Da maior importância

Floquinho de neve
Aug 24, 2017 · 13 min read

Um cara tinha acabado de vomitar do seu lado. Ele tinha que confessar: aquela festa estava se mostrando pior do que ele havia imaginado. E olha que ele estava com as expectativas bem baixas. Talvez ir pra uma festa na casa de um desconhecido para tentar esquecer sua namorada não fosse uma boa ideia de qualquer modo. Ex-namorada, lembrou-se com acidez.

Iria procurar João e dizer que estava indo embora. De qualquer jeito, era a melhor coisa a se fazer.

Era uma daquelas festas em casas com piscina, que um amigo de um amigo te levava e ninguém nunca sabia de quem realmente era a casa. Depois de quase voltar para seu lar com um agradável aroma de vômito, não se surpreendeu com o número de esbarrões que levou seguidos de “foi mal, cara”.

Avistou seu amigo na área externa, perto da piscina. Discutia com uma moça, particularmente, bonita demais para ele. Mas João às vezes tinha sorte.

— Ei cara, eu to indo.

— Quê? Não, não. Fica mais um pouco, pô! Você nem deu uma chance pra festa.

— Eu dei, acredite.

— Se tivesse dado não taria com essa cara de quem perdeu o hamster.

Gonçalo franze o cenho com aquela comparação. Ele podia sentir o cheiro de álcool vindo da boca do seu amigo. Infelizmente, sabia que a bebida não tinha nada a ver com o fato de João ser absolutamente sem sentido.

— Hamster? Você tá chamando a Carol de hamster?

Um som de risada atrai sua atenção para a esquerda do seu amigo, um pouco atrás dele, obtendo um vislumbre da moça que discutia.

— Quer saber? Conversa aqui um pouquinho com Jade enquanto eu vou buscar a bebida dela rapidinho.

Gonçalo não tem tempo de responder antes do seu amigo desaparecer na multidão. João devia estar tão bêbado quanto o cara que ele havia presenciado vomitar. Não se deixava uma mulher daquela.

— Eu não bebo cerveja! — Ela gritou para o nada já que João já se encontrava longe dali. — Que merda.

Ele olhou para aquela criatura na sua frente. Ela tinha um bico atrevido pintado de preto, roxo, ou qualquer outra cor escura demais para não ser distinguida naquela meia luz pulsante. O tom dava um contraste misterioso de claro-escuro para o seu rosto.

— Hã… oi.

Ela direcionou seus olhos para ele e ele se deparou com dois faróis incandescentes lhe encarando, a sobrancelha erguida e uma cara duvidosa. Ela tinha um daqueles olhos felinos: selvagens, astutos e desafiadores. Gonçalo sentiu o ar fugir dos seus pulmões.

— Jade, é?

— Igual a pedra.

— Eu sou-

— Eu sei — ela o cortou.

— Sabe do quê?

— Quem você é. Eu já te stalqueei uma vez — disse, dando de ombros. Ela olhava insistentemente para a multidão, como se procurasse alguém. Gonçalo controlou a vontade de tocar em seu queixo para olhar nos olhos dela. Parte dele sabia que era apenas vaidade. Algo, que ele não reconheceu em si mesmo, desejou que ela lhe desse atenção.

— Desculpe, como?

— Como o quê?

Ótimo. João havia lhe deixado tomando conta da sua ficante que, por acaso, era uma completa maluca e a mulher mais bonita da festa.

— Você…? Por que você me stalqueiou? Como assim?

— Você estava na foto de uma amiga minha. Além do mais, nós estudamos na mesma escola já.

Ele forçou sua memória, buscando qualquer traço familiar no rosto atrevido. Os olhos. Ele se lembraria se já tivesse posto atenção naqueles olhos flamejantes. Ter o peso daquelas duas pedras preciosas incandescentes era, ao mesmo tempo, desconcertante e envaidecedor.

Nada.

Jade riu. Ela parecia estar achando divertido o desconcerto do seu ex-colega em não reconhecê-la.

— Nós éramos crianças. Estudamos na mesma série, mas em turmas diferentes, até a quinta série. A Cris é a nossa amiga em comum.

