Mentos

Ilustração: Luiz Pellegrini

Contou as janelas de baixo para cima até chegar no quarto andar. Viu a luz da sala acesa e sabia que ela estava lá. A chuva caia fina no para-brisa, ela mastigava o décimo Mentos enquanto muitas lembranças se passavam em sua cabeça.

Olhou pelo retrovisor e viu que não vinha carro. Eram oito horas da noite de uma quarta-feira, ela deveria estar no curso de inglês mas não teria cabeça para aquela professora monotom, muito menos para a lista de phrasal verbs que ela insistia em passar.

Ameaçou abrir a porta para descer. O celular vibrou, era seu amigo de curso no Whatsapp perguntando se ela já estava chegando. Respirou fundo e ligou o carro.

Contou novamente as janelas de baixo para cima, repetiu umas três vezes para ter certeza de que estava vendo o apartamento certo. A luz da sala continuava acesa. Se deu conta de que chegou ao último Mentos, agora era só papel rasgado que escancarava sua tensão.

Deu seta e colocou no Waze o endereço do curso de inglês. Contou de baixo para cima e agora a luz da sala do quarto andar estava apagada. Sentiu alívio, aquele não era mesmo o melhor momento.

Jogou o papel de Mentos no saquinho de lixo que ficava preso em seu câmbio, mandou uma mensagem para o amigo dizendo que já estava chegando, acionou o limpador de para-brisa para tirar as gotas do vidro e seguiu pensando nas últimas frases que tinha conseguido construir usando os phrasal verbs aprendidos na última aula.

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