SER HUMANO: O NOVO LUXO

É mais ou menos clássica a definição de luxo como escassez. Luxo é o que falta. Pelo menos falta à maioria.

O suprassumo do luxo para os Incas por exemplo, era um concha vermelho-alaranjada chamada Mullu, ou Spondylus princeps, nome científico. O Mullu é conhecido como o “Ouro dos Incas”. Os incas transportavam o Mullu do equador (bem no norte), por uma intricada rede de rotas marítimas e terrestres, cruzavam os Andes no lombo das Llamas até chegar no extremo sul, onde ficava a capital de seu império. Difícil, custoso, escasso: luxo!

Um eufemismo recorrente atribuído às marcas de luxo é “exclusivo”. Exclusivo é o que exclui, exclui o que, ou quem? A grande maioria daqueles que não podem pagar por aquele bem ou serviço.

Até bem pouco tempo luxo era igual apenas a bens feitos com altíssima qualidade, quase artesanais: segredos passados de geração em geração, bebidas ou comidas feitas com ingredientes raros, ou igualmente por raras e talentosas mãos.

De um modo geral o universo do luxo caminhou mais ou menos por aí: carros, jóias, hotéis, móveis, experiências gastronômicas, grifes.Creio que estamos assistindo a uma redefinição de luxo, bem mais cotidiana e banal.

Com o desenvolvimento da inteligência artificial — ainda bastante rudimentar, perto das potencialidades anunciadas pelos futuristas — conseguir falar com outro ser humano, presencialmente ou não, está em vias de se tornar um dos maiores sinais de luxo contemporâneo.

Ligar e ser atendido imediatamente por uma voz humana real, mandar uma mensagem e ser respondido por um ser humano que realmente dedilhou num teclado, está a caminho de se tornar uma experiência reservada para poucos clientes afortunados.

O paradoxo: ser humano será um atributo de exclusividade!

Aos demais (ex)cluídos sobrarão robôs com vozes cada vez menos “durinhas” e respostas automáticas “quase” parecendo autenticamente dirigidas só a você. Se você não for um cliente exclusivo vai falar com máquinas. Vai funcionar? Muito provavelmente. Vai ser mais barato? Talvez. Vai ser chato? As experiências atuais são chatíssimas.

Qual o impacto disso na subjetividade humana? Difícil prever. Talvez cheguemos à conclusão de que o jeito maquinal seja realmente mais eficiente e adotemos um jeito mais robotizado de nos comunicar. Talvez não. Ninguém sabe.

Uma cena que imagino: numa roda de amigos num clube estiloso. O amigo mais exibicionista, meio “sem querer” deixe escapar: “Vocês conhecem o serviço deluxe da XPTO Telefonia? Como não??!!! É incrível gente! Tem um plano de dados e ligações livres e você pode ser atendido por um ser humano de verdade até cinco vezes por ano. Eu já testei, é muito divertido, você faz perguntas e ele responde sem delay, entende ironia, compreende humor… é realmente uma experiência muito diferente! Se vocês quiserem eu ainda posso indicar cinco amigos!

Na minha opinião, mais exclusivo que SER HUMANO no mundo contemporâneo das marcas, só mesmo ter alguns minutinhos de silêncio. Mas isso dá margem a outro papo.