Este ano completei 6 anos trabalhando com Experiência do Usuário (Arquitetura de Informação e Usabilidade), User Research ou User Experience ou simplesmente como costumam chamar: UX.

Há um tempo atrás compartilhei no linkedin um excelente artigo do Jim Ross falando sobre sua experiência e apresentando conselhos para as pessoas que estão na área. Apesar da sua experiência ser em um mercado distinto do brasileiro, existe uma grande possibilidade de você se identificar com alguns pontos e dilemas que ele relata sobre a carreira de UX.

Teoricamente, pode-se dizer que sou um ‘profissional especialista’ no ramo, não que eu me sinta como tal pelo tempo trabalhando na área ou a especialização acadêmica, muito pelo contrário, pois o processo de aprendizagem trabalhando na construção e análise de produtos e serviços requer agilidade e estudos contínuos.

Resumi 6 anotações sobre questões que apareceram ou características que continuo aprimorando na minha jornada até agora, talvez sejam úteis para quem está começando ou até mesmo quem ainda não conseguiu organizar algo similar sobre:

1. Você não é o dono, nem cria experiências

É muito importante frisar isso a todo instante, para desmistificar essa ‘aura’ que paira sobre o especialista que diz resolver tudo sozinho. Como Profissional de UX nosso trabalho é cuidar dos interesses e/ou anseios dos usuários, mas o tempo vai lhe provar que esse processo funciona melhor coletivamente, envolvendo equipes de desenvolvimento, marketing, negócios e principalmente as pessoas que vão utilizar o produto/serviço.

Tenha sempre em mente que você projeta um ‘percurso ideal’, mas não conseguirá que todas as pessoas a andem igualmente por esse caminho do jeito que ele foi concebido.

2. A sua principal ferramenta de trabalho é a comunicação

Apesar do termo comunicação ser bem amplo, três características são essenciais para um efetivo trabalho como Profissional de UX:

· Comunicação interpessoal: para dirimir mal-entendidos do que está sendo projetado ou até mesmo para explicar o projeto para diferentes atores envolvidos.

· Técnicas de negociação: nem sempre os clientes ou setores desejam as mudanças propostas, mesmo que tragam melhorias para os envolvidos.

· Capacidade de colaboração: seja com setores, times ou outros profissionais de pesquisa, essa característica é essencial para esclarecer dúvidas sobre os processos de UX.

Geralmente é algo esperado de um profissional que trabalhe com pesquisas, o viés colaborativo, pois não há espaço para ‘ego’ em um ambiente onde todos podem contribuir para um melhor produto/serviço.

3. As pessoas não precisam entender exatamente com funciona, mas sim o valor do seu trabalho

Por ser uma área interdisciplinar oscilando entre áreas como Engenharia, Design e Psicologia, o entendimento das funções e até necessidade de um Profissional de UX é relativamente recente em empresas no Brasil, ainda estamos em um processo de amadurecimento de mercado, o que pode causar uma dificuldade para os contratantes entender de qual perfil precisam para suas respectivas empresas.

É vital o Profissional de UX deixar claro o seu processo de trabalho e como ele contribuir para os projetos, ainda mais significativo é endereçar os respectivos processos de pesquisa com os resultados finais do projeto, o retorno sobre investimento (ROI) pode ser relativo em alguns casos, mas de igual importância para sua atuação no produto.

O exercício de entender o valor da melhor experiência para o usuário é salutar para qualquer processo de UX e você terá seu olhar aguçado sobre a sua função toda vez que conseguir entender os tipos de valores envolvidos em cada projeto.

4. Esteja preparado para ser questionado

Ao exercer sua função como Profissional de UX vão ter momentos, muitos na verdade, que as pessoas vão questioná-lo do porque ou como será feito seu trabalho. Nessas situações, além de desenvoltura e comunicação, é necessário conhecimento técnico do que se propõe a fazer. Assim sendo, nunca deixe de estudar técnicas, métodos e suas possíveis aplicações, não só em blogs e websites, mas direto das fontes originais, como livros e/ou artigos científicos.

Lembro-me que em um determinado projeto fui questionado do porque eu requisitei que outra pessoa conduzisse os testes de usabilidade, afinal de contas fazia parte do meu trabalho. Entretanto, eu havia participado de toda arquitetura, interfaces do projeto e poucas pessoas sabem, mas algumas técnicas de avaliação/validação podem acarretar em viés de confirmação, quando você mesmo avalia sua própria criação. Isto pode ser facilmente evitado quando existem outros profissionais igualmente qualificados para conduzir testes na sua equipe, mas sabe-se que nem sempre isso é a realidade nas Empresas.

Investigue a fundo o contexto e a concepção da técnica ou método que você está empregando. Quanto maior o seu nível de proficiência no assunto, maior será a sua confiança em adequá-lo ou refutá-lo para alcançar seu objetivo final.

5. Seja flexível, mas mantenha o foco na consistência

Conforme nos aprofundamos sobre metodologias de pesquisa, a tendência é tentarmos executar as técnicas/métodos o mais ‘cientificamente’ possível, porque isso não deixa margem para viés e questionamentos dos resultados recolhidos.

No entanto, as metodologias ágeis para o desenvolvimento de produtos/serviços digitais vieram para ficar e impõe um ritmo de execução as vezes desafiador para as funções do Profissional de UX. Apesar das táticas de testes de guerrilha serem válidas para algumas hipóteses rápidas, elas facilmente caem por terra em se tratando de uma análise feita com o mínimo de rigor técnico por outra pessoa.

Visando dar mais tempo para os Profissionais de UX e diminuir inconsistências em projetos, algumas empresas adotam um tempo anterior ao começo do projeto (sprint zero), para aprofundar pesquisas e estratégia do produto, mas esse não é o cenário mais comum nas Empresas.

Flexibilize seu processo de trabalho, métodos e/ou técnicas para a ‘realidade ágil’ dos projetos, mas não abra mão do rigor e execução técnica, pois na maioria das vezes isso que irá garantir a precisão e qualidade dos resultados.

6. Suas habilidades precisam de diversificação e treinamento constante

Em teoria, qualquer pessoa dedicando tempo suficiente em uma atividade ficará melhor nela com o tempo, mas segundo o estudo de performance do neurocientista K. Anders Ericsson, não basta só isso.

O que faz a diferença na evolução das suas competências ou habilidades é um misto de constância de treinamento, qualidade de execução e diversificação do treinamento, ou seja, não basta apenas a repetição incansável das mesmas técnicas de wireframes ou benchmarking em todos os projetos, por exemplo. Você precisa desafiar sua capacidade de aprendizagem, sempre que possível, para experimentar um acréscimo de conhecimento sobre UX.

Se você tem apenas um martelo, você tenderá a ver todos problemas como um prego. –Abraham Maslow

Contudo, sempre achei que contar a experiência profissional apenas pelo ‘tempo de mercado’ é muito difícil, principalmente, se tratando de um ramo interdisciplinar que requer treinamento constante em diferentes tipos de técnicas, soluções e análise de projetos.

Portanto, esteja preparado para ir além das tendências ou o lugar comum, busque por um avançado nível de controle em cada aspecto das suas atividades tornando cada execução ou tentativa, uma oportunidade de melhoria do seu repertório de possibilidades e consequentemente maior será sua construção de conhecimento ao longo da sua carreira.

Divirta-se na jornada. ;)

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