É recomendável ter amor próprio

art: Taj Tenfold

Quando eu era criança acreditava que tudo podia ser consertado com cola. Era só colocar umas gotinhas, pressionar por uns segundos e ali estava, novamente “intacto”, o que quer que tenha sido quebrado. Era como um super poder, que fazia tudo ficar bem e voltar a normalidade.

Essa lembrança me veio quando um amigo questionou porque eu tinha a mania de querer dar conta de todos os problemas do mundo. Se eu pudesse acabaria com a fome mundial, salvaria todos os animais abandonados, e ainda sobraria tempo para ajudar quem quer que seja, com o que quer que seja.

Ser a cola das situações sempre foi o meu forte. Parecia a única maneira que eu via de me fixar, de ser útil. Deixava tudo o que estava sentindo de lado para dar suporte para alguém que precisava mais de mim. Acontece da seguinte maneira: você está tão preocupada em ajudar os outros que, de alguma forma, deixa pra depois ajudar a si mesma. Na sua cabeça é claramente compreensível colocar-se em último lugar, afinal “amar ao próximo é uma forma de se amar também”, então tá tudo bem, seus problemas podem ser resolvidos depois.

Daí chega um momento da sua vida que você não dá conta de consertar mais nada. Está tão sobrecarregada de problemas, seus e o dos outros, e de coisas pra fazer que a ansiedade só aumenta, fazendo você surtar várias vezes por dia sem motivo aparente.

Eu aprendi, de uma maneira muito dura que é recomendável ter amor próprio. Você não precisa dar conta de tudo, entender tudo, consertar tudo, gostar de todo mundo, ser a heroína do dia. Pensar um pouco em si não é egoismo. Tirar uma pausa no dia a dia não é preguiça. Não conseguir lidar com algumas situações não é descuido. É claramente compreensível colocar-se em primeiro lugar. Às vezes, mudar algumas coisas de lugar, dar lugar a novas, respirar fundo e ter uma pausa podem ser formas mais concretas de lidar com tudo.

Amor próprio é questão de honestidade consigo. É saber dizer não, é saber se permitir, é também precisar. A gente não tem a obrigação de consertar tudo porque nem tudo precisa de conserto. A gente não tem a obrigação de ser forte o tempo todo, porque isso não faz as situações serem menos complicadas. Podemos permear do racional para o irracional sem nenhum problema.


Quando eu era criança acreditava que tudo podia ser consertado com cola. Hoje, depois de muita colagem, resolvi deixar essa função de lado e cuidar um pouco mais de mim. O amor próprio fixa a gente bem melhor.