Mas o que que é saudável mesmo?

Hoje todo mundo fala em saúde e alimentos saudáveis, atividades saudáveis, suplementos saudáveis, relações saudáveis, lugares saudáveis. A cultura da saúde nunca esteve tão em evidência.

Quando a gente vai ao mercado nos vemos cercados por coisinhas embaladas ditas “saudáveis”. E agora também tá na moda no supermercados de bairro apontar pros legumes e verduras e dizer porquê que eles são saudáveis, mostrando os macronutrientes, e esses assuntos que estão na moda, falando sobre as proteínas e as vitaminas e as gorduras e etc.

Mas o que esqueceram de avisar é que o saudável depende. Tratando-se de comida, depende de quem come, depende se tá com fome, depende de como você come, que horário, depende do tipo de cozimento, depende de há quanto tempo foi cozido, depende da quantidade, depende do tempero, depende da combinação, e depende (muito) do seu estado emocional daquele momento. A partir da visão holística da Ayurveda, todos esses elementos são importantíssimos de serem avaliados pra você saber na hora que comer (ou às vezes só depois de comer) se aquilo vai ser bem assimilado pelo seu organismo como um todo, se aquele nutriente vai realmente nutrir o corpo, a mente, a alma.

O insight pra esse texto veio de uma leitura de um parágrafo do livro do Masanobu Fukuoka, “A Revolução de uma Palha”, em que ele relativiza o conceito de alimentação natural que é vista de modo geral como tudo que vem da natureza. Do ponto de vista dele, que faz parte de uma visão mais holística e portanto mais abrangente do que se refere à vida, falar sobre natureza e o que é natural não pode ser tratada a partir do juízo, no caso, a racionalidade, mas sim a partir da intuição, ou seja uma sabedoria que é apreendida a partir de uma inteligência não-discriminatória.

Quando dizemos que algo é natural pra gente vai depender do que sentimos e intuimos ao nos relacionar com esse elemento da natureza. E isso requer uma verdadeira aproximação da natureza, uma percepção do significado das formas, cores, gostos, texturas, temperaturas e como elas se relacionam com nossa constituição psíquico-física, que ignoramos pois não confiamos na nossa intuição, já que fomos criados pra confiar apenas em números e dados que definem propriedades bioquímicas dos alimentos.

Já ouviram falar de indígenas que vão à floresta e sabem qual erva tem que pegar pra tratar uma doença, sem ter nenhum conhecimento literário sobre fitoterapia e ervas medicinais? E o que falar dos cachorros que quando estão com dor de barriga comem o matinho que eles “sabem” que vai ajudar a melhorar?

Diferentemente deles, a gente não aprendeu a confiar nos sentidos, a olhar pro prato e sentir o estômago dizendo que não quer isso, mas que prefere aquilo outro. A gente não aprendeu a confiar no aperto no peito que vem quando pensamos em tomar uma decisão.

E essa forma de se relacionar intuitivamente vai além da comida. Vai pra forma de nos relacionarmos também com tudo que a gente digere, tudo que a gente se relaciona, tudo que a gente vê, ouve e experimenta.

Mas a boa notícia é que tudo se exercita, tudo se pratica. Se não aprendemos ainda, podemos começar a mudar nossa forma de apreender o mundo e como nos percebemos e nos relacionarmos com os alimentos que verdadeiramente nos preenchem de vitalidade.

Confiar nos sentidos é o primeiro passo. Pra isso precisamos apurar nossas percepções. Ficar em silêncio, observar a respiração, observar o que acontece com você e com o mundo enquanto você tá observando. E daí partir pros alimentos: observar o que acontece aí dentro quando você observa, cheira e come certo alimento, em certa hora do dia.

Se fosse pra dar um conselho em relação a comer em busca de saúde eu diria: coma quando tiver com a cabeça tranquila e com uma fome verdadeira na barriga :)

Da onde tirei isso tudo?

  • Estudos e leituras de Ayurveda: "The Complete Book of Ayurvedic Home Remedies" de Vasant Lad; "Balance your Hormones, Balance your Life" da Dr. Claudia Welch; curso "Ayurveda e Saúde" com Tiago Namaste;
  • Estudos de Fenomenologia na Pós Graduação em Ciências Holísticas no Schumacher College;
  • Livro “A Revolução de uma Palha”, de Masanobu Fukuoka