Dragonlance Chronicles: uma resenha nostálgica

A trilogia Dragonlance Chronicles — Dragons of Autumn Twilight”, “Dragons of Winter Night” e “Dragons of Spring Dawning”, de Margaret Weis e Tracy Hickman — foi publicada pela TSR em 1984/85 em concomitância com as aventuras de RPG para Advanced Dungeons & Dragons (um precursor do atual D&D). As “crônicas” deram origem a uma saga literária das mais extensas — são hoje mais de 200 romances publicados, por dezenas de autores.

Reler os romances iniciais da saga Dragonlance depois de quase vinte anos foi uma grata surpresa, em muitos sentidos. A jornada dos Heroes of the Lance representou para mim uma fase da vida muito divertida, regada a RPG, quadrinhos, desenhos e filmes o tempo todo. Esse tempo, claro, não volta mais — mas pude revisitá-lo agora, e foi ótimo.

Na época, eu já havia lido “O Senhor dos Anéis” e estava bem nutrido de toda a mitologia tolkeniana (Silmarillion, fantástico), mas Dragonlance me pegou de jeito. As semelhanças entre a narrativa principal dos dois universos é muito grande — mas, de forma geral, os personagens de Dragonlance são um pouco mais complexos e multifacetados (falo um pouco mais sobre isso adiante). E, claro, há os dragões.

Dragonlance: fantasia clássica

Quando li pela primeira vez, no final dos anos 1990, meu inglês era bem limitado, e a releitura agora me permitiu um novo vislumbre da narrativa — inclusive no aspecto mais “crítico” do processo. De certa forma, a fantasia de Weis e Hickman é fruto de seu tempo e por lá ficou. Dragonlance é fantasia espada-e-magia clássica em todas as suas letras, páginas, capa e lombada, mal versus bem em contraste claro e nítido. O leitor que prefere uma narrativa de moral acinzentada e pouco maniqueísta não vai encontrar muito lugar em Krynn.

Todos os elementos da fantasia medieval clássica estão presentes em Dragonlance: humanos, elfos, meio-elfos, anões, magos e cavaleiros honrados, magia, e claro, dragões. Deuses e magia tradicional também fazem parte da mitologia, assim como outras situações e lugares-comum do gênero, o que torna o romance pouco inovador quando deixa de apresentar novos temas e simbologias fantásticas e constrói sua base em mitologias literárias já existentes, como a Terra Média de Tolkien e a Era Hiboriana de Robert E. Howard.

Heróis de carne, osso e magia

Em outros campos, porém, as crônicas de Dragonlance trouxe inovações que a diferenciaram do padrão de narrativas heróicas para a época — e em alguns casos, mesmo para os dias atuais. Uma das principais é a ausência de aspectos de “predestinação” nos personagens: nenhum dos protagonistas de Dragonlance Chronicles se considera um herói ou portador de um destino glorioso. O pessoal por lá faz o que pode, do jeito que dá — e acaba fazendo muito bem.

Ainda nesse sentido, os personagens principais são multifacetados, e não apenas “bons” ou “maus” — apesar da intensa separação moral da maioria dos elementos de cenário. Você sabe, por exemplo, que os personagens, apesar de seguirem motivações próprias, agem em prol do bem contra um mal muito bem delineado e caracterizado. Junte isso a alguns arquétipos pouco usuais (Tanis atravessa dilemas morais pesados, Raistlin é mau e Caramon é um gigante forçudo bem idiota) e temos uma combinação bastante interessante.

Além disso, é possível (nas devidas proporções) que fãs de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin, possam colocar a culpa em Dragonlance pelas recentes “tendências” para a matança desenfreada de protagonistas — ou melhor, “personagens queridos”, uma vez que, segundo o próprio Martin, não existem protagonistas em suas histórias. Bem, se você ler Dragonlance Chronicles, verá que matar protagonistas não é bem um problema para Weis e Hickman.

Narrativa enxuta

Na seara estilística, Dragonlance Chronicles mostra sinais de vigor quando traz um discurso narrativo bastante econômico e enxuto, evitando descrições enfadonhas e diálogos maçantes. A dupla de autores vai direto ao ponto, descrevendo o que realmente interessa para a cena e para a narrativa como um tudo, se aproveitando também da bagagem imaginativa do próprio leitor, que passa a ter um papel mais ativo na construção dos elementos da história.

Outro recurso bastante utilizado pelos autores é a adoção de points-of-view diferentes ao longo de toda a narração, inclusive para quebrar grandes sequências, nas quais participam muitos personagens e acontece muita coisa. Tudo isso torna a leitura mais fluida e interessante, prendendo a atenção à sequência

Dragões do Brasil?

Os três volumes de Dragonlance Chronicles foi lançado no Brasil pela Devir, mas a recomendação deste blog é que você leia no original, em inglês. A tradução que foi feita por aqui não é a mais adequada e há muitos erros de digitação no livro.

Em suma, Dragonlance Chronicles é uma leitura bastante recomendada, principalmente se você, leitor, está iniciando sua jornada pela literatura fantástica e ficção científica.