sua fofoca diz muito sobre você

Quem já ouviu a frase “não estou julgando, apenas comentando”? Aparentemente inofensivo, o hábito de “comentar” sobre a vida alheia consome muito tempo e energia do nosso dia a dia. Em alguns casos, até mesmo deixamos de tomar atitudes que queremos por medo da tal fofoca. Será que devemos nos preocupar tanto com o que os outros falam de nós?
Esse hábito não é um fenômeno moderno. Na Bíblia, temos a citação “Ora, todos os atenienses, como também os estrangeiros que ali residiam, de nenhuma outra coisa se ocupavam senão de contar ou de ouvir a última novidade” (Atos 17:21). Mesmo antes disso, a fofoca já era observada pelo filósofo Sócrates, que defendia que nós não deveríamos compartilhar informações das quais não tivéssemos certeza da veracidade, da utilidade para o ouvinte ou que não fossem bondosas.
Mais de dois mil anos depois, o processo de concentração urbana das populações e a revolução das formas de comunicação agravou ainda mais esse processo. Esse modelo gera, inevitavelmente, comparações e competição no trabalho, na vida amorosa e até nos grupos sociais. Logo, devemos nos perguntamos se falar da vida alheia é irresistível neste contexto.
Alguns autores das ciências humanas entendem que desejar e julgar são dois pilares fundamentais do ser humano, o que gera naturalmente estados de inveja. Esse desejo frustrado poderia gerar rancor com quem venceu no nosso lugar.
Como isso ocorre? Para os psicanalistas, as partes da nossa psique que não aceitamos são projetadas inconscientemente em terceiros. Nesse mecanismo de defesa chamado projeção, aquilo que nos incomoda em outras pessoas reflete o que é inaceitável, vergonhoso ou perigoso em nossa própria mente. Por isso, aquela famosa frase de que “quando Pedro fala sobre Paulo, aprendo mais sobre Pedro do que sobre Paulo”.

Até pouco tempo atrás, ao saber que alguém falou mal de você, o sentimento seria de traição, decepção e surpresa. Mas creio que hoje em dia, é raro encontrar alguém de seu círculo que nunca falou de você (provavelmente porque você não ficou sabendo). Como lidar com esse status quo, no qual podemos ser a qualquer momento dissecados, criticados e zombados por pessoas que amamos pelas costas?
O grande espiritualista Osho traduz conhecimentos da filosofia hindu antiga que podem ser úteis para essa questão.
O ódio não é natural. O amor é um estado saudável; o ódio é um estado doentio. Assim como a doença não é natural. O ódio acontece só quando você se desvia da natureza, quando já não está em harmonia com a existência, já não está em harmonia com seu próprio ser, com sua essência mais profunda. Então você está doente — psicológica e espiritualmente. O ódio é só um símbolo da doença, e o amor, da saúde, da plenitude e da santidade.
Para Osho, amor e ódio são dois sentidos diferentes de uma mesma energia, como pólos opostos. Nós só nos incomodamos com algo ou alguém que é importante para nós. Nós só ficamos incomodados com aquilo que conversa com nossas contradições internas. Então, o julgamento projetado não passa de uma forma de admiração às avessas.
Quando falamos mal de alguém, é como se jogássemos poeira no ventilador. Toda a sujeira volta para nossos rostos. Para projetar o julgamento, o ódio e o sarcasmos em terceiros, o requisito é estar doente internamente.
Ao se sentir machucado por esse tipo de fofoca, talvez possamos tentar sentir compaixão por alguém que se importa conosco e não está recebendo a resposta que deseja de nós. Mais do que o conteúdo da fofoca, o ato de fofocar é, antes de tudo, um pedido por atenção.
