Sexta à noite

I. Um vício

Vivian estaria mentindo se dissesse que qualquer uma das coisas que ocorreram naquela noite um dia haviam passado por sua cabeça que realmente poderiam acontecer.

Claro, ela sempre soube que Rafael usava todo tipo de drogas. Mesmo assim, nunca havia o visto minimante transtornado daquele jeito.

Agora, devidamente dentro da sua casa, quente e seca, ela olhava para ele em dúvida. Se ele realmente estivesse tão mal quanto parecia, ele não era uma ameaça. De qualquer forma, manteve o celular perto e as chaves na mão. Não era bom arriscar.

A palhaçada de poucos minutos atrás se fez presente de novo em sua cabeça e ela franze o nariz. Aquilo era, no mínimo, ridículo.

— Eu estou molhando a sua casa.

Sua casa pequena, mas ampla, não tinha cadeiras. Havia alguns banquinhos mas ela achou mais seguro deixá-lo no sofá. Ou seja, havia um quase urso, molhado e drogado, espremido no seu confortável sofá.

— Eu estou chamando algum dos meninos para vir te buscar.

Aquilo pareceu deixá-lo agitado.

— Eu preciso falar com você, Vivian.

Era bom falar o nome dela de novo. Sua cabeça ainda girava do álcool consumido. Ele não lembrava o que mais havia usado, mas chutava que devia ter fumado um ou três cigarros de maconha.

— Eu vou fazer um chá para você.

Aquilo tinha sido uma boa desculpa para se manter longe dele. Deitado no seu sofá, ela conseguia observá-lo de onde estava e vez ou outra sentia o olhar dele sobre si. Flexionou as mãos. Não tremeria na frente dele, por Deus. Era melhor do que isso.

Vê-lo ali tão perto, tão real, assustava-a. Era reviver lembranças que ela achava que tinha esquecido. E ele tinha um olhar insistente e ao mesmo tempo longe na sua direção.

— Você não poderia fazer um café?

Ele sabia o que ela achava de café depois das 18 horas, mesmo assim não custava tentar. Conseguiu de volta apenas um silêncio crítico.

Praticamente tomou um susto quando o celular vibrou no seu balcão de madeira.

— Oi, Dudu.

— Eu to saindo de casa agora. — A voz do seu amigo está agitada. Quem diria que um ex-namoro desastroso iria lhe render um amigo tão bom.

Vivian coloca a água no forno, esquentando-a.

— Desculpa por isso. Eu provavelmente estou atrapalhando a sua noite com a Ná. Desculpa mesmo.

Ele bufa. Há um chiado no fundo e ela se repreende por pensar que seu amigo está vestindo uma roupa. O que significaria que ela estava atrapalhando uma noite quente de romance. Merda.

Coloca as xícaras no balcão e escolhe as ervas para a infusão.

— Você não tem o direito de pedir desculpa por isso, Viv. — Há uma pequena pausa. Vivian sabe que ele está procurando as palavras certas. Sua voz sai cansada. — Como ele está?

Ela esfrega os olhos enquanto olha de canto para Rafael. Também está cansada.

— Ele está chapado, eu acho. Mas também ta com um cheiro desgraçado de breja. Coloquei ele no sofá em todo caso.

— Merda — ela ouve ele praguejar baixinho do outro lado. — Eu vou tentar ser rápido. Chego aí em uns 15 minutos.

— Tá tudo bem. Ele é inofensivo.

Dudu suspira.

— Mas você não merece aguentar um Rafael chapado e bêbado na sua sexta-feira, Viv. — Sua amiga não fala nada e Dudu se sente mal por ela. Ela não merece aquilo. Não agora. — Me deixe falar com ele, por favor.


Farrear naquela noite chuvosa de sexta feira havia parecido ser um bom escape da sua vida. Ficar com três meninas em uma noite já não tinha a menor graça, e as duas outras que ele havia pensado em ter algo sério acabaram como uma experiência frustrante e azeda. Ele sentia falta dela. Principalmente do som da risada dela. Pensar nisso encadeava uma série de respostas físicas no seu corpo que ele nunca estava preparado para lidar.

Vê-la rebolando graciosamente num ambiente tão dela o deixava desconcertado. Aquele robe de seda também não estava ajudando em nada. Mesmo que aquela peça deixasse apenas uma parte do seu antebraço e do seu colo visíveis, a expectativa da ausência de pano embaixo dela mexia com sua imaginação.

Ele sentia uma puta falta dela.

Por isso que, passados nove meses da separação, ele achou uma boa ideia ir de noite até a casa dela e gritar em alto e bom som seu nome no seu portão. É importante deixar claro que quem havia achado essa uma excelente ideia, tinha sido o seu eu embriagado e chapado, com o seu id esmagando o super-ego.

