
O que as tragédias em Paris e Mariana dizem sobre o brasileiro
Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que este texto não é de forma alguma uma crítica à quem mudou a foto do Facebook ou se comoveu pelos atentados em Paris, mas sim um convite à uma reflexão.
Eu realmente acredito que temos capacidade de nos simpatizarmos e termos empatias para com diversas causas, que uma empatia não anula a outra e que é impossível apoiarmos e estarmos atentos à todas elas.
Só que acompanhando as manifestações nas redes sociais quanto a “Paris x Mariana” e juntando o fato de que não somos um povo patriota, eu fiquei com a pulga atrás da orelha e resolvi fazer uma pesquisa sobre o comportamento do brasileiro.
Para tal, utilizei o Google Trends, ferramenta onde cruzando algumas informações é possível medir o interesse por um determinado assunto e fazer comparações.
Vejam abaixo:

O gráfico acima representa a busca pela palavra “Mariana”, no Brasil, durante o mês de Novembro, mostrando que após o dia da tragédia (5/11) houve um aumento substancial no interesse pelo termo — o que era de se esperar.
Mas o que realmente importa, o que realmente mostra algo não muito bacana sobre nós, é este aqui:

Não sei se de cara fica claro, mas as linhas azuis no gráfico acima são exatamente as mesmas do primeiro gráfico — só de desta vez comparadas com as buscas por “Paris”, em vermelho.
Explicando de forma resumida, o Google monta o comparativo de forma que o termo mais buscado é o “100” e o restante é proporcional — o que traduzindo em miúdos significa que nosso interesse por uma tragédia ocorrendo na nossa própria pátria foi aproximadamente 82% menor do que nosso interesse pela tragédia estrangeira. (fonte)
Peço que antes de avançar na sua leitura volte e dê novamente uma boa olhada no gráfico e no que ele representa.
Isso é algo para minimizarmos e acharmos “chato”, ou algo para refletirmos?
Eu gostaria de salientar que o ponto aqui não é de forma alguma “comparar tragédias”, porque dores e vidas são iguais em qualquer lugar, mas sim nos fazermos algumas perguntas:
Por que nós temos mais empatia e interesse pelo que ocorreu em Paris do que pelo ocorreu em Mariana?
O fato de ser em solo nacional não deveria ser o suficiente?
Por que mudar a foto para a bandeira de outro país é “chique” mas colocar a foto do nosso próprio país nos dá aquele incômodo estranho ou até vergonha?
Por que enquanto em Paris pessoas abrem suas casas e taxistas fazem corridas gratuitas em solidariedade aqui nós temos comerciantes que aumentaram o valor do galão d’água de R$ 6 para mais de R$ 20 depois do rompimento da barragem?
Até quando iremos perpetuar o complexo de cachorro vira-lata que vem desde o nosso “descobrimento” e ao invés de achar que a grama dos outros é sempre mais verde lutarmos para que a nossa seja tão verde quanto?
Sim, são muitas perguntas e não há respostas fáceis.
Mas o que me motivou a escrever esse texto é que para mim estas questões não deveriam ser ignoradas pois impactam a nossa sociedade de forma profunda — população, imprensa, governantes, etc — e fica um pouco mais clara e infelizmente verdadeira a frase que diz “o problema do Brasil, é o brasileiro”.
É, eu sei, fere o orgulho. Mas as vezes é disso que precisamos.
Para quem quiser se informar mais e entender que o que ocorreu em Mariana é muito grave, seguem alguns pontos:
- Quem irá investigar a parada toda tem o rabo preso com a Samarco
- Os impactos talvez sejam irreversíveis
- Houve descaso mesmo depois de ocorrida a tragédia
- Tem proporções enormes até para o planeta
- E ainda pode ficar muito pior