Não é que a festa estivesse ruim. Longe disso. Eu gostava da maior parte das pessoas que estavam lá, a bebida estava legal, a música tolerável e os jogos escolhidos estavam me divertindo.

Mas já estava me cansando um pouquinho.

Talvez eu fosse uma velha mesmo e todas as minhas tentativas de tentar ser jovem (ou me sentir assim) fossem naturalmente frustrantes. Por isso que eu estava naquele banco sozinha com minha bebida gelada na mão olhando o sol se por no horizonte. Havia encontrado aquele cantinho adorável enquanto estava tentando ficar um pouco longe da música que começava a me dar dor de cabeça.

Era inverno e nós estávamos na praia. O vento estava forte e eu me aconcheguei mais no meu casado de lã.

— Uma moeda pelos seus pensamentos.

Ele era uma gracinha. Não era o cara mais bonito que eu já havia visto na vida, mas tinha aquele charme italiano, ombros largos e uma barba por fazer.

— Oi, Barboni.

— Oi, Kaczmarek.

Eu sorri. Não sei da onde tínhamos tirado aquela coisa de só nos chamarmos pelo sobrenome ou quando isso aconteceu. Mas eu gostava. Ele se sentou do meu lado também ajeitando a jaqueta.

— Eu não sei porque eu ainda tenho esperanças de que você responda as minhas perguntas.

Por algum motivo que eu desconhecia, desde que ele havia voltado do intercâmbio de um ano no Canadá, ele havia encarnado em mim.

— Eu respondo ora. O que você quer saber?

Eu balanço minhas pernas enquanto cutuco o gelo da minha bebida.

— O que você está pensando.

— Se esses gelos que nós compramos são feitos realmente com água potável.

Eu ouço sua risada e viro confusa para ele. Eu acho engraçado o fato do seu cabelo ser castanho e sua barba ser levemente ruiva.

Eu dou um gole na minha bebida, agora duvidosa, e sinto o calor quase inexistente do Sol tentar aquecer minha pele lutando contra o vento frio que vem do mar.

— Por que você fugiu?

Eu olho para ele.

— Por que você fugiu?

— Você primeiro.

Eu encaro ele nos olhos numa birra para ver se ele quebra. Mas ele apenas devolve o olhar com uma intensidade até então desconhecida por mim.

Dou de ombros ainda um pouco confusa com aquele momento.

— Me cansei. Isso às vezes não te incomoda? Essas festas? Como ta todo mundo tão feliz e sorridente e falando alto? Isso me cansa. Eu também não iria perder um por do sol desses. Sua vez.

— A festa perde um pouco a graça quando fica muito óbvia. É o que acontece quando a garota mais interessante e misteriosa foge dela.

Eu o encaro com a sobrancelha esquerda levantada.

— Paloso.

— Eu estou falando sério, Kaczmarek.

Um parte (uma bem grande) de mim sabia disso. Eu só preferia ignorá-la para continuar agindo normal com ele.

Você naturalmente começa a desconfiar depois que suas colegas começam a vir até você contando que um cara veio perguntar para elas sobre você. Ou quando ele chega na sua amiga perguntando porque você era tão misteriosa. Eu tinha vontade de rir toda vez que eu me lembrava disso porque eu me achava um livro aberto.

Eu viro de supetão para ele e uma parte do meu cabelo voa para cima do meu rosto.

— Por que você está atrás de mim?

— Eu achava que eu já tinha respondido isso.

— Não agora. Desde que você voltou. Eu não sou tão interessante assim.

— Você tem uma visão bem distorcida de si mesma então.

— Você só me acha “interessante” porque você não me conhece realmente — eu faço aspas com as minhas mãos.

Barboni sorri irônico. Eu me pergunto se é assim que ele sorri enquanto ele está dentro de você e você geme.

Céus.

— Você é como várias pecinhas de um quebra cabeça. E é como se eu tentasse encaixar para elas fazerem sentido, mas eu não sei como é o resultado da figura que eu estou tentando montar. Isso deixa tudo um milhão de vezes mais interessante.

— Você sabe que isso termina de dois jeitos né?

— Conte-me.

Ele vira-se para mim, dobrando umas das suas pernas em cima do banco.

— Um: você tenta encaixar, não consegue e se cansa; dois: você se esforça um bocado e quando decifra fica frustrado com o resultado e percebe como aquele trabalho todo foi em vão.

Ele estica sua mão e enrola uma mecha do meu cabelo no seu dedo.

— Ou talvez eu fique mais encantado ainda.

Eu rolo meus olhos. Sem perceber, estou virada para ele e nossos joelhos se tocam em cima do banco.

— O que eu poderia fazer para você me deixar em paz?

Ele me olha interrogativamente. Confuso.

Sua mão ainda está no meu cabelo. Ele cheira a algo verde e fresco. Eu me aproximo rápido para não ter tempo de desistir e meus lábios estão nos dele. Seu beijo é exigente com direito a mordidas no meu lábio inferior. Eu penso se ele seria assim durante o sexo ou se terminaria sem ao menos se esforçar para me fazer gozar. Eu paro o beijo, mas nós estamos mais perto do que deveríamos.

— O que foi isso?

Sua voz sai rouca e ele pigarreia. Eu olhos para seus lábios, ainda avermelhados, e para seus olhos, nublados.

— Um experimento. Uma tentativa para eu sair da sua cabeça.

Ele sorri.

— Você me deixa deslumbrado, Kaczmarek.

O modo como ele diz meu sobrenome me arrepia por dentro. Eu quero mais daquela sensação.

Eu me arrumo no banco e olho para frente.

— Eu também queria saber como seria te beijar.

Ele ri e meu estômago se agita.

— Espero que seja tão bom quanto te beijar.

— Eu não acho que isso seja possível. Sabe, eu beijo muito bem.

— Você deveria ganhar o prêmio de mulher mais interessante, Kaczmarek.

Eu me viro para ele. Barboni tem seus olhos em mim. Eu termino minha bebida e coloco o copo no banco.

— Você sabe — digo enquanto me levanto — Não tem mais ninguém aqui — passo as minhas pernas em cada lado do seu corpo — E eu não acho que as pessoas descobririam esse lugar — sento em seu colo — nem estariam interessadas em sair da festa — Passo meu braços ao redor do seu pescoço — O que você acha?

— Eu acho que enquanto você goza você fecha os olhos, mas eu queria que você olhasse pra mim.

— Arrogante.


Talvez aquilo fosse uma loucura, mas ela não se importava.