Darkover de Marion Zimmer Bradley

Originalmente publicado no Zenit 2/m

Marion Zimmer Bradley (MZB) é bastante conhecida como autora da série As Brumas de Avalon, adaptada para o cinema em 2001, que conta uma versão da história do Rei Arthur a partir da visão das mulheres envolvidas. Embora seja essa sua obra mais conhecida, MZB publicou aproximadamente 85 obras de ficção — sem contar as publicadas sob pseudônimos. Muitas dessas obras pertencem a séries — sendo As Brumas de Avalon apenas um dos ciclos da série sobre a ilha de Avalon- a mais extensa delas é a que conta a história de Darkover, um planeta pertencente ao sistema Cottman, que foi acidentalmente colonizado por humanos e redescoberto cerca de 2000 anos depois pelo Império Terrestre.

A série Darkover compreende 46 obras — nem todas escritas por MZB -, divididas em ciclos de acordo com as eras históricas do planeta. Temos de início A Descoberta, cuja história é contada em A Chegada em Darkover (Darkover’s Landfall) de 1972. Embora seja a obra que inicia a série, não foi a primeira a ser escrita. Vários autores escreveram contos sobre essa era, mas a única obra da autora original é esta.

A segunda era descrita é A Era do Caos, quando a tecnologia darkovana atingiu seu ápice, com o desenvolvimento da ciência da Matriz. Várias histórias se referem a esta era como um tempo em que a violência atingiu seu máximo por conta da excessiva criatividade e crueldade das armas construídas com a utilização da ciência da Matriz. É também a era em que a maioria das leis foi forjada, mesmo que a maior parte da história deste período tenha sido perdida. Apenas um livro foi escrito por MZB, Rainha da Tempestade (StormQueen!) de 1978.

A terceira era é a dos Cem Reinos, sobre a qual muitos livros foram escritos. Nessa era Darkover se dividiu em inúmeros pequenos reinos e a Ciência da Matriz começou sua decaída. É no final desta em que a estrutura social darkovana inicia sua consolidação como é visto nas próximas eras e na redescoberta de Dakrover pelos terráqueos.

Callista Rendered por Pyracantha

A quarta era não é nomeada, mas sugere-se que houve um lapso de aproximadamente 100 a 250 anos entre a consolidação da estrutura social e territorial que compreende o que é chamado de Domínios e a redescoberta. Não há histórias sobre este período.

A quinta e a sexta eras compreendam a Redescoberta de Darkover pelos Império Terráqueo e a maioria de suas histórias conta sobre o choque entre a cultura terráquea e a darkovana. É neste era em que surge também as primeiras histórias centradas nas Amazonas Livres, um dos temas mais famosos dos livos de MZB — que será tratado em um post a parte.

A tecnologia e a estrutura social darkovanas são dois dos tópico mais interessantes da série. A primeira por ser algo totalmente diverso do que se tem na ficção científica usualmente, com a ciência da Matriz girando em torno do poder da mente humana e sua interação com as pedras-estrelas ou pedras-matriz nativas do planeta, numa mescla entre algo que parece magia, mas que por muitas vezes é descrito de modo bastante científico, sendo uma tecnologia desenvolvida por humanos que permaneceram por dois milênios apartados do Império e que acabaram por esquecer suas raízes terráqueas e evoluir de maneira diversa.

O segundo tópico é utilizado por MZB como uma metáfora para falar sobre assuntos que estão também presentes em livos de outras de suas séries: o papel da mulher na sociedade e homosexualismo. Sobretudo nas histórias sobre as Amazonas Livres. Embora nem todos os livros da série versem sobre estes temas.

Mausoleum at Hali por Pyracantha

A série Darkover permite que cada livro seja lido separadamente e fora da cronologia, embora a maioria mencione fatos ocorridos em outras obras. MZB criou toda uma cultura e ciência que impressionam bastante pela riqueza de detalhes, embora seja possível perceber algumas inconsistências que ocorrem, na minha opinião, para que locais, pessoas e acontecimentos anteriores se encaixem de melhor forma na história contada, o que facilita a leitura isolada de cada livro. É um ponto positivo em uma série tão longa — e que não foi completamente publicada no Brasil. Entre tantos livros presentes na série, e que aqueles que já tive a oportunidade de ler, recomendo os seguintes:

  • A Senhora da Tempestade (Stormqueen!) — 1978
  • Dois Para Conquistar (Two to Conquer) — 1890
  • A Corrente Partida (The Shattered Chain) — 1976
  • A Casa de Thendara (Thendara House) — 1983

Embora a séria Darkover não seja tão conhecida nem tão admirada quanto As Brumas de Avalon ou outras obras de ficção científica, é de qualidade evidente e bastante apreciável. Muitas vezes os temas excessivamente femininos podem acabar por afastar os leitores masculinos, mas saibam que isso não um empecilho para apreciação das obras. Ainda assim, o tema do feminismo não é tão gritante e onipresente quanto na obra de outras autoras de ficção científica. E aqui farei um adendo sobre aqueles que ainda sentem uma certa resistência quando se trata destas autoras: deixem os preconceitos de lado, meninos, ou podem acabar perdendo uma boa leitura. A série Darkover pode não ser tanta qualidade quanto as séries do Império e da Fundação de Isaac Asimov, mas ainda vale muito a pena.

Aqui você encontra todas as obras em ordem cronológica (em inglês).