O cabelo. Ele se lembrava daquele cabelo cacheado andando junto com sua amiga no recreio às vezes.

— Eu me lembro de você! Você usava uns óculos meio fundo de garrafa.

Ela riu. Não parecia ser uma pessoa que se envergonhava do seu passado. Afinal, ela também não devia se lembrar dele como seu eu de agora: atlético, cheiroso e atraente. Ele tinha tido uma fase meio sinistra e tinha consciência disso.

— Eu ainda uso às vezes. Óculos, digo. Não aqueles “meio fundo de garrafa”, óbvio.

— Você era da C, né? Sua mãe trabalhou com meu pai…

— Minha tia.

— Sim, sim, sua tia. Desculpe. Como ela tá?

— Ela faleceu ano passado.

Se estivesse tomando qualquer coisa, ele tinha certeza que teria cuspido tudo no rosto da sua bela interlocutora. Eles estavam rindo há segundos. Gonçalo procurou qualquer indício de brincadeira no rosto dela, mas só encontrou uma calma misturada com dureza para encobrir a própria dor. Ele conhecia aquela máscara porque ele mesmo a usava há mais de dez anos. E ele sabia que nada que pudesse ser dito naquela situação era o suficiente, então ele apenas falou aquilo que ele queria dizer sempre que lhe diziam um “eu sinto muito” e um olhar de pena:

— É uma merda.

Jade cruzou os braços, olhando para longe dali, como se enxergasse algo além.

— É.

— Minha mãe faleceu quanto eu tinha nove anos.

Ela não falou nada, permanecia observando a multidão. Gonçalo percebeu que ela mordia o interior das bochechas. Ela parecia tão à vontade lá quanto ele mesmo.

Por que diabos João havia trazido-a para aquele lugar tenebroso? Ele conseguia imaginá-la num jantar feito a dois e depois compartilhado no terraço de uma aconchegante casa, regado a vinho e finalizado com uma sobremesa delicada. Tudo bem que ele não imaginava João cozinhando um jantar romântico, bem como não sabia o que seu amigo havia feito para convencê-la a comparecer num evento daqueles. Sentia-se mal por ela.

—Eu acho que João deve ter se distraído no caminho com sua bebida. Talvez ele encontrou alguém conhecido. Ele tem muitos amigos, sabe.

Jade olhou para ele gargalhando. Um riso que, se Gonçalo estivesse procurando, com certeza teria roubado sua atenção. Como de fato roubou. Quando percebeu, estava rindo com ela ao mesmo tempo que tinha uma leve impressão de que ela ria dele.

— Eu não bebo nada que tem nessa festa. Eu odeio cerveja.

— João sabe disso? Porque ele foi pegar uma bebi-

— Você conhece João há quanto tempo? — Ela pergunta, como se achasse divertido.

— Acho que uns dois anos…

— Então você já deveria ter percebido que ele fez isso de propósito.

— Não entendi.

Jade o concede um sorriso doce, embora Gonçalo suspeitasse que por trás dele havia uma boa dose de sarcasmo. Ele continuava perdido. Aliás, estava perdido desde a primeira palavra que trocara com aquela menina. Será que o problema era dele e hoje ele estava particularmente lerdo ou era aquela garota cheia de mistérios que ele não conseguia acompanhar?

Ela levantou uma das sobrancelhas e ele pôde perceber que, o que ele achara ser um piercing, na verdade eram duas pintinhas. Ela estava o analisando? Como se ele estivesse fazendo algo diferente naquele exato momento, pensando em como a Jade que ele vagamente lembrava vivia atrás de livros com lombadas grossas. Como ela havia passado daquilo para aquele ser, quase irreal na sua frente. Por Deus, ele estava babando na garota do seu amigo. Gonçalo afasta esse pensamento, sem querer analisar o quão anti-ético é.

— Você é sempre ingênuo assim?

— Não sei. Mas você com certeza não tinha uma língua tão afiada.

Ela ronrona um riso e Gonçalo pode perceber que ele mesmo ria com ela.

— Você não pode dizer isso, você não falava comigo naquela época.

— Touché. Então, me revele qual o plano maligno de João ao nos deixar só.

