o cara legal que vira um monstro ao ouvir um “não”

Dudu Camargo e Maísa Silva — SBT Brasil

Mês passado, estava em uma festa conversando em uma roda de conhecidos. Começamos a fazer aquela brincadeira de passar fumaça um para o outro, na sequência da roda. Na minha vez de passar, aproximei da mulher que estava ao meu lado e ela, gentilmente, afastou-me com a mão e disse: “desculpe, mas não confio em homens”.

Em geral, quando uma mulher se posiciona dessa forma, a reação inicial dos homens é bastante defensiva. “Mas eu sou diferente”, ou “nem todos os homens são assim”, ou mesmo “você é uma feminista radical”. Essa reação masculina é perigosa porque deixa implícito que as situações de violência de gênero são ações pontuais de alguns homens fora da média. Na ânsia de se defender ou justificar, nós homens colocamos uma distância entre a problemática e nós.

Porém, é muito claro que não existe um problema pontual e sim algo sistêmico acontecendo há anos. De acordo com o Mapa da Violência, entre 1980 e 2015 foram mais de cem mil vítimas de feminicídio no Brasil. Somente no ano de 2013, por exemplo, tivemos a média de 13 feminicídios por dia. Ainda mais impressionante é o dado que mais de 50% desses crimes foram cometidos por familiares, com destaque especial para cônjuges.

A forma como a mídia e as autoridades de segurança abordam tais crimes é emblemática: “homem mata sua mulher por ciúmes”, “mulher é assassinada por ouvir música de traição” ou “homem comete loucura passional”. Além de reproduzir a justificativa que responsabiliza a vítima, essa abordagem também deixa implícito que trata-se de problema psicológico pontual (“paixão demais”), e não uma epidemia de violência. Nós homens somos totalmente desresponsabilizados por esse comportamento violento.

Por outro lado, há diversos reforços culturais que atuam de forma prejudicial na dinâmica heteronormativa de relacionamentos. O fluxo de informações sobre o que se espera de um relacionamento afetivo e os papeis que homens e mulheres devem desempenhar é muito intenso, influenciando desde os produtos infantis até a pornografia.

Quantos filmes vocês conhecem que segue o roteiro: homem e mulher se conhecem, primeiramente se estranham, homem é distante emocionalmente / faz alguma merda, realiza algum gesto romântico e se casam? É fácil perceber que esse roteiro imprime percepções equivocadas sobre um relacionamento e a própria vontade dos envolvidos. E reproduz a ideia de que o “cara diferente dos outros” pode fazer qualquer merda que será esquecida depois com uma homenagem romântica ou um beijo no aeroporto.

Comédias românticas de Hollywood

É bem provável que toda mulher conheça alguma história sobre o “cara legal” que ao ouvir um não, reagiu com violência. Desde distanciamento emocional, xingamentos, vinganças emocionais ou até os casos mais extremos que vemos nos jornais todos os dias de assassinato “porque não aceitava o fim do relacionamento”. Acredite, esses caras também se diziam “diferentes dos outros” e que “nem todos os homens são assim”.

Por isso tudo, nós homens devemos parar com tais reações defensivas. Ao ouvir um “desculpe, não confio em homens”, o mínimo que podemos fazer é responder “eu entendo perfeitamente seus motivos para isso”. E fazer a nossa parte para pararmos de reproduzir comportamentos que perpetuam essa dinâmica desigual em relacionamentos.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Flavim’s story.