O impeachment nunca foi sobre o crime de responsabilidade

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Acompanho o processo de impeachment da presidente Dilma desde seu início. Não como estudioso de direito ou analista político - não sou nem um nem outro - apenas como eleitor, cidadão interessado em política e preocupado com o futuro.

Nestes últimos dias assisti às falas de quantos senadores me foi possível, bem como às respostas da presidente e aos argumentos do ataque e defesa. É perceptível: para dar voto a favor, muito se baseiam em indicadores econômicos e pouco no crime em questão. Quando este é abordado, é comumente de forma breve e vaga, tratando como óbvio, trivial e pacificado aquilo que não é, e logo descambam a falar de economia. Revivem as eleições de 2014: buscam convencer com dados econômicos como se disso se tratasse. Em outros momentos, invocam o povo; põem-se a dizer que o povo clamou pelo impeachment, que o processo é do povo, e falam e falam sem pudor em nome do povo, sentindo-se os suprassumos representantes da vontade democrática. Nada mais odioso.

Tamanha arrogância e irresponsabilidade, pois há mais do que um término de mandato em jogo. Está em jogo a própria soberania popular. O povo não elegeu o programa de governo proposto agora por Temer, muito menos seus atuais aliados; muitos, inclusive, integrantes de partidos derrotados nas eleições de 2014, ou seja, já anteriormente rejeitados nas urnas. Mas a eles isto pouco importa, tal como pouco importam os crimes atribuídos à presidente Dilma. Diante dos fatos, só resta aderir à tese de Eduardo Cardozo de que os supostos crimes não passam de “pretextos jurídicos”, como bem pontuou em sua defesa. Avistaram uma oportunidade e dela fizeram uso. Simples assim.

Isto jamais admitirão. Dirão até o fim não terem dúvidas dos crimes cometidos, sem sequer admitirem a possibilidade da dupla interpretação, visto que permitiria invocar o preceito do in dubio pro reu. Assim fazem, dizem, em nome do bem. Janaína Paschoal cita até mesmo o bem dos netos da presidente, vejam só! Mas se em nome do bem foram e são cometidas algumas das maiores atrocidades da humanidade, se em nome do bem tivemos 21 anos de um dos períodos mais sombrios da nossa história, e em nome do bem prendeu-se, matou-se e torturou-se, devíamos, no mínimo, desconfiar de discursos “em nome do bem”.

O Brasil pós-impeachment ninguém sabe como será. Paira apenas a sensação de que a democracia falhou.

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