As dores de caminhar o caminho.

Ser coerente é difícil e talvez até impossível — nem por isso a gente deveria simplesmente desistir de tentar.

Estou fazendo uma formação em Yogaterapia com um professor inspirador, o Vitor. De cara eu gostei dele porque ele tem uma qualidade: coerência. Na última aula ele descreveu um um “sistema” que pode nos trazer mais consciência e nos ajudar a ser mais assertivos em nossas ações. Enquanto ele falava eu desenhei um esqueminha no meu caderno, que você encontra aí embaixo. Só pra constar, esse não foi o conteúdo da aula, foi uma divagação minha — em outras palavras: o Vitor não é responsável pelas abobrinhas que você pode ler a seguir.

Imagem meramente ilustrativa. Em alguns casos a Zona de Conforto nem cabe na tela do computador.

A Zona de Preocupação, verdinha aí em cima, é uma zona que cresce sem limites. A gente pode colocar aí dentro desde “preciso lembrar de pagar a fatura do cartão” até “será que o mundo vai viver outra guerra mundial?”. Todas as preocupações ficam ali nessa região, mas nem todas fazem parte da Zona de Influência.

A Zona de Influência, rosinha, é o “espaço” sobre o qual temos influência. Por exemplo, a Gabriela Pugliesi tem uma zona de influência bem grande no mundo fitness. Isso quer dizer que ela tem um potencial de influenciar muitas pessoas com seu comportamento e, caso ela queira, com um conteúdo que ela publica, digamos, no Instagram (lá ela tem mais de 3 milhões de seguidores). Se ela escolher fazer isso, está usando sua Zona de Influência para entrar na Zona de Ação.

A Zona de Ação, menor que a de influência, é a zona que ilustra efetivamente o nosso movimento. No caso da Pugliesi, quando ela escolhe publicar um conteúdo sobre saúde do corpo físico, por exemplo, ela está agindo e usando sua influência em função de uma preocupação com esse tema. Não quer dizer que as 3 milhões de pessoas vão passar a comer saudável ou praticar exercícios físicos, mas se essa é uma preocupação que ela tem, a ação de publicar algo sobre isso é coerente. Vai gente, não estou falando da Gabriela Pugliesi ou sobre o conteúdo do que ela posta, é só um exemplo.

A Zona de Conforto, a bolinha isolada e cinza ali no cantinho, é o tema desse texto. Já ouvi falar muito sobre isso, mas depois que pensei nesse esqueminha aí eu entendi esse lugar de outra forma. A Zona de Conforto é esse espaço que está alheio às preocupações, aliás, que repele as preocupações ativamente. Esse espaço, portanto, nem sempre é um espaço de inação. Muitas vezes a Zona de Conforto se mantém e até cresce à medida em que nós ativamente evitamos que algum tema entre na nossa Zona de Preocupação. Por que fazemos isso?

Só ligo pro meu arco-íris imaginário.

Minha hipótese é que quando algo entra na nossa Zona de Preocupação somos impelidos a fazer algo a respeito. Isso eu não vou saber explicar e nem sei se alguém consegue, mas arrisco que uma das causas seja porque nós tendemos a buscar coerência, tanto nos outros quanto em nós mesmos.

No esqueminha a gente percebe que a área verde é maior do que as outras, isso porque nós nem sempre agimos em função de TODAS as nossas preocupações. É o caso, por exemplo, de se preocupar com os norte-coreanos que vivem sob um regime autoritário — sei lá, não consigo imaginar o que fazer a respeito disso. Quando, porém, nós temos uma preocupação e, no campo da ação, somos incoerentes com essa preocupação, os problemas aparecem. Alguns exemplos de incoerências entre preocupação e ação:

A) Preocupação: faltar dinheiro para pagar a mensalidade da escola do filho. Ação: gastar todo o salário em bolsas e sapatos de luxo.

B) Preocupação: parar de comer frituras por recomendação médica. Ação: sair do consultório do médico e comer 2 pastéis de feira.

Quando somos incoerentes, mesmo que as pessoas não percebam (porque nem sempre nossas preocupações são expressas), nós percebemos — e isso incomoda muito. Nos sentimos fracos, sem poder sobre nós mesmos, sem força de vontade. Dói mesmo. Por isso, muitas vezes escolhemos nos manter na Zona de Conforto. No caso A, a Zona de Conforto pode ser ignorar os boletos de cobrança do colégio do filho e, no caso B, pode ser não fazer os exames que o médico solicitou. Percebem? Ignorar os boletos ou não fazer os exames é uma ação, uma medida de autoengano para nos proteger da dor de assumirmos a nossa incoerência.

Mas quando tentamos enganar a nós mesmos, quem engana e quem é enganado?