— Na cabeça dele com certeza não é maligno. Provavelmente ele está se vendo como o grande herói da história, imaginando quando daqui uns dez anos ele vai estar contando para os nossos filhos como ele juntou a mamãe e o papai.

Gonçalo arregala os olhos enquanto Jade apenas dá de ombros.

Ela estava solteira? É isso?

Ele sente o alívio o inundando. Não sabe dizer daonde aquela sensação saiu. Ele apenas consegue olhar para ela, ainda meio abestalhado.

— Pois é. Nunca daria certo.

— Vocês não estão juntos então?

Quê?! Eu e João?? Não, Deus me livre! Ele é meu amigo de muito tempo. Céus, isso parece tão errado.

Ele ri e nem sabe porque sente-se tão leve. Talvez saiba, mas evita refletir sobre isso. Talvez as duas cervejas que ele tomou estejam fazendo efeito só agora, ou seriam as luzes piscantes e como parecia que a maioria das pessoas agora estavam dentro da casa, ou a direção em que o vento soprou levando o perfume dela direto para o seu nariz. A brisa gelada, como a que antecede uma chuva, bagunça os fios dela, beijando suas bochechas e tremeluzindo em seus olhos, obrigando-a a afastá-los com as mãos para poder olhar para si. Gonçalo sente-se diferente ali.

— Por que nunca daria certo?

O modo como ela o olha faz ele pensar que ela não entendeu sua pergunta. Está preparado para repeti-la quando ela sorri, mordendo o lábio inferior.

— Seu hamster te deixou a quanto tempo?

— Duas semanas. — Aquela pergunta o transporta para outro plano. Ele sente seu estômago se contrair como sempre acontece quando ele pensa naquele momento. Gonçalo franze a testa ao lembrar de Carol indo embora chorando, enquanto gritava que não aguentaria mais aquilo. — Ela disse que não me amava mais, não como eu a amava.

— Outch.

— É…

— Há dez mulheres para cada um. Uma mulher é sempre uma mulher, etc e tal.

— Hã?

Jade sorri.

— É uma música de Caetano. — Ele pensa em continuar naquele assunto, mas Jade mexe a mão como se estivesse afastando as ideias ou algo do tipo. — Pelo menos ela não te traiu.

Gonçalo olha para a mulher ao seu lado. Ela podia não ser a mulher mais gostosa daquele lugar, mas havia algo naquela criatura que o havia deixado com uma pulga atrás da orelha desde que botou seus olhos nela. Jade tinha aquele presença magnética que poucas pessoas possuíam. Ele tinha vontade de tirar uma longa tarde para descobrir todos os segredos que se escondiam por trás dos seus cachos. Ela era linda, cativante, inteligente e sedutora. Ele não conseguia pensar num porquê razoável para trai-la.

— Você foi traída?

Ela havia franzido o nariz, como se aquela palavra tivesse um cheiro desagradável.

— Ah, você não quer saber da minha pequena trágica história.

— Por que não?

— Porque ele foi um namorado incrível que tinha a decência para me fazer ter um orgasmo com um oral.

Ela diz tudo aquilo com uma naturalidade tão absurda que ele sorri.

— Não olhe para mim com essa cara de pervertido. Quem sabe o motivo do seu hamster ter te deixado fosse sua preguiça em fazer um oral gostoso.

Por mais que ela toque naquele ponto delicado, que ele vinha tentando a todo custo esquecer nas últimas duas semanas, a única coisa que Gonçalo tem vontade de fazer naquele momento é sorrir.

— E por que ele te traiu?

Jade dá de ombros, mas Gonçalo consegue vislumbrar a dor por trás dos seus olhos.

— Eu não me importo. Saber ou não, não vai mudar nada.

Gonçalo sente que Jade está omitindo alguma coisa. Não que ele achasse que ela soubesse a razão exata do seu ex ter feito aquilo, ou se ela sequer havia perguntado. Mas ele queria saber a história. Queria saber em que ponto o namorado perfeito acabou com o sonho impecável. Aquele tipo de assunto nunca o interessou, nem quando suas amigas ou sua irmã vinham desabafar ou pedir conselhos. Por que de repente ele se via tão instigado, não sabia, mas decide parar de insistir. Não gosta da forma como ela parece ter se fechado numa concha impenetrável quando o que ele deseja é sentir-se mais perto dela. Dizem que, às vezes, para dar um passo para frente, antes é preciso retroceder.

