Esqueça o Networking

Um dos jargões mais tradicionais do empreendedorismo é o networking.

Quem empreende sabe o quanto esta expressão é mencionada como um “fator crítico” para o sucesso do seu negócio. A sua rede de contatos é tão importante quanto a sua equipe.

Eventos de networking são úteis. Será?

Mas a massificação deste termo acabou por subvertê-lo. E, me arrisco a dizer, ainda existem muitos empreendedores que enxergam o networking justamente no âmbito da quantidade, ao invés da qualidade.

Networking, para estas pessoas, é participar de todos eventos possíveis, trocar exaustivamente cartões e ter o maior número de pessoas na sua lista de contatos.

Segundo a Endeavor, o networking consiste em manter contato com outros profissionais. O mesmo artigo (bem interessante, por sinal) já alerta: “não basta entrar no Facebook ou LinkedIn e sair adicionando todo mundo, ou distribuir todos seus cartões”.

Porém, o que vemos por aí são matérias com guias de “boas práticas”, empresas que investem em eventos específicos sobre o tema e até mesmo “dicas matadoras” para criar o seu cartão de visitas inesquecível.

O resultado prático disso? Em minha opinião, é nulo.

Quando comecei a empreender, fiz o possível para participar de todos eventos de startups e empreendedorismo. Em 2010, eles ainda eram um tanto escassos. Alguns deles tinham propostas bem interessantes, mas a grande maioria que frequentei seguia o mesmo modus-operandi: aliar algumas palestras motivacionais (sempre falando de sucesso) com coffee breaks para networking.

O que faço com estes meus cartões antigos?

Saí energizado das palestras. Comi salgados e doces variados. Troquei muitos cartões. E conheci muita gente.

Porém, mais de 90% destas pessoas sequer lembro a fisionomia. Imagine se lembro o que fazem! E posso afirmar, sem medo, que 99% destes cartões trocados foram para o lixo. E sim, sei que é recíproco.

A verdade é que a troca de cartões normalmente significa chegar em casa e realizar aquela cerimônia de funeral: tiramos eles da carteira e jogamos no “cemitério de cartões”, de onde eles só sairão para ir para o purgatório (o lixo).

Também percebi, nestes eventos, que ninguém está ali para criar relacionamentos ou comprar alguma coisa, apenas para vender. É praticamente uma pirâmide de networking.

Percebi que estava fazendo tudo errado. E então decidi então mudar de estratégia. Posso resumir essa mudança em cinco ações.

A primeira ação foi abolir o termo networking da minha lista. Era uma forma simbólica de não repetir os mesmos erros.

Estou usando outra expressão: conexão.

Apesar de parecer mais uma expressão de dicionário de empreendedor, ela traz um significado muito mais importante. Enxergo uma conexão como uma relação de duas vias entre as pessoas. Quando penso em me conectar com algum outro empreendedor, imagino sempre uma relação ganha-ganha, onde ambos poderão se beneficiar de alguma forma e em algum momento.

Notem como isso é uma extensão do que geralmente aprendemos sobre networking. Deixamos de lado o foco do EU, e passamos a pensar em NÓS.

A segunda ação foi buscar formas mais clássicas de construir esta rede. Existem várias estratégias para isso e todas são úteis para se atingir o mesmo resultado.

Uma estratégia bem comum e muito efetiva é a de convidar a pessoa para tomar um café. Fazer uma reunião informal, bater papo, falar sobre trabalho e, nessa conversa toda, encontrar um alinhamento de como vocês podem se ajudar, de alguma forma.

O foco aqui não é empurrar seu serviço, produto ou ideias para ele. Mas realmente construir e fortalecer essa relação.

Foi através de uma estratégia simples como esta, que conheci e, posteriormente, fechei uma parceria fantástica para alavancar o meu projeto de crowdfunding para ajudar os animais, o Bicharia. Tudo começou com uma reunião informal em um café!

A terceira ação foi sempre buscar dar o primeiro passo. Quando possível, ser o primeiro a oferecer alguma coisa para a pessoa, buscando gerar algum resultado ou benefício direto a ele.

Usando a estratégia anterior do café, você pode encerrar a reunião se disponibilizando a ajudar de alguma forma a pessoa. Isso irá fortalecer o vínculo entre vocês e permitirá que você possa beneficiá-la, para que futuramente ela também possa repetir o mesmo.

Adoro fazer reuniões em cafés, apesar de não tomar café. Vai entender.

A quarta ação, foi tentar aceitar o primeiro passo dos outros. Aceitar convites, reuniões e até os auxílios oferecidos, mesmo quando você não tem certeza sobre o resultado para o seu curto prazo.

Eu gosto muito de palestrar contando minhas experiências e desventuras como empreendedor. Decidi que iria aceitar todos os convites possíveis, fossem onde fossem. Já palestrei em faculdades pequenas, para uma turma de 10 pessoas. Já fui a encontros de empreendedores com menos de 5 pessoas. Parece desmotivador, certo?

Mas foi investindo nesta estratégia de aceitar todos convites, que passo a passo, consegui palestrar em congressos e eventos bacanas, aqueles que a gente realmente se empolga em participar. Pois, dentre estes 5 ou 10, sempre havia alguém interessante para criar uma conexão e permitir dar um passo a mais.

E a quinta (e última) ação foi dar tempo ao tempo. Você não pode pensar em conexões sempre no curto prazo. Geralmente você vai usufruir destes contatos lá na frente.

Citando o Bicharia, novamente, eu só consegui lançar o projeto em 2012 porque lá em 2010 eu participei com diversas pessoas de uma tentativa de criar um movimento de startups na região. Foram diversas reuniões, bate papos e eventos, que ajudaram na construção dessa conexão.

Parte deste grupo, posteriormente, acabou desenvolvendo uma das maiores plataformas de crowdfunding do Brasil. O expertise deles foi fundamental para me dar segurança para lançar o Bicharia.

Em resumo, esqueça as fórmulas prontas, os cartões matadores e os eventos motivacionais. Construa a sua rede com qualidade, pessoa a pessoa. Dê um propósito para cada conexão que você criar.

E me convide para tomar um café um dia desses.

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