O rio, incessante, sempre progride

A vida é um constante fluxo e uma constante troca. É como um rio que brota pequenino e conforme vai correndo, vai crescendo. Às vezes esse rio está calmo e límpido e, por isso, por ele é possível enxergar as coisas muito bem. Às vezes é caudaloso e violento, portanto, é difícil ver alguma coisa através dele e podemos ser facilmente engolidos por sua correnteza forte. Às vezes se torna cachoeira; as quedas podem ser assustadoras mas a vista no final é sempre um espetáculo. Às vezes é só discreto mesmo e passa quieto debaixo da terra.

O rio também carrega consigo muita vida e energia e é muito importante para os ecossistemas. Da mesma forma carregamos muita vida e energia e somos muito importantes para os outros. Desse modo é fundamental que, assim como o rio, estejamos sempre em movimento. Não podemos parar, temos sempre que estar nadando e aprendendo, mergulhando e nos aprofundando. Às vezes precisamos enfrentar as grandes quedas d’água — nossos maiores medos — atravessar a correnteza intensa para se livrar deles. E quando precisarmos, infiltremo-nos pelo solo livrando-nos de todas as impurezas e fiquemos um tempo debaixo da terra.

O importante é nunca pararmos. Não podemos parar, senão viramos pântanos. É também necessário tomar cuidado com o esgoto, com certas ideias, emoções e pensamentos que podem ser despejados sem nenhum tratamento em nós. Não podemos simplesmente acreditar em tudo que nos dizem, da mesma forma que não podemos ficar estáticos, paralisados, achando que a mudança virá de fora, que algum fator externo, alguém ou alguma divindade é obrigado a nos empurrar para frente. Assim como o rio, temos também força suficiente para prosseguir, vencer as barragens que nos impõem (ou que nós mesmos nos impomos) e avançar por nós mesmos.

“Não se coloque dentro de uma forma, se adapte e construa a sua própria, e deixa-a expandir, como a água. Se colocarmos a água num copo, ela se torna o copo; se você colocar água numa garrafa ela se torna a garrafa. A água pode fluir ou pode colidir. Seja água, meu amigo”. — Bruce Lee

Lembremos ainda que o rio corre sempre para uma única direção. Ele não pode voltar nem fugir. Nós também não. Águas passadas são águas passadas, não podemos esquecê-las por completo mas devemos deixá-las para trás para que possamos nos concentrar no processo contínuo desse curso fluvial que são as nossas vidas. O rio, incessante, sempre progride.

Desconstruamos todas as barragens em nosso rumo, afastemos toda a sujeira e poluição e vamos também continuar fluindo.

(2015)

Em Paraty. 2016