— Você tem visto a Cris?

— Não. Ela é ocupada demais sendo médica e salvando pessoas por aí. — Ela diz aquilo num misto de ironia, admiração e divertimento que ele acha nada menos do que incrível. Seu rosto torna-se suave e ela olha para ele. — Eu adoro ela.

— Eu também adoraria, se eu ainda me lembrasse da última vez que a vi.

Eles riem.

— Veja bem: amigos x salvar vidas. Temos que dar um desconto, ela é quase o Batman.

Gonçalo faz uma anotação mental de ligar para Cris no dia seguinte, marcando um capuccino naquela cafeteria do centro que ela amava. Ele calcula quais as chances dela dizer sim, e ele acha que a perspectiva é positiva. Tinham muito do que falar. Ou de quem.

Uma luz azulada reflete no rosto dela. Ele primeiro vê para depois sentir. Pequenas safiras se acumulam no rosto da sua interlocutora e no meio dos seus cachos, fracionando a luz, emitindo brilhos anilados e imagens do seu próprio rosto deslumbrado. Ele sente pequenos pontos gelados tocando sua pele e uma agitação ao seu redor. As poucas pessoas que ainda estavam lá fora se apressam para dentro da casa.

— Está chovendo?

Jade tem um pequeno sorriso no rosto. Ela fecha os olhos incandescentes e ergue o rosto para o céu, com contentamento. Seu peito se eleva e retrai lentamente e, pela primeira vez, ela parece à vontade. Porém, há algo muito estranho naquela cena para si. Como uma peça do quebra cabeça que não se encaixa no desenho. Então ele percebe. Carol, sempre que chovia, cobria a cabeça e corria para algum lugar coberto, resmungando mal-humorada. Assim como todas as mulheres que ele conhecia. E lá estava Jade, sem se preocupar se sua maquiagem escorreria ou com a forma que seu cabelo adquiriria, embora ele tivesse a impressão de que ele ficaria mais bonito, da mesma forma que ele tornaria-se esplendoroso depois de uma maratona apimentada e sexual. Ele perguntou-se se havia algum tipo de maquiagem no rosto dela, fora o batom, e chegou a conclusão de que ela tinha uma pele bonita demais para isso.

— Sim — sua voz é um ronronar satisfeito e Gonçalo acha aquilo sexy. Ela abre os olhos, encontrando os dele encarando-a. — Está começando a ficar muito evidente seu interesse por mim, Sr. Gonçalo.

Ele provavelmente está corando porque o contraste de temperatura entre a garoa e sua pele parece ainda maior. Mas a única coisa que ele percebe é como o nome dele é sensual nos lábios dela.

— Eu não acho que eu consegui disfarçar bem em algum momento, Jade.

Ela rola os olhos rindo e ele não sabe se ela percebeu a gravidade das palavras dele. Gonçalo espera que sim. A chuva aperta e ele não pensa, apenas pega na mão dela, conduzindo-a para debaixo de um guarda sol ao lado da piscina. Eles se encolhem no espaço pequeno, mas ele consegue sentir o calor emanando da pele dela. E, se é que aquilo é possível, o cheiro dela parece ficar ainda melhor na chuva. Ele cogita qual seria o gosto dela, da sua boca, da sua pele, de tudo.

— Você tá com frio?

Jade está se abraçando e ele não sabe o quanto é apreensão, frio ou desconforto. Suas mãos esfregam-se nos seus braços e ele controla a necessidade de fazer aquilo ele mesmo.

— Eu estou bem. É só uma chuvinha.

Uma chuvinha que estava se transformando num temporal e agora eles estavam confinados num espaço minúsculo, num silêncio constrangedor com uma tensão crescente. Pelo menos ele. Jade parecia serena e quase distante.

— Adoro essa música.

Gonçalo tenta se concentrar e apura os ouvidos através do ruído da chuva para a leve melodia que vinha da casa. Para ser sincero, ele não consegue distinguir muito bem, mas assim que percebe a oportunidade decide agarrá-la.

