Will e Anna

…Vento no litoral…

Anoitecia. Da beira da praia eu observava o horizonte sem nenhum pensamento importante, totalmente livre. O céu tinha inúmeras cores, maravilhoso mosaico de laranjas, azuis escuros e violetas. A visão desse céu multicolorido, a areia morna entre os meus dedos, a água gelada que ia e vinha, limpando meus pés; havia tempos que eu não me lembrava de um momento de perfeita e simples felicidade. O vento soprava, leve brisa, revoltando meus cachos fios grisalhos, já crescidos, precisando de tesoura

Não muito distante de mim, da casa em eu que estava hospedado, vieram os primeiros acordes de uma canção nostálgica.

…”De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver, se o vento ainda está forte, e vai ser bom subir nas pedras. Sei que faço isso pra esquecer, eu deixo a onda me acertar

E o vento vai levando tudo embora…”

Anna! Meu coração bateu mais devagar. Tive a sensação de que ela tinha colocado aquela música em uma tentativa tortuosa e sádica de chamar minha atenção. Levantei, limpei a areia da bermuda e segui até as pedras, alguns metros a frente. No meu bolso havia um baseado que ajudaria a passar a tristeza e me levaria pra longe daquele ridículo “reino de melancolia”.

Aquela altura, a noite já era completa, de lua alta. Eu conhecia bem a trilha que levava ao alto de um rochedo onde tantas vezes havíamos nos devorado num mundo só nosso, de pele, calor, saliva morna, gozo e amor. Amor, que para ela simplesmente, em algum momento, havia deixado de existir, como se para isso tivesse apenas acionado o botão “off”.

Quando cheguei ao alto da pedra, me arrependi. La estava ela, de costas para mim, o cabelo castanho liso e sedoso, agora na altura do pescoço, os ombros macios e a nuca branca a mostra, onde eu costumava mordiscar e depositar beijos demorados numa outra vida.

Ela levantou, e ficou de frente pra mim, surpresa e ao mesmo tempo feliz. Ou eu queria pensar que estivesse feliz. O short jeans, velho e desfiado, mostrava as pernas compridas, afiladas, a camiseta longa rosa, larga e decotada, deixava ver um relance do seio pequeno e firme, como de uma menina de 14 anos. E estava então com 24.

Ela sorriu, sem jeito. Tive ódio de mim mesmo por aquele sorriso ainda ter o dom de me deixar confuso e encantado.

- Liu — ela me chamou, com voz rouca e baixinha, bem característica, quase um sussurro. Todos, até meu pai, me chamavam de Will. Liu era algo típico dela.
 Ela sorriu, sem jeito. Vi, pelos seus olhos, minha figura, cabelo loiro desgrenhado, com mechas precocemente cinzentas, precisando de corte, sem camisa, chinelo velho de dedo.
 Sentei na beira do rochedo. Tirei o baseado do bolso, acendi, dei uma puxada funda, sentindo a garganta arder e os sentidos aguçarem-se. Ela sentou do meu lado, ombro a ombro, pele a pele. Ofereci, ela deu uma puxada funda e os olhos ficaram brilhantes. 
 — Onde ele está? 
 — O Guga? Não faço idéia. Foi a cidade comprar bebidas e deve ter ficado em algum bar. Deve voltar daqui há muitas horas. Nós discutimos e preferi ficar e subir até aqui.

Perguntei por ele, num momento de puro sadismo. Eu me referia ao namorado atual dela. Que costumava ser meu melhor amigo até aparecer, dizendo que tinha algo muito difícil para contar. Ele havia se envolvido com a menina que era meu amor desde que eu me entendera por gente, que ele sabia ser tudo pra mim, de quem havia me separado há 3 semanas, e por quem estava apaixonado. Pediu que eu abrisse a mente e que nada precisaria mudar entre nós. 
 Aí está o grande mal de se ter um grande coração condescendente. Aquele que compreende tudo, que releva tudo, que tem o dom de tudo entender e aceitar. Assim, sempre fui eu. E sendo assim a mulher que eu amava e meu melhor amigo decidiram que poderiam ficar juntos…e que nada precisaria mudar entre nós.

