A pureza das traças
E eu não entendia que tudo isso vinha da pureza simples das traças. Do roer sem fim e de algum limite imposto. Da nossa casa antiga, da nossa história, um pouco inventada por mim e só palpável agora no corpo da traça, também, morta. Afinal não se tratou de raça, da minha da sua, humana e inumana. Se tratou de ver aquele bicho e enxergar ali, no esquecimento daqueles livros na nossa estante, alguma memória da lembrança esquecida. Mas convém dizer que odeio esse monstro que como você abandona suas crias em paredes sujas. Detesto a anatomia asquerosa e a simplicidade lancinante com que ele deforma até o que é amorfo. Assim como você dava forma ao que já tinha fôrma. Eu tenho medo da pureza das traças. E é um pavor igual ao que veio com a sua ida.