o canto

o canto sempre foi meu lugar favorito

o canto da sala conversando com os velhinhos que estavam sentados cansados de tanto viver

o canto do quarto onde a vitrola ficava e eu ouvia os discos deitado no chão pra sentir mais de pertinho

o canto da cozinha esperando a comida ficar pronta, viajando nos cheiros e temperos que a mãe colocava em cada colherada na panela

o canto do parque vendo os outros garotos jogar

o canto da quadra treinando pra poder jogar junto

o canto, a esquina

de onde dá pra ver os prédios das duas ruas

e observar as janelas e delas imaginar histórias

de amor, de terror, de alegria e de dor

mas estar no canto foi sempre estar

observando, ouvindo, presente e ausente

e dali ser parte do todo mesmo não querendo ser

mas entendendo que estar no canto era também estar

até porque nunca gostei do centro

nem da frente

nem de trás

mas o canto

os cantos

eram meus

era meu

o meu canto