Synn
Ah! A sensação de poder voar! A liberdade de sentir o vento acariciando meus
cabelos revoltos. A felicidade de poder esquecer o mundo, minhas responsabilidades, minha vida, minha identidade… O chão se aproxima a uma velocidade incrível e eu nem me atrevo a temer o que virá a seguir, pois o vento toca meu rosto como se fosse um sopro suave…
O alarme toca e eu desligo os aparelhos que me mantém conectada com àquele mundo fantástico, e de repente desejo novamente a liberdade que a realidade virtual me trás. Ela é como uma droga, sabe? Você a usa para fugir, cria seu próprio mundo, torna seus desejos suavemente reais. Mas ela sempre o faz desejar mais e mais, e quando menos se espera sua mente já não pode aceitar uma realidade concreta. É apenas um fantasma vagando pelo duro mundo real, e você passa a viver no jogo.
Eu me chamo Synn. Trabalho para a mais poderosa empresa de criação de games da terra, a Hi! Corp. Sou o que se pode chamar de System Cleaner. Meu trabalho é simples, localizar e eliminar os junkies, usuários viciados na obra-prima dos videogames: o MMR (Módulo de Múltiplas Realidades). Eles se proliferam pelo sistema como ratos, e é cada vez mais difícil eliminá-los.
Não sei bem dizer quando tudo isso começou. Talvez com os primeiros videogames, que criaram a primeira geração dos viciados em jogos eletrônicos. É claro que os consoles evoluíram muito desde aquela época remota, primeiro foi o advento dos simuladores, onde era possível criar um avatar e fazer com que ele tivesse uma vida como se fosse o mundo real, e então os jogos em rede, os controles sensíveis ao toque, as câmaras de simulação, as telas em três dimensões… e, por fim o MMR, um simulador tão potente que criou um novo mundo. E é claro que, com a enorme biblioteca de jogos criados pelas softhouses, as possibilidades de diversão e fuga se tornaram imensas. Num dia você pode ser um cavaleiro medieval numa história de capa e espada, no outro um astro de rock, ou um cowboy, ou um gângster…
E assim começaram a surgir os junkies. Mas é claro que eles não são apenas viciados na falsa realidade criada nos laboratórios da Hi! Corp., eles simplesmente já não podem deixar o jogo, esquecem de suas verdadeiras vidas e passam a viver em uma mentira. Não se sabe se o erro veio da máquina ou do homem, pois os junkies ficam simplesmente presos dentro do MMR, e acabam por acreditar que aquela é a realidade concreta.
Quando os primeiros erros foram detectados a Hi! Corp. quase entrou em um colapso, levando junto as softhouses filiadas. Mas o público não foi informado de nada disso, havia dinheiro demais no negócio, era simplesmente impossível parar.
A crise durou por treze meses, e nesse tempo foram criados softwares e vírus que tinham por objetivo deter o número cada vez maior de junkies. Nenhum foi bem sucedido, e o número só crescia. Foi então que um jovem engenheiro encontrou a solução: um vírus que enfraquecia o avatar do jogador de modo que, se ele sofresse um game over, era atirado para fora da realidade virtual do MMR.
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