Arte: Luiz Pellegrini

ARROZ E FEIJÃO

A cabeça pesava e o pescoço não conseguia suportar. Quem olhava de longe achava que ele caçava moedas pelo chão, mas para ele, que nunca olhara de tão de perto, esse era o sopro de vida que ainda restara.

Uma pasta surrada nas mãos, de couro marrom bem porcaria, gritava que a profissão de corretor era a última coisa que ainda o fazia sair de casa para — obrigatoriamente — encontrar pessoas.

Chegava perto da ponte. Ia andando cada vez mais devagar, com a cabeça ainda mais para baixo e a pasta quase caindo das mãos. Olhava para a ponte e só pensava em todos os dias que passou por ela: as mesmas pessoas, o mesmo céu, os mesmos pássaros e as mesmas ambições. Parece que a vida passou e nem percebeu.

Ia diminuindo os passos e pensando em como seria o bilhete.

“Amor, obrigado pelo mesmo arroz, o mesmo feijão, a carne com Sazon, o Tang de laranja e as roupas passadas. Sem você…”

Não, não daria para se despedir falando só sobre suas funções domésticas. Eles também tiveram dois filhos lindos que, de tão lindos, não aguentaram o peso de ficar próximos a pais tão inexpressivos.

“Amor, você me deu dois filhos lindos, criou eles com muita educação, cuidou dos seus deveres de casa enquanto eu trabalhava…”

Se houve filho, houve sexo. Não poderia anular o amor que um dia tiveram em detrimento da vida vazia que um dia aceitou levar.

“Amor, lembro de quando eu chegava em casa, cansado do trabalho, sem conseguir conversar com você. Lembro das pernas que abriu, das mãos segurando firmes o travesseiro…”

A pasta pesava em sua mão direita. Com a esquerda segurava em um dos ferros da ponte enferrujada para olhar o trânsito lá em baixo. “Será que alguém iria em meu enterro? Será que meu filhos chorariam por mim?”.

Respirou fundo, olhou pela última vez e soltou a pasta no chão.

“Senhor, essa pasta é sua?”

Recolheu a pasta, agradeceu ao jovem rapaz e continuou em seu caminho para casa. Não via a hora de comer aquele arroz com feijão que só a sua mulher sabia preparar.

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