Big data e cientista de dados

estamos preparados para a tecnologia?

Kenneth Cukier, editor de The Economist, diz que algo revolucionário está acontecendo: somos agora capazes de acessar e interpretar dados de maneira antes impossível, potencializando oportunidades de promoção de mudanças na sociedade e na vida das pessoas.


Esta nova realidade deve-se ao big data, termo cunhado para abrigar o conjunto de soluções tecnológicas capaz de lidar com dados digitais em volume, variedade e velocidade inéditos até hoje, potencializando a capacidade das pessoas de adquirir conhecimento a partir da enorme massa de dados existente nas organizações e na internet.

A inteligência analítica, no contexto do big data, é uma transformação radical nos conceitos e no modo de usar a informação, combinando diversas fontes de dados com apoio de ferramentas computacionais sofisticadas, para identificar oportunidades de agregação de valor aos negócios, fazer descobertas científicas, ou prever comportamentos sociais, entre outros aspectos.

Embora para alguns setores o trabalho de manipulação de grandes massas de dados não seja uma novidade, como nas telecomunicações e na exploração de petróleo, duas importantes tendências tornam a era do big data uma solução diferenciada e revolucionária:

a possibilidade de digitalizar virtualmente “tudo” cria novos ambientes de dados em tempo real e em larga escala, para os quais os tradicionais datawarehouses estruturados e relacionais nem sempre são os mais adequados;

as técnicas de análise mais recentes permitem a obtenção de percepções e predições, em níveis de sofisticação, rapidez e precisão antes inatingíveis.

Com base nestas facilidades proporcionadas pela tecnologia, as projeções têm sido extremamente otimistas sobre o potencial de resultados que podem ser alcançados na gestão estratégica dos negócios, apesar de a maior parte das empresas ainda não indicarem ter planos efetivos para a implementação de big data.

Esta aparente contradição entre expectativa e realidade pode ser explicada pelo fato de ainda persistirem, nos gestores e nas empresas, dúvidas básicas quanto ao tema:

se de há muito tempo já existem dados em ampla quantidade nas empresas e na internet, explorados por meio das tecnologias de BI (business intelligence), qual é essencialmente a novidade do big data e o que seu uso adiciona na agregação de valor para os negócios e para a sociedade?

o big data serve apenas para grandes empresas, ou pode ser aplicada também na gestão dos pequenos e médios negócios? Quanto custa um projeto de big data e como medir o seu retorno financeiro efetivo?

Finalmente, quem é capaz de encontrar tais insights nas grandes massas de dados, e que habilidades tais pessoas devem ter para atender à potencial demanda do mercado?

No presente post vamos nos concentrar na discussão da terceira questão acima colocada: têm-se afirmado que tais profissionais são os cientistas de dados, e que o grande desafio dos próximos anos será localizar esses talentos e inserí-los no mundo dos negócios.

Não existem dúvidas de que as empresas estão tendo dificuldades para encontrar pessoas com todos os requisitos necessários para desempenhar a função de cientista de dados: expertise em tecnologias de bancos de dados e, diante de terabytes de dados, capacidade de analisá-los com apoio de modelos computacionais, fazendo descobertas relevantes para os negócios.

Diante de tais exigências cabem algumas indagações:

é possível encontrar um profissional dotado de habilidades tão distintas para enfrentar tal desafio?

que estratégias de capacitação estão sendo desenvolvidas para suprir a enorme demanda de profissionais pelo mercado de big data?

a academia está preparada para formar este tipo de mão de obra, numa visão estratégica de mais longo prazo?

Em relação à primeira questão, este é um grande desafio tanto para os executivos de tecnologia da informação (os CIO) como para os gestores de recursos humanos. Ainda não existe massa crítica de cientistas de dados no mercado, e nem se tem ainda uma noção exata do perfil desse profissional para orientar o processo de seleção e contratação.

As estratégias de capacitação dos potenciais cientistas de dados, no contexto do mercado brasileiro, começam a aparecer por iniciativa de instituições como a Escola de Verão EMC em Big Data e por meio de cursos de especialização ofertados por escolas e departamentos especializados de universidades, como a FGV/EMAp e a PUC-Rio/CCE.

Nota-se que tais programas têm viés fortemente tecnológico, centrado na apresentação de plataformas de software como o Hadoop e soluções de big data analytics, entre outros aspectos. Cabe ressaltar que tal conteúdo é extremamente pertinente, para suprir de imediato a carência de mão de obra técnica especializada no mercado brasileiro.

O que ainda não conseguimos identificar foi a existência, em nosso ambiente educacional, de iniciativas complementares para inserir os quadros gerenciais no conhecimento das potencialidades do big data no negócio, o que já ocorre em instituições como o MIT nos EUA, que tem um programa voltado à discussão do tema sob o foco da gestão estratégica.

Finalmente cabe discutir se a academia (universidade) está preparada para formar as pessoas para atuar no domínio das aplicações de big data, numa visão estratégica de mais longo prazo.

Tendo como base nossa experiência acadêmica, entendemos que deve-se ampliar o espectro de disciplinas ligadas à inteligência de negócios (BI — business intelligence), tanto nas escolas de administração como nas relacionadas à tecnologia e a sistemas de informação, conferindo às mesmas um sentido mais abrangente e orientado a resultados, mostrando ao aluno a contribuição que pode ser esperada do uso das ferramentas tecnológicas para agregação de valor ao negócio (o que fazer e por que fazer), antes de se pensar na solução tecnológica (como fazer).

Também deve ser estimulada a formação de turmas multidisciplinares, especialmente em cursos de graduação, favorecendo a integração dos quadros discentes das áreas de administração e de tecnologia.

Esta certamente poderia ser uma forma de incentivo ao surgimento de projetos de startups no domínio de big data e de inteligência analítica nos negócios, tendo como origem os quadros discentes das universidades.

    Blog do Newton Fleury

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    Autor, consultor e professor com foco em inovação e estratégia, processos de negócio, gestão da informação e do conhecimento e tecnologias de apoio à gestão.

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