Isso havia ocorrido há pouco mais de 1 ano. Nos primeiros tempos sumi no mundo, literalmente. De carona, fui até o litoral do paraná, com alguns primos, em seguida passei um tempo em Floripa, vendendo água de coco em quiosques da Praia Brava, tostado de sol, magro, comendo as turistas, as vezes com ternura, como se estivesse com ela, as vezes com tamanho ódio e tesão, que elas chegavam a reclamar da brutalidade. Cansei dessa vida sem rumo, sem futuro ou sentido. Com a grana dos bicos na praia, fiz a barba bem crescida, comprei um muda de roupa e uma passagem de volta a minha cidade natal, no interior de SP, onde minha vida anterior me esperava.
 Passado tudo isso, ali me encontrava eu, sentado naquelas pedras, em uma noite de noite quente, clara, bela, com ela ao meu lado, despertando sensações estranhas, intensificadas pelo barato daquela erva boa, pura e forte que já abrira minha mente
 — Anna, eu gostaria que você não estivesse aqui, mas se você fizer questão, saio eu. Não quero ficar sozinho com você. 
 Ela não respondeu. Deu outra puxada do baseado, inflou as narinas, numa expressão de prazer. Deitou de costas, olhando pra lua, sem responder. Odeio silêncios constrangedores.
 Na casa, não muito distante, aquela maldita música estava em repeat, tão condizente com aquele momento:

“Agora está tão longe, ver a linha do horizonte me distrai Dos nossos planos é que tenho mais saudade. Quando olhávamos juntos. Na mesma direção, onde está você agora Além de aqui dentro de mim…”.

Olhei pra ela, o lábio tremia de leve, única lágrima riscava a face, os olhos brilhantes e bem abertos. Não sei quais sentimentos ela experimentava, ou talvez estivesse curtindo viagem proporcionada por aquela erva bombástica, cultivada em condições muito especiais por um boliviano com quem morei em SC.
 — Essa é das boas, não é? — perguntei, tocando seu ombro.
 Ela não respondeu. Arrastou-me para cima dela, movendo-se para que seu corpo se encaixasse no meu. Como se fosse algo natural, nossas bocas encontraram-se. Foi uma surpresa que eu não tivesse sentido nada além do hálito de menta e do sabor da erva. Nada daquele beijo mexeu especialmente comigo e foi ali que percebi que estava começando a colocar meus pés no caminho da minha cura emocional. 
 Ela sentiu minha frieza, que eu resistia, que eu nada sentia. Esfregou a virilha na minha, tentando provocar alguma sensação, mas se meu corpo respondia, com uma ereção odiosa, minha cabeça estava bem segura do que eu queria. E do que não queria. Ela se livrou da camiseta, os bicos dos seios muito duros, roçando contra minha pele, o desejo começava a me espetar como agulhadas mas eu não permitiria cair naquele abismo de vazio, decepção e culpa que eu sabia que viria se aquele sexo tão selvagem, terno, e doce, de total entrega, como sempre fora conosco, desde nossos 15 anos, acontecesse. Tudo que eu havia consruído até ali, as paredes que blindavam meu coração, seriam, de cristal, não de aço como eu acreditava até então.
 — Não Anna, isso não vai acontecer. Você fez sua escolha e lembro que se sentiu muito a vontade com ela. Nem mesmo você pode ter tudo. Não perdoarei você brincar com meu coração e que dê outro nó na minha mente.
 Ela me ignorou e arranhou minhas costas, gemendo de frustração. Empurrei-a com força, e rolei por cima, ficando em pé e dando a mão para que ela também se levantasse. Éramos praticamente da mesma altura, nos olhamos nos olhos, na beira do rochedo, o vento revolvendo os cabelos, o brilho da lua refletindo nos olhos muito abertos, brilhosos e ligeiramente vermelhos.
 A maldita música era a perfeita trilha sonora para nosso drama de amor, ódio e reencontro:

