Woman on the Edge of Time de Marge Piercy

Originalmente publicado no Zenit 2/m

A algum tempo atrás, nessas andanças sem rumo pulando de página em página me deparei com um post em um blog que falava sobre ficção científica feminista. Graças ao bom Google consegui rastrear novamente meus passos em encontrar novamente o link para a postagem..

Claire L. Evans, autora do texto que desencadeou em mim um frenesi que me refez rever toda a minha percepção sobre ficção científica, começa o texto falando sobre o romance The Female Man de Joanna Russ. Alguns parágrafos depois ela descreve a experiência de descobrir todo um mundo novo se abrindo a frente dela:

“The first time I read The Female Man, I felt like the hotel room carpeting had been ripped out from beneath my feet, revealing a glittering intergalactic parquet that had somehow been there all along. After all, I considered myself to be a sci-fi buff of the highest order, but I had come to it, like many young readers, through the space operas and adventure tales of Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, and Ray Bradbury. I still love these writers, of course, but the idea that science fiction — my genre of choice — could actually be written to me, about me, was unknown.

Those were boy stories. The Female Man is not a boy story.”

Em uma tradução livre seria algo como:

A primeira vez que li ‘The Female Man’, eu senti como se o o tapete do quarto de hotel tivesse sido arrancado de sob meus pés, revelando um brilhante assoalho intergalático que, de alguma forma, sempre estivera lá. No final das contas, eu me considero uma entusiasta de ficção científica da mais alta ordem, mas cheguei a isso da mesma maneira que muitos jovens leitores, através das space operas e dos contos de aventuras de Issac Asimov, Arthur C. Clarke e Ray Bradbury. Eu ainda amo esses autores, é claro, mas a ideia de que a ficção científica — o gênero que eu escolhi — pode de fato ser escrito por mim, sobre mim, era desconhecido.

Essas são histórias de garotos, ‘The Female Man’ não é uma história de garotos.”

Claire segue citando diversas autoras de ficção científica, dentre elas Ursula K. Le Guin, Marge Piercy, Margareth Atwood e etc. Até então ficção científica feminista para mim se resumia a Marion Zimmer Bradley. Woman on the Edge of Time não foi pra mim a revelação de um mundo novo e brilhante, foi um soco no estômago. Doeu. Doeu fundo e me fez deixar de lado de uma vez por todas todo e qualquer receio que eu possuía, todo resguardo e desconfiança sobre o que o feminismo realmente significa.

Mas porque dentre tantas autoras citadas no artigo eu resolvi começar por Marge Piercy? Por que só consegui colocar minhas mãozinhas em três dos vários livros citados. E em forma digital. Dois deles em inglês. Digamos que a escrita de Joanna Russ se coloca um pouco aquém das minhas habilidades com língua inglesa (outro soco no estômago) e eu acabei ficando extremamente confusa lá pela página 50. Quanto a A Mão Esquerda da Escuridão da Ursula Le Guin, bem… me crucifiquem, mas não me agradou tanto assim quanto eu esperava. Então parti para a utopia de Marge Piercy.

Quando digo utopia, quero dizer que parte da história é uma utopia, uma utopia igualitária em que o ser humano evoluiu não apenas social, mas fisicamente. A outra parte é deprimente e dolorosamente real. A outra parte é Connie, uma latina pobre de meia idade que vive no presente sofrendo das mazelas que, em pleno 2016 (!!!!), ainda são realidade para muitas mulheres. E não só mulheres.

Se de um lado temos Connie, internada em um hospital psiquiátrico após defender sua sobrinha, Dolly de um cafetão que tenta forçá-la a fazer um aborto nas piores condições possíveis, do outro temos Luciente, uma pessoa que vem de um dos futuros possíveis da humanidade, onde as pessoas vivem em pequenas comunidades e homens e mulheres podem dar a luz. Uma utopia tão igualitária que de início é difícil digerir, embora nem tudo seja perfeito. Marge Piercy leva a igualdade a lugares em que muitos podem gritar “antinatural”, mas a justiça nessa situação é eficiente, nos põe a pensar em questões que estão tão enraizadas em nós que achamos impossível que as coisas possam ser diferentes.

Luciente visita o presente doentio de Connie, e Connie ganha o privilégio de conhecer a utopia de Luciente, a comunidade de Mattapoisett. O choque de Connie é o choque de qualquer um de nós. As estruturas sociais e familiares, a visão biológica e até mesmo a língua. É preciso dar um destaque especial para a língua. Não tenho ideia se esse livro já foi alguma vez traduzido para o Português. Na verdade, tenho lá minha dúvidas se seria possível fazer tal tradução sem matar completamente uma das características mais notáveis do texto.

Não vou estragar a surpresa daqueles que desejam ler o que eu considero uma obra essencial e pela qual tenho muito apresso. Paro por aqui para não dar mais detalhes da trama ou sobre o mundo de Luciente. Espero que vocês levem seus próprios socos simbólicos em seus respectivos estômagos. No começo dói, mas eu posso garantir que depois é possível sim ver aquele assoalho intergalático brilhante. E ele é lindo!

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