Ir com calma

Eu sei que nós estávamos indo devagar. Começando tudo de novo. E eu juro que foi com essa intenção que eu cheguei na sua casa no domingo de Páscoa.

Você estava sozinho. Sua família estava viajando, seus amigos não quiseram te encontrar, ou talvez você tenha me dito isso para eu ter pena de você. Se foi, deu certo. Não é como se meu domingo fosse ser muito mais produtivo se eu ficasse em casa.

Então, quando eu vi, lá estava eu, em frente a sua porta mais uma vez. Estava sendo a primeira vez que eu aparecia lá como sua não-namorada. Não me sentia nervosa, mas era diferente. Estranho… Talvez eu devesse me acostumar com esse novo sentimento.

Nas minhas mãos tinha uma sacola com os ingredientes do nosso bolo de chocolate de Páscoa. Era minha tentativa de bandeira branca, de “nós conseguimos ficar no mesmo espaço juntos e sozinhos como amigos”. Eu estava, de verdade, crente disso.

Quando você abriu a porta, meu coração se acalmou. Não tinha as famosas borboletas no estômago que descrevem nos livros de romance. Interpretei isso como um sinal seguro da nossa amizade. Olhar para você me trazia uma calma sensação de familiaridade. Estava tudo bem. Não pensei duas vezes antes de beijar sua bochecha. De verdade, sequer cogitei se essa ação minha era permitida ou não. Você parecia levemente constrangido. Você sempre me pareceu um menino perdido. Você estava com aquele vinco entre as sobrancelhas que eu costumava passar o dedo afim de suavizar a expressão.

Eu me forcei a manter minha mão junto do meu corpo e resistir ao impulso de acabar com aquela cara de preocupação no seu rosto. Eu podia continuar a agir normal com você. Como se fôssemos amigos. Afinal, nós éramos, mesmo antes de namorar. Não deveria ser difícil.

E não foi.

Enquanto eu tirava os ingredientes de dentro da sacola e dispunha em cima da bancada; quando eu comecei a cortar o chocolate e você a derreter a manteiga; eu coloquei em banho maria e você foi adicionando os ingredientes um a um; e nós, juntos, colocamos a mistura dentro da forma e enfiamos no fogão. Estava tranquilo. Eu te contei da minha semana. Das provas que se aproximavam, do meu calendário de estudo que não parecia avançar, dos causos dos meus amigos, do meu novo livro.

Mesmo assim, mesmo escutando com atenção, você parecia levemente longe.

Eu tentei ignorar aquele sentimento. Que talvez eu devesse me afastar completamente de você, por bem, de uma vez por todas. As meninas sabiam que você estava solteiro e não era justo te manter junto de mim. Você merecia estar livre.

Eu estava concentrada pensando nisso enquanto lavava a sujeira que nós tínhamos deixado e não percebi você chegando perto de mim. Eu tinha aquela mania irritante de me perder nos próprios pensamentos enquanto lavava a louça. Você costumava dizer que aquele era o “meu momento de reflexão”.

Meu cabelo estava preso numa trança lateral. Você me abraçou por trás e plantou um beijo no meu ombro descoberto.

Eu não me mexi. Estava tensa. A água escorria pela colher que eu segurava na mão. Com muito cuidado, você plantou outro beijo do lado do outro. Sua respiração suave batia na minha pele quente trazendo arrepios familiares.

Você esticou sua mão devagar e fechou a torneira.

Aquilo não era para estar acontecendo, certo? Nós deveríamos ir com calma, nós estávamos amigos apenas.

Quando seu rastro de beijo chegou no ponto sensível atrás da minha orelha eu gemi. Todos os meus sentidos estavam em alerta. Meu coração batia rápido demais nas minhas costelas e eu me perguntei se você conseguia senti-lo através dos nossos corpos.

Me virei para você e não pensei duas vezes antes de sentir seus lábios nos meus. Não sei quem começou o beijo, se eu ou você, mas eu não me importava. Eu estava te sentindo de novo. O toque suave dos seus lábios, o gosto de café e cigarro da sua boca, as pequenas mordidas no lábio inferior.

Você me prensou contra o balcão da cozinha e eu pude sentir sua ereção contra mim. Puta merda.

Só me dei conta de que ainda segurava aquela colher estúpida quando eu a soltei e ela caiu no chão fazendo um estardalhaço enquanto você tirava minha blusa.

Suas mãos ásperas estavam de novo na minha pele.

— Eu odeio quando você usa sutiã.

Sua voz era rouca e baixa contra minha orelha e suas mãos ágeis em desatá-lo.

— Eu também.

Eu odiava usar sutiã. Mas ficar sem sutiã sozinha com você num cubículo, sendo que nós tínhamos toda aquela bagagem, simplesmente não parecia certo.

Ele foi jogado longe. Assim como toda a nossa aparente calma em levar nossa relação e amigabilidade.

Você apertou minha perna, raspando suas unhas contra minha pele enquanto sua mão subia por debaixo da minha saia. Você me suspendeu no balcão e se fez presente no espaço entre as minhas pernas. Arranquei sua camisa. Era bom sentir pele contra pele de novo. Sua pele contra a minha.

Você brincou com a minha calcinha. Eu achei que ia ter um troço.

Seu dedo escorregou para dentro de mim de tão molhada que eu estava.

Eu mordi sua orelha, como você gostava. Você beliscou a auréola do meu seio direito, como eu gostava.

Suas calças caíram. Sua cueca. Minha calcinha. Tudo amontoado no chão.

Eu não desgrudei minha boca do seu pescoço enquanto você colocava a camisinha.

De repente você se fez tenso nos meus braços. Seus olhos estavam preocupados, quase tristes. Você estava morrendo de medo que eu não te quisesse. Mesmo assim, isso não te impediu de parar e perguntar o que eu queria. Você sempre foi assim.

— Tem certeza?

Puxei meu fôlego de uma vez.

— Cale a boca e continue, pelo amor de Deus!

Seu sorriso foi saudoso com uma ponta de malícia. Você gostava quando eu falava de Deus no meio das nossas transas. Perigoso, meu cérebro denunciou, é quando um cara faz você pensar no seu criador.

Te ter dentro de mim, de novo, foi demais. Você sabia exatamente o que fazer, quando fazer, como fazer, aonde tocar, como tocar e quando tocar. Eu não tinha tido mais ninguém há mais de três meses desde o nosso término. Eu estava sedenta.

— Não pare.

Nunca. De me amar, de me fazer sua, de me conquistar, de ser assim.

— Eu senti uma puta falta sua.

Eu ri, enquanto encostava minha testa na sua testa. Nossos corpos exaustos e suados enroscados um no outro. Nossos cheiros.


Eu também havia sentido uma falta do caralho sua.

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