para o terapeuta, hein! Deus castiga, e o terapeuta não é bobo! Tem que existir entrega à terapia, confiança no profissional e em seu sigilo, tem que haver empatia. Talvez não seja no primeiro psicólogo que você vá encontrar isso, mas certamente vale a pena procurar um que combine com você!

Queria deixar um parabéns aqui a todos os profissionais que trabalham para deixar esse mundo um pouco menos doido — e a vida mil vezes mais feliz! Em especial à minha psicóloga, Carla Mannino, ao meu sócio no Projeto Camaleão e amigo Leon Golendziner, às minhas amigas Dani Lajus e Gisele Cervo e à minha prima Carla.

Um beijo,

Flavi

*Texto publicado originalmente no blog dia 27 de agosto de 2013.

Originally published at www.alemdocabelo.com.

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