Parabéns.

Sempre gostei de saber o motivo das coisas. Meus pais sofreram na fase do “porquê”. Meus amigos sofrem até hoje. Sem medo de ser chamado de pedante ou fofoqueiro, eu me classifico como um curioso do meu próprio dia a dia. Me sinto bem em ter um certo conhecimento sobre o que acontece ao me redor e não me limito a um único assunto, talvez seja por isso que eu nunca consegui ser especialista em nada. Não curto me aprofundar, não escolho lados, saber já basta. Se assisto um filme não torço, meu interesse é o motivo da treta, não me importo se ela vai ser resolvida e se o motivo for banal eu paro por ali.

Essa breve introdução é só um guia psicológico, talvez eu tenha esperança de que vocês entendam o resto do texto só por ter lido. E agora que vocês já sabem que eu sou uma versão introspectiva e pobre do Nelson Rubens, podem começar.

Há algum tempo me deparei com a maior dúvida da minha vida. Estava completando 19 anos, poderia estar curtindo meu churras mas pirei em saber o motivo de receber tantos “parabéns”. Eu sei que é muita viagem, mas eu encrenquei com isso de uma tal forma que passei a tarde pensando. No final do dia fui pro Google e digitei a pesquisa mais ridícula da minha vida: Por que damos parabéns para as pessoas que fazem aniversário? Pra minha surpresa outras pessoas também tinham essa dúvida e para o meu desgosto ninguém sabia responder. Mas em parte foi esclarecedor, descobri que é só aqui no Brasil que existe essa fuleiragem. Em todo o resto do mundo as pessoas desejam “Feliz Aniversário”. “Parabéns” fica pra quando se conquista algo importante, um prêmio ou algo do tipo, nada mais lógico. Continuei sem saber e já que no Yahoo Resposta não tinha ninguém que me tirasse desse limbo filosófico, eu decidi descobrir por contra própria.

Quando comecei a formular a minha Teoria do Parabéns, logo no primeiro dia eu percebi que todas as vezes em que repeti essa maldita palavra foi de forma mecânica. Perguntei para algumas pessoas e elas disseram o mesmo, notei que algumas faziam cara de dúvida, como se estivessem refletindo sobre, mas logo voltavam a sua realidade e diziam: “Ah, isso é tradição né? É tipo, um Feliz Aniversário”. E eu ficava puto, porque “Feliz aniversário” é totalmente diferente de “Parabéns”. Um a gente usa pra dizer que lembrou do dia em que a pessoa nasceu, o outro é tipo um espasmo vocal. Até então, pra mim, o #ParabensReal necessitava de um motivo maior do que um giro de 365 dias do planeta ao redor do sol pra acontecer. Até porque quem gira é o planeta, ele é quem pega no pesado pro ano passar, a gente só olha os fogos. Não existia lógica naquilo, se a pessoa tivesse pelo menos sobrevivido a uma doença ou lutado contra um hamster assassino no caminho da festa surpresa eu ficaria calado. Mas dar parabéns pelo cara ter ficado mais velho fazia eu me sentir o Pedro Bial chamando a galera do BBB de guerreiro.

Continuei a minha análise social por mais de um ano. Parei de dar parabéns pras pessoas, não conseguia mais. E fui vivendo com essa questão dentro de mim. Me corroendo todo aniversário de parente, amigo, cachorro e adjacências. Essa onda errada bateu tão forte que no outro ano, dia do meu aniversário de 20, eu me olhei no espelho e disse com todas a letras: “Você quase merece um parabéns, por ter aguentado passar um ano com essa dúvida bosta.”

Só em 2014, dois anos depois do dia D, que eu comecei a solucionar esse mistério da humanidade. Era ano de eleição, o país estava beira de uma guerra (de balão d’água). Esse foi o ano que o povo esqueceu de vez os bons costumes, deixou de dar parabéns pro amiguinho que pensava diferente, deixou de falar com o pai reaça, bloqueou o primo petralha e por aí foi. Então eu notei que o rolé do “parabéns” era uma forma de fazer com que aniversariante se achasse importante por ter feito algo que ele não fez, tipo um Dia de Princesa pro ego. Como tava todo mundo se odiando esse tipo de agrado não fazia mais sentido. Não sabia mais se a redução desse ato pseudo-cordial era boa ou ruim. Fiquei totalmente perdido, acabava de entrar numa questão dentro de outra que não estava totalmente solucionada. Era quase um Inception de baixo orçamento. E eu já estava tempo demais nessa viagem. Já estava de saco cheio. Mas como dizia o grande pensador Alexandre Magno a.k.a Chorão, “Tudo é como deve ser pufktipukitibraw”.

Um belo dia lá estava eu acompanhando a vida das pessoa pelo face, quando me deparo com uma treta faraônica. Já tinha um monte de gente envolvida e o dono da postagem na maior paciência do mundo tentava apaziguar dois grupos de amigos que se digladiavam nos comentários. Vendo que não tinha mais jeito, esse ser de luz foi lá e comentou que iria apagar a postagem porque não queria ver a galera brigando por merda. Dois dias depois foi aniversário desse cara. Fui lá dar as felicitações, e lembrando da treta e da forma em que ele a conduziu escrevi o meu primeiro “parabéns” verdadeiro da vida. A partir daí as definições de “parabéns” foram atualizadas na minha vida.

Hoje é uma palavra sagrada só faço uso dela para aqueles que conseguem se manter na legalidade sem usar de paralelepípedo na cabeça do amiguinho que compartilha notícia fake, para aqueles que por um milagre divino nunca deram voadora em facista ou esmagaram crânio do colega com avatar do Bolsonaro. Guardo meus parabéns para esses anjos, para essa pessoas que seguem sua vida na retidão sem se incomodar. E um dia espero ser merecedor desse meu próprio “parabéns”, pois hoje só o que eu faço é rezar fervorosamente pra um meteoro cair na Terra.

Parabéns a você 
Que até o final chegou
você também é um vencedor. 
Odor, dor, castor. 
Tambor? 
Tombei 
Sauna
Gay
Pedro 
Bializei
Vem ser feliz aqui fora.