— Aceita dançar comigo?

Jade se assusta com a quebra do silêncio. Ele pensa com desânimo que talvez ela apenas não queira dançar com ele mesmo.

— Você não parece dançar.

— Eu prometo não pisar no seu pé.

Ela ri e imediatamente apoia as mãos nos ombros dele.

— Você fez uma promessa.

Ele consegue sentir o calor da palma dela ultrapassar o tecido da sua blusa e tenta ignorar a vontade de sentir pele contra pele. Cuidadosamente, coloca as mãos na cintura dela. Jade mantém os olhos nos dele e Gonçalo, por maior constrangimento que estivesse, resolve encará-los. Ela sorria com o olhar e ele tenta agora ignorar o sorriso que crescia no seu próprio rosto. Tentou focar na música, na chuva, no término recente de um relacionamento de quase três anos, na segunda feira que chegaria depois de amanhã e traria consigo uma dezena de processos para serem analisados e na feira que deveria fazer amanhã se desejasse tornar sua geladeira usável. Qualquer coisa menos no agora, nisso. Apenas conseguiu deixar tudo mais enrolado dentro da sua cabeça.

Jade encosta a cabeça no seu peito, sua testa em seu ombro, enquanto entrelaça as mãos na sua nuca. A mão dela está gelada tal qual as gotas de chuva e ele sente o arrepio atravessar o seu corpo quando ela roça os dedos lá. Ele cogita se aquilo é realmente adequado e resolve mandar tudo para o inferno quando envolve o corpo dela nos seus braços. Ela parece frágil ali.

— Obrigada — sua voz é um sussurro agradável e ele sorri entre seus cabelos. O cheiro dela é como uma bolha envolvendo-os e ele não quer sair dela nunca mais. Ela tem cheiro de lar. Torce para que seu aroma seja forte o suficiente para impregnar suas roupas e, quando acordar no dia seguinte e senti-lo, perceber que não foi tudo um sonho maluco do seu cérebro cansado.

— Disponha.

Ela afasta a cabeça para trás, para olhar para ele.

— Eu não imaginava encontrar alguém… hum, decente hoje.

Ele ri.

— Parece que nosso amigo João fez um bom trabalho.

Toda ela está sorrindo e Gonçalo tenta se convencer da loucura daquilo. Alguém não podia ser tudo isso que seu cérebro o estava fazendo ver. Devia ser o álcool bebido, a maconha dos outros que pairava no ar, o cheiro dela que devia ter alguma coisa além de só perfume, a noite que deixava tudo diferente ou a solidão misturada com decepção que ele vinha sentindo.

De repente os olhos dela focam-se em algo atrás de si, em direção a casa. Jade fica tensa em seus braços. Ele olha para trás. Há um cara os encarando e, pela forma como ele segura sua latinha de cerveja, parece que vai matar alguém.

— O que foi?

Ela olha de volta para si. Suas feições suavizam e Gonçalo sente-se aliviado quando ela perde-se no seu olhar e voltam a ser apenas os dois.

— Não importa — E ela volta a apoiar-se no seu ombro, a pontinha do seu nariz roçando no seu pescoço.

A respiração dela vai tornando-se estável e ele já não mais se lembra do estranho os encarando. Percebe que a pele dela já não está mais fria e deduz que ele e aquela dança, ou o que quer que aquilo fosse, serviu para esquentá-los. Talvez eles haviam se salvado hoje, um ao outro. Não era por acaso que ele a tomava em seus braços como uma tábua de salvação. Rezou para alguém superior a tudo aquilo que existia para que aquele momento nunca acabasse. Ele havia rezado poucas vezes na vida, mas aquele momento valia a pena.


Jade enterra a visão de minutos atrás no fundo do seu ser. Decide não deixar Gabriel estragar mais uma coisa na sua vida. Ele já estragou coisas demais. Aspira o cheiro do seu partner enquanto sente-o arrepiar-se. Aquilo bastava.

Deve haver uma transa qualquer, pra você e pra mim, entre nós.

)

Written by

Uma tentativa de escrever com frequência, para tentar colocar esse turbilhão de sentimentos pra fora

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