Viver uma vida coerente é um caminho difícil e até doloroso — e nem parece que eu estou “vendendo” essa ideia falando assim. Nós ficamos muito mais exigentes conosco, buscamos alinhar nossas ações as nossas preocupações e, quando não conseguimos, ficamos frustrados, o que é bastante natural. Não sei se é possível ser 100% coerente. Mesmo sabendo disso, não faz sentido negar esse caminho simplesmente porque é difícil.

Se, por um lado, a gente precisa ter autocompaixão, entender que tudo é um processo e dizer um “tá tudo bem” para nós mesmos de vez em quando, por outro precisamos nos lembrar constantemente dessa bolinha cinza e entender se o “tá tudo bem” que estamos repetindo não é apenas uma desculpa para continuar aí no cinzinha se fazendo de louco, como se nada estivesse acontecendo.

Pelo menos o café não esfria.

CORTA PRA CENA

Seu médico está preocupado com a sua saúde e indicou que você pratique exercícios físicos. Você fica preocupado porque é sedentário e quer ser saudável. Eu, muito sua amiga, te convido para, daqui um ano, correr uma prova de 21km comigo. Você tem duas opções: topa ou não topa. Pode dizer “putz, 21km é muita coisa, deixa quieto” ou pode calçar os tênis e começar a treinar.

A) Digamos que você tenha topado. Depois de um ano, no entanto, ainda não consegue correr os 21km. Aqui, você pode pensar “mas estou correndo 10km, isso já é incrível, parabéns pra mim” ou pode pensar “legal que estou correndo 10km, parabéns pra mim, mas eu sei que consigo fazer mais do que isso”.

B) Digamos que você não tenha topado. Não praticou exercícios ao longo do ano e, na hora de fazer seus exames de rotina, você se sente um lixo porque sabia que deveria ter feito algo à respeito e não fez ou simplesmente inventa uma desculpa para não fazer os exames.

Essa cena se passa diversas vezes nas nossas vidas, um pouquinho de abstração já te mostra como isso é verdade. “Melhor não saber de onde vem esse bacon delicioso”, “melhor não saber quem costurou essa roupa linda da Zara”, “melhor não saber os podres da empresa onde eu trabalho”, “melhor não saber para onde vai o lixo que eu produzo”, “melhor não saber os ingredientes porque é muito gostoso”, “melhor não ir ao médico para não tomar bronca”, etc. Melhor pra quem, cara pálida? Em todos os casos você já sabe o que está tentando fazer de conta que não sabe. Sim, porque você é mais esperto do que pensa.

Como faz então? No começo do texto eu citei o Vitor, meu professor, como um exemplo de pessoa coerente. Pois bem, na hora de assumir algo para dentro da sua Zona de Preocupação e, depois, para a sua Zona de Ação, uma coisa que pode te ajudar é encontrar essas pessoas que já fizeram um caminho parecido com o que você quer fazer, pessoas que realmente praticam o walk the talk. Quer correr 10km? Parar de fumar? Parar de comer fritura? Virar vegetariano? Virar vegano? Consumir menos? Plantar sua comida? Reciclar seu lixo? Contribuir em uma ONG? Mudar de emprego? Empreender? Para mim, a melhor forma de fazer isso é encontrar alguém inspirador, sentar com essa pessoa e falar “me ajuda pelamor da deusa”. Se o que você pedir estiver dentro da Zona de Preocupação dela, duvido muito que ela diga não, afinal, ela também quer ser coerente.

Porque eu acredito tanto no nosso potencial de mudarmos para melhor, na nossa força para sair da bolinha cinza do conforto e porque eu acredito que a melhor forma de fazer isso é junto que eu estou produzindo o Eremitte, uma vivência que conecta pessoas buscadoras. Quem já caminhou o caminho ajuda o outro de duas formas: 1) Inspira a sair do autoengano e a colocar algo realmente importante para dentro da Zona de Preocupação e 2) Conta como fez e ajuda a ir pra Zona de Ação.

Em tempo: Não, eu não sou a rainha da coerência. Sinto por não ser tão coerente como eu gostaria, sei que estou em um processo mas isso não me acomoda: a cada vez que eu mudo a cerquinha dos meus limites de lugar eu fico feliz e com a certeza que eu posso ir um pouquinho mais longe.


Oi, eu sou a Flá! Como você, apenas uma poeirinha de estrela. Me fascino com o quanto somos pequenos e o quanto podemos ser, não obstante nossa desimportância, realmente grandiosos. Busco, experimento e compartilho caminhos de cura — tudo o que nos ajude a nos reconectarmos com a nossa natureza e viver uma vida plena. Estamos aqui para isso, certo?

> flavia.tiemi@gmail.com