Claro que uma Vivian furiosa havia aparecido e, ele ainda não sabia como, havia deixado ele entrar.

— Dudu quer falar com você.

Ele olhou em dúvida para uma Vivian neutra na sua frente com o aparelho na mão. Praticamente não deu tempo dele levar o celular a orelha para um Eduardo enfurecido gritar do outro lado.

— Mas que merda, Rafael, você pensa que está fazendo?

Uou. Desde quando seu amigo ficava tão irritado?

— Calma, man. Ta suave.

— Suave o cacete!

Rafael riu. Talvez se ele não estivesse chapado, ouvir seu amigo de infância gritando desse jeito consigo, faria um efeito totalmente contrário. Jeito esse que ele vira Dudu agir umas duas vezes na vida e nunca consigo.

— Eu estou falando sério, Rafael. Eu não me importo o quanto você está drogado. Faça um mal a Viv e eu nunca vou te perdoar.

Aquele bicho estava começando a lhe irritar.

— Eu nunca faria mal a ela.

— Então o que você está fazendo aí? Se ligue. Eu estou indo pra aí te deixar em casa. Ou em qualquer lugar longe o suficiente dela. — Há uma pausa. Pela primeira vez em sua vida, seu amável melhor amigo parece realmente assustador. — Não faça mais merdas do que você já fez com a Viv. Eu estou falando sério.

Ele ouve o ronco de um motor no fundo e o telefone fica mudo. Desde quando Dudu se preocupa tanto com a Vivian? Ele sente-se ofendido. Quem é Eduardo pra se achar na posição de defendê-la

— Rafael?

Ele é puxado para a realidade com uma xícara fumegante sendo estendida na sua frente. Ele se esquece de tudo. É doce o som do seu nome saindo dos lábios dela.

Vivian ergue a sobrancelha esquerda e ele sorri inconscientemente. Devia ser o efeito da maconha, só podia. Ele lembrava de como ela era estonteante, mesmo assim, não se recordava desse efeito todo que ela exercia sobre si.

Os cabelos dela estavam enormes, escuros e armados. Ele se perde na lembrança de tê-la nua sobre si apenas com os cabelos soltos. Eles eram bons juntos.

— Você está pior do que eu imaginava.

Ele estava viajando de novo. A primeira coisa que ele repara são as olheiras arroxeadas embaixo dos olhos dela. Ele freia o impulso de passar o dedo ali para fazê-las sumir.

— Você parece cansada.

— Ah, não diga! Acho que exs chapados brotando em frente ao meu portão de onze da noite nem atrapalham a minha sexta de descanso.

Como havia deixado-a ir? Por que parecia tão difícil se lembrar disso agora?

Vivian era o tipo de pessoa boa demais para o mundo e para o convívio com o resto das pessoas. Ela merecia alguém para cuidar dela do mesmo modo que ela cuidava de todo mundo. Rafael pensava que poderia ter sido essa pessoa. Mas, lá estava ele, bêbado, alterado, molhado e largado na casa dela. Dando trabalho a ela. Mais uma vez.

— Fique comigo. Eu vou cuidar de você.

O sorriso dela não chega aos seus olhos. Ela balança negativamente a cabeça, mas, quando olha para ele, seu olhar está ferido.

— Assim como você cuidou de mim antes? Obrigada, mas eu passo.

A cabeça dele está girando. Dói vê-la assim. Há algo preso na sua garganta desde que ela foi embora e agora parece pior do que nunca. Ele sentia falta de tudo. Do cheiro que exalava da sua nuca quando a água quente do chuveiro batia nela, do tom que o seu olho chegava no sol de inverno, das pequenas mudanças de expressões que se sucediam em seu rosto, de como sua voz era rouca e doce de manhã depois de acordar.

— E-eu posso… Nós podemos tentar de novo.

Sentia-se um viciado. Sentia-se não, era. Era viciado em cigarro de nicotina, em maconha, em café. E, há quatro anos havia descoberto mais um vício.

Vivian.

Ele sempre soube que nunca a mereceria. Sentia-se um mendigo com a cocaína mais pura do mercado nas mãos. Ele não sabia como apreciá-la, ele não estava acostumado com isso. Ela era boa demais para ele. Mesmo com todos os seus milhares de defeitos, Vivian nunca teria a cabeça estragada dele, o seu passado nebuloso ou seus problemas familiares. Estar do lado dela havia proporcionado os melhores momentos da sua vida. Era ver cores vibrantes e sentir coisas que você não achava ser capaz. Era viver no meio das viagens psicodélicas de um hippie dos anos 60'.

Estar com Vivian era se sentir vivo. Finalmente.


Aaah… Férias! E finalmente a chance de botar esse projeto no papel. Provavelmente será uma história curta, divida em três partes. Espero que seja apreciada por alguém ❤