“Agimos certo sem querer. Foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você. Porque você está comigo. O tempo todo. E quando vejo o mar. Existe algo que diz. Que a vida continua. E se entregar é uma bobagem…”

Frente a frente, contive o impulso de empurrá-la rochedo abaixo, e me jogar em seguida, uma saída mais fácil para um drama bobo e piegas. Não…não valia a pena nem imaginar a cena digna de novela de mau gosto, passional e estúpida.
 “Vou embora Anna. Se soubesse que vocês estariam aqui, eu não teria vindo. É tudo tão velho, antigo, usado, desnecessário. Não pertencemos mais ao mesmo mundo e seguiremos daqui. Não pretendo ver nenhum de vocês. Talvez um dia possamos rir de tudo isso. Mas eu não sou a mesma pessoa que você conheceu. E eu nunca te conheci”.
 Ela me deu um tapa no rosto. Estalado, dolorido, ardido. O lábio tremia, agora sem controle. Pequenos soluços, lágrimas sentidas. Ela abriu a boca para dizer o que eu já havia lido em seus pensamentos. Coloquei o dedo em seus lábios, e com olhar, pedi silêncio.
 — Não fale nada. Não use essas palavras em vão. Você vai ficar aqui? Fique. A noite está linda. Eu vou embora. Não me impeça nem peça nada.
 Peguei o que ainda restava do baseado, entreguei a ela, sorrindo, com amargura e ternura:
 — Termine. Seria um desperdício não aproveitar uma erva boa assim.
 Ela deu de ombros e virou as costas para mim. Desci o rochedo sem olhar pra trás, um caminho de pegadas na areia se formando atrás de mim. Preferi acompanhar a linha da água, novamente molhado meus pés. Ri, com vontade. Meu chinelo velho havia ficado. A única coisa que Anna teria de mim seria aquela sandália vagabunda de borracha gasta.
 Ainda olhei pra cima e o vulto dela, alta, magra, porte de princesa, olhando pra baixo, a figura cada vez mais longe, até desaparecer em uma sombra. 
 Entrei na casa luxuosa, que pertencia ao pai do meu desafeto, antigo melhor amigo e atual da bela, complicada e confusa Anna. Peguei minha mochila, calcei meus tênis gastos e parti para a estrada, andando despreocupadamente. Mais cedo ou mais tarde viria uma carona.
 No meio do caminho, o carro dele passou, e buzinou, apontando a direção da casa. Ignorei e segui em frente. Estava bastante escuro, mas eu poderia caminhar por aquela estradinha de olhos fechados. Anna, eu e Guiherme, a outra ponta do nosso triangulo amoroso, havíamos crescido juntos e passávamos as férias naquela região. Eu, filho do caseiro, eles, filhos de famílias tradicionais e cheias da nota de Rio Preto.

Alguns quilômetros depois, um caminhão parou ao meu lado. Fiquei surpreso e feliz em perceber que era um dos mas antigos e queridos amigos do meu pai que passara a vida na estrada, caminhoneiro, homem simples e sábio, cujas rugas e pele curtida de sol não escondiam inteligência, bondade e nobreza. Sentei ao seu lado, aceitando aquele abraço apertado e honesto, com cheiro de fumo e graxa, que lembrava meu velho, falecido há alguns anos.
 Pendurado no retrovisor, percebi, deliciado, que havia um chaveiro com pequenos cavalos marinhos que sacudiam com o balanço do velho caminhão. Ele percebeu meu ar de diversão e disse:
 — Foram presente da minha neta. Ela adora cavalos marinhos. Me lembro de você, ainda menino, ranhento, pequeno, miudo, cavocando a areia e perguntado se eles existiam, se cavalos marinhos eram reais… 
 — Ri, ainda extasiado, e cantarolei: “Eieieieiei! Olha só o que eu achei Humrun Cavalos-marinhos…”

O velho senhor não entendeu, mas riu também, perguntado:
- Para onde você está indo Willian?
 Olhei pra ele, e respondi de pronto: — Diga você meu velho, diga você, para onde você vai?…
 E ali eu tive certeza que